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Reciclagem de resíduos têxteis, caminho viável para uma economia circular

Compartilhe:     |  9 de novembro de 2019

Pensar que o desenvolvimento econômico não caminha junto com a sustentabilidade é, além de ultrapassado, equivocado

O Brasil é a maior cadeia têxtil completa do Ocidente. Produzimos fibras, passamos por fiações e tecelagens, temos a maior semana de moda da América Latina, confecções e ainda um varejo aquecido. Contudo, essa indústria gera 175 mil toneladas de resíduos têxteis por ano, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) – 48 toneladas por dia só no município de São Paulo, de acordo com o Dieese, os quais possuem potencial para reciclagem e reaproveitamento.

A reciclagem de resíduos têxteis ainda acontece de forma experimental no País. Assim, todo resíduo acaba sendo destinado a aterros, demorando até 400 anos para se decompor (como o poliéster), ou é incinerado, liberando gases tóxicos responsáveis pelo efeito estufa, mudanças climáticas e poluição do ar. Esses gases tóxicos são emitidos não só na incineração no final da cadeia, mas em todas as etapas de produção.

A mistura de fibras e aviamentos dificulta a reciclagem, pois a segregação de materiais acaba exigindo uma mão de obra que inviabiliza o processo. Nesse ponto, percebemos que a destinação e ciclo de vida de um produto precisa ser pensado desde o momento de sua criação. O descarte não vem sendo levado em conta pela indústria tradicional, que, ainda com o pensamento de uma economia linear, entende que é responsável pela produção e comercialização de um produto, mas não pela destinação correta no fim de sua vida útil.

Nós também enquanto consumidores nos preocupamos muito mais com a compra de novos produtos do que com a destinação correta de seus resíduos.

Em 2010, foi instituída a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), colocando o Brasil em patamar de igualdade aos principais países desenvolvidos no que concerne ao marco legal e inova com a inclusão de catadoras e catadores de materiais recicláveis e reutilizáveis, tanto na Logística Reversa quando na Coleta Seletiva. Sob a Lei nº 12.305/10, a PNRS institui a responsabilidade compartilhada dos geradores de resíduo, ou seja, setor público, indústria, comerciantes e consumidores.

No entanto, além da falta de ações educativas para a sociedade, o próprio Ministério do Meio Ambiente aponta fragilidades no projeto, como falta de recurso para promover a coleta seletiva e a fiscalização e há pouco estímulo à cooperação entre os segmentos que deveriam estar envolvidos na gestão de resíduos.

Os governos possuem o poder de regulamentar e incentivar práticas mais sustentáveis, mas percebemos que globalmente ainda é privilegiado o crescimento econômico sobre o desenvolvimento sustentável. Os governos poderiam incentivar uma “corrida pelo primeiro lugar”, em que cidadãos e empresas sejam solicitados, incentivados e apoiados à adotar medidas de desenvolvimento sustentável. Contudo, o que vemos é a falta de maturidade de representantes da sociedade no entendimento da economia circular e oportunidades do desenvolvimento sustentável.

Ao mesmo tempo, o papel do governo é primordial no estímulo à essa mudança de mentalidade e na promoção de mudanças estruturais, de uma forma que seja interessante para as indústrias e consumidores. Pensar que o desenvolvimento econômico não caminha junto com a sustentabilidade é, além de ultrapassado, equivocado.

Podemos começar essa mudança pela nossa percepção do que é considerado lixo. Lembrando que não existe “jogar fora” do planeta, é essencial pensar no descarte com a mesma importância que pensamos nas outras etapas do ciclo de vida de um produto.

A partir dessa mudança de mentalidade, conseguimos enxergar nos resíduos uma nova oportunidade de mercado. Através da reciclagem, da reinserção de resíduos na cadeia produtiva, ou até mesmo compra e venda desses resíduos, empresas encontram soluções estratégicas que viabilizem a responsabilidade socioambiental.

A utilização de resíduos como matéria-prima na prática

Em sua edição de 2019, o projeto Trama Afetiva da Fundação Hering trouxe como tema “Um novo passo rumo à Economia Circular”. Foi apresentado um tecido de feltro feito a partir da desfibração de peças com defeitos de fábrica da Cia. Hering e que foram submetidas a um processo de tecelagem industrial, realizado pela empresa paulista Feltros Santa Fé.

ACESSÓRIOS DESENVOLVIDOS ATRAVÉS DO FELTRO RECICLADO, TRAMA AFETIVA 2019

O reuso e a reciclagem de materiais são primordiais para evitar a produção de novas matérias-primas. Segundo o CEO da Santa Fé, Luciano Amado, “sustentabilidade não é só um valor que defendemos, é a base de produção da nossa empresa. Tiramos 41 milhões de PETs/mês do lixo, transformamos em mais de 700 variações de feltros que são usados por um universo de artesãs que já soma 14 milhões.”

O estúdio Ratoroi criou a partir de sacolas plásticas recicladas o Byeplastic, um laminado de plástico que está sendo usados desde objetos de decoração à acessórios de moda.

POCHETE DESENVOLVIDA COM O BYEPLASTIC EM COLABORAÇÃO COM AS MARCAS MARIA TANGERINA E JOUER COUTURE

Já a Sagui é uma marca de óculos que reutiliza para cada armação, de 3 a 5 tubos de pasta de dente e uma sacola plástica.

ÓCULOS DA MARCA SAGUI

Projetos como esses mostram que, sim, é possível repensar e melhorar a forma como as roupas, embalagens e outros materiais são produzidos, consumidos e descartados. De acordo com o relatório A new textiles economy da Fundação Ellen MacArthur, o número de vezes em que uma roupa é vestida caiu 36% nos últimos 15 anos. Nos EUA por exemplo, as roupas são usadas 1/4 a menos que a média global, e o número de vezes de uso na China caiu 70% nos últimos 15 anos. Esse desperdício representa 460 bilhões de dólares para esses consumidores, que descartam suas roupas após 7 a 10 usos.

Ainda de acordo com o relatório, menos de 1% das roupas são recicladas ou reutilizadas no mundo. Esse número mostra que o mercado de resíduos têxteis ainda é infimamente aproveitado, e que é um mercado com potencial, considerando que o modelo de economia linear não se sustenta mais no mundo contemporâneo. A transição para uma economia circular exige mudanças estruturais no sistema, mas é urgente e de responsabilidade de todos nós, sejamos governos, indústrias ou consumidores.

Dandara Valadares faz parte da equipe de comunicação e articulação de campanha nacional do Fashion Revolution Brasil.



Fonte: Carta Capital - Por Dandara Valadares



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