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Recifes do Amazonas, com algas, esponjas e corais, estão vivos e crescem, revela estudo

Compartilhe:     |  2 de outubro de 2019

Após críticas de políticos e cientistas, estudiosos divulgam que algas, esponjas e corais na foz do Amazonas seguem em expansão. Especialistas pedem preservação na região cobiçada pela indústria do petróleo.

Desde que foi descrito como um dos ecossistemas mais importantes num local pouco provável do oceano Atlântico, o grande complexo de recifes da Amazônia despertou crítica no mundo científico e político. A região onde está localizado, na foz do rio Amazonas, é cobiçada pela indústria do petróleo com uma reserva estimada em até 14 bilhões de barris.

Novas descobertas agora revelam mais detalhes sobre os recifes: estão vivos e em expansão. É a conclusão de um artigo científico publicado na revista Nature Scientific Reports na última semana, resultado de um estudo financiado pela Capes, em parceria com o programa internacional IODP.

“O que nós fizemos foi determinar as idades da estrutura da área e mostramos que as idades são atuais, ou seja, os recifes continuam crescendo, mesmo abaixo da pluma [de sedimentos transportada pelo Amazonas]”, afirma a DW Brasil Michel Mahiques, do Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo), e primeiro autor do artigo.

Para muitos políticos e cientistas não envolvidos no estudo, seria impossível encontrar esse tipo de vida abaixo da pluma do Amazonas, que carrega materiais depositados pela floresta por centenas de quilômetros depois de encontrar o Atlântico. Essas características influenciam a composição da água salgada e luminosidade que chega ao fundo do mar.

Em dezembro passado, a Fiepa, Federação das Indústrias do Pará, organizou um seminário em que classificou como “falsos” os estudos previamente publicados e que ONGs estariam “interferindo no desenvolvimento da Amazônia”.

No entanto, análises feitas por pesquisadores de diferentes instituições brasileiras e publicadas em revistas científicas apontam que há recifes espalhados por uma área que chega a 900 km de comprimento, que se estende pela costa norte brasileira, na faixa dos estados do Pará e Maranhão, até a Guiana Francesa. Estima-se que os recifes tenham cerca de 56 mil km².

Formados por algas, esponjas e corais, esses recifes chegam a até 220 metros de profundidade, começaram a ser formados há cerca de 13 mil anos e se desenvolveram sob diferentes condições de luminosidade até se espalharem pela porção sul do Atlântico, afirma o artigo.

Segundo os autores, a análise dos materiais coletados no local em 2017 e 2019, feita com a técnica baseada no uso do Carbono 14, apontou idades modernas. “São mais jovens que 1950, que é a idade de referência do radiocarbono”, pontua Mahiques. Com a técnica de datação baseada no carbono radioativo é possível rastrear materiais de até 45 mil anos de idade.

“É preciso lembrar que uma porção muito pequena dos recifes foi mapeada até o momento”, ressalta Mahiques. “A importância dele reside muito mais na biodiversidade do que na existência de corais”, complementa.

Ciência e discórdia

A possibilidade de existência desse ecossistema na região da foz do rio Amazonas é citada por cientistas desde de meados de 1970. Por outro lado, foi só em 2016 que um estudo reuniu dados suficientes para comprovar a hipótese, que causou grande repercussão.

Em 2018, uma expedição científica a bordo do navio Esperanza, do Greenpeace, comprovou a existência de recifes sobre a faixa onde empresas de petróleo aguardavam autorização do governo brasileiro para perfurar. Além das estruturas recém-descobertas, a região tem uma das correntes mais fortes do mundo, que impõe dificuldades técnicas para instalação de plataformas de petróleo e poderia causar grandes estragos em caso de vazamento.

Ronaldo Francini-Filho, pesquisador da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), participou daquela missão. “Não acreditar que o Recife do Amazonas existe é o mesmo que não acreditar em mudanças climáticas”, diz sobre os questionamentos feitos após a comprovação da existência das estruturas.

Na avaliação de Francini-Filho, um dos autores do artigo da Nature Scientific Reports, o negacionismo científico tem sido usado para justificar projetos que promovem elevada degradação ambiental em todo o mundo.

“Enquanto que uma maioria de cientistas indica que o aquecimento global está sendo causado principalmente pela ação humana, setores interessados na expansão de fontes de energia que emitem grande quantidade de gases de efeito estufa, como queima de petróleo, negam que existam mudanças climáticas”, argumenta Francini-Filho.

O pesquisador ressalta que diferentes trabalhos científicos nos últimos dez anos têm apontado a existência de recifes de corais vivos até abaixo de 150 metros de profundidade. “No caso do Amazonas, temos um trabalho de sensoriamento remoto demonstrando que existe luz suficiente para o crescimento de corais e outros organismos construtores em áreas profundas da plataforma norte do Brasil, mesmo com a alta turbidez da água”, argumenta, fazendo referência ao artigo divulgado na publicação científica Continental Shelf Research, especializada em ambientes marinhos em águas superficiais.

Interesse da indústria do petróleo

Por causa da reserva de petróleo estimada na foz do Amazonas, empresas internacionais e brasileiras tentam há anos obter licença para exploração. No fim de 2018, um parecer do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) barrou definitivamente o processo de licenciamento da Total. O da britânica BP continua em andamento.

Após as revelações da ciência e na tentativa de preservar o ecossistema ainda pouco conhecido, a ONG Greenpeace lançou a campanha internacional “Defenda os Corais da Amazônia”. No início de setembro, uma equipe de profissionais realizou o primeiro mergulho profundo no local. Até então, o fundo do mar naquela porção tinha sido “visitado” por um submarino e um robô.

“Não podemos nos dar ao luxo de perfurar e queimar mais petróleo. Como uma comparação, mesmo se o desmatamento da Amazônia acabasse amanhã, se as reservas estimadas na região dos Corais da Amazônia forem queimadas, seria o mesmo que continuar a desmatar por mais oito anos”, diz Thiago Almeida, coordenador da campanha do Greenpeace.

Francini-Filho ressalta que, apesar do nome da campanha do Greenpeace, corais não são organismos predominantes na região e que o termo ideal a ser utilizado é Recife do Amazonas. “Não só no Brasil, mas em diversas outras regiões do mundo, os recifes de corais são construídos predominantemente por outros organismos, e não corais. O nome Corais da Amazônia pode gerar confusão em leigos e ser utilizado como justificativa para desmerecer a existência do Recife do Amazonas pelos setores interessados na exploração de petróleo na região”, diz.

Diante da polêmica, Fabiano Thomson, cientista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e um dos autores do estudo, ressalta que há um grande potencial para criar novas soluções baseadas na biodiversidade dos recifes do Amazonas, e que é preciso saber respeitar resultados científicos.

“Precisamos desenvolver pesquisa científica independente. E as empresas precisam aprender a desenvolver a cultura de tomada de decisões com base em evidências científicas”, afirmou à DW Brasil, citando que essa abordagem é comum para a criação de políticas públicas na Europa. “É importante parar esta atitude predatória e que compra cumplicidade de certos ‘pesquisadores’ para avalizar atividades sem evidência científica”, opina Thompson.



Fonte: Deutsche Welle



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