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Recorde de temperatura no sexênio (2014-2019): prelúdio do colapso ecossocial

Compartilhe:     |  21 de janeiro de 2020

“A 6ª extinção em massa das espécies e o agravamento do aquecimento global são apenas o prelúdio de um colapso ecossocial que se vislumbra no horizonte. No dia 22 de abril de 2020 se comemora os 50 anos do Dia da Terra e será uma boa oportunidade para as pessoas se manifestarem e se mobilizarem contra o caminho ecocida e suicida que a humanidade está seguindo”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado.

Eis o artigo.

“A prosperidade da vida humana e das suas culturas é compatível com um substancial decrescimento da população” (1984) – Arne Næss and George Sessions em 8 Princípios da Ecologia Profunda

Enquanto a roda viva dos eventos sociais gira de maneira alucinante e as atividades antrópicas crescem continuamente, há um desastre ecológico ocorrendo em câmara lenta (para os olhos humanos), mas que segue um ritmo aceleradíssimo para a escala geológica. Aquilo que os cientistas chamavam de maneira cautelosa de “mudanças climáticas” se transformou em “crise climática” ou “caos climático”, passando a representar um perigo existencial à civilização e uma ameaça concreta à sobrevivência da vida humana e não humana. Como disse Greta Thunberg: “Nossa casa está pegando fogo”. A crise climática é a ameaça mais urgente do nosso tempo. E o tempo para reverter o aquecimento global está se esgotando.

Depois de 5 anos (2014-2018) das temperaturas mais altas já registradas desde o início da série histórica que começou em 1880, o ano de 2019 marcou a vice-liderança e, mesmo não sendo um ano de El Niño, ficou 0,95º C acima da média do século XX. A atual década tem sido marcada por um calor excepcional, indicando uma tendência preocupante. O cenário climático está ficando cada vez mais perturbador, mais ameaçador e se agravando com muita rapidez e profundidade e os incêndios e queimadas da Austrália são apenas uma “amostra grátis” do que vem por aí.

O gráfico abaixo, da NOAA, tendo como referência básica a temperatura média do período 1901-2000, mostra as temperaturas mensais entre 1880 e 2019 e a reta de tendência dos últimos 20 anos (1999-2019). Assim, em relação à média do século XX, a temperatura de 2019 foi 0,95º C mais alta (sendo que no mês de dezembro apresentou um aumento de 1,05º C). Mas em relação ao período pré-industrial a anomalia foi de cerca de 1,2º C. Na primeira metade do século XX as temperaturas estavam abaixo da média do século e passaram a ficar bem acima da média na segunda metade do século. Já no século XXI o aumento é ainda mais significativo, pois das 19 maiores temperaturas, 18 ocorreram entre 2001 e 2019 e 8 dos anos mais quentes ocorreram na atual década.

Variação mensal da temperatura global 1880-2019 e tendência do período 1999-2019.

Nota-se que, não somente o ano de 2019 apresentou um calor excessivo, como o ritmo do aquecimento da série histórica aumentou para 0,22º C por década. A tendência do aumento da temperatura entre 1880 e 2019 foi de 0,07º C por década. A tendência entre 1950 e 2019 foi de 0,14º C por década e entre 1999 e 2019 foi de 0,22º C por década. Mas o mais surpreendente é que a tendência 2009 a 2019 apresentou um aumento de 0,36º C.

Desta forma, há, indubitavelmente, uma inquestionável aceleração do ritmo do aquecimento global. Isto quer dizer que o aquecimento pode atingir 1,5º C (o limite estabelecido no Acordo de Paris) até 2030 e pode atingir 2º C antes de 2050, abrindo a possibilidade de se chegar a algo em torno de 4º C no final do século. O mundo sairia da “emergência climática” para o “caos climático”.

Os seis anos mais quentes do Antropoceno aconteceram entre 2014 e 2019 e os dois gráficos abaixo mostram as variações mensais da temperatura. No primeiro gráfico são apresentadas as anomalias mensais e o valor de cada entre parênteses. No segundo gráfico são apresentas as variações mensais para todos os anos da série, sendo os anos mais frios em azul e os mais quentes em vermelho (2019 com os marcadores pretos).

Variação mensal da temperatura nos seis anos mais quentes da série 1880-2019.

GISTEMP Seasonal Cycle since 1880.

Com os sucessivos recordes anuais, a atual década (2011-20) é a mais quente já registrada desde o início das medições em 1880. A temperatura média da atual década ficou 0,82º C acima da linha de base 1901-2000. Nota-se que a década de 1970 ficou 0,09º C acima da média do século XX, a década de 1980 ficou 0,30º C, a década de 1990 ficou 0,41º C e a década de 2001-10 ficou 0,63º C acima da média do século XX.

Variação anual e decenal da temperatura global 1880-2020.

Todos os dados acima foram reforçados por estudo publicado dia 15 de janeiro de 2020 por James Hansen e colegas do Goddard Institute for Space Studies (GISS). Utilizando uma linha de base de 1880-1920 (início da série histórica), os autores mostram que a temperatura em 2019 ficou em 1,2º C acima. O estudo mostra que a emissão de CO2, em função da queima de combustíveis fósseis é o principal vetor de aumento da temperatura.

Temperatura global da superfície em relação a 1880-1920.

De fato, a humanidade vive uma situação inusitada. Nunca, desde o surgimento dos primeiros hominídeos – há cerca de 3 milhões de anos – houve concentração tão alta de CO2 na atmosfera e nunca, desde o surgimento do Homo sapiens – há cerca de 200 mil anos – houve uma temperatura tão alta como a que se projeta para os próximos 30 anos. Na maior parte de sua história, o Homo Sapiens viveu em temperaturas menores do que as atuais. O clima atual é uma situação totalmente atípica e que a humanidade nunca conviveu desde que desceu das árvores e passou a derrubá-las.

Acontece que esta súbita mudança climática pode levar a civilização ao colapso. Não é a natureza que está ameaçando o ser humano. O ser humano é que está se autodestruindo ao aquecer a temperatura do Planeta. E o pior é que muitas espécies inocentes podem desaparecer no Antropoceno devido à irresponsabilidade e ganância de uma espécie egoísta e que só pensa em aumentar o seu padrão de vida às custas das riquezas naturais.

Acordo de Paris, de 2015, propõe limitar o aquecimento global preferencialmente até 1,5º C e, no máximo, em 2º C. Porém, a meta mais baixa já está praticamente impossível de ser atingida e a meta superior pode ser ultrapassada até meados do atual século. O resultado deste processo de aquecimento deve ser calamitoso.

Artigo recente publicado na revista Geophysical Research Letters (Mark Zelinka, 03/01/2020) mostra que os modelos antigos subestimaram o ritmo do aquecimento global e novos estudos “representam as tendências climáticas atuais com mais precisão”. Segundo os autores, no ritmo atual o mundo caminha para uma temperatura de 5º C acima dos níveis pré-industriais, o que torna as metas do Acordo de Paris cada vez mais distantes.

aquecimento global derrete o gelo dos polos, da Groenlândia e dos glaciares elevando o nível do mar e deixando bilhões de pessoas afetadas pela invasão da água salgada e escassez da água potável. A acidificação e a morte dos oceanos vai ter um impacto devastador para a humanidade. O aquecimento e a acidificação também vai afetar a agricultura e o preço dos alimentos deve subir, aumentando a insegurança alimentar e acendendo uma centelha capaz de incendiar grandes mobilizações de massa.

O jornalista David Wallace-Wells tem escrito sobre a possibilidade de uma catástrofe ambiental. Seu influente livro “The uninhabitable Earth: life after warming” (2019), começa com a frase: “É pior, muito pior do que você pensa”. Ele mostra que o aquecimento global vai ser abrangente, terá um impacto muito rápido e vai durar muito tempo. Isso quer dizer que os efeitos danosos das mudanças climáticas vão se agravar com o tempo e, embora todas as gerações já estejam sendo atingidas, são as crianças e jovens que nasceram e vão nascer no século XXI que vão sentir as maiores consequências do colapso ambiental. A degradação ambiental vai ocorrer em várias áreas, com a acidificação dos solos, águas e oceanos, a precarização dos ecossistemas e os desastres climáticos extremos (secas, chuvas, furacões e inundações de grandes proporções), tornando muitos lugares da Terra bastante inóspitos ou inabitáveis (Alves, 2019).

Para mudar este quadro, libertar-se dos combustíveis fósseis é essencial. Porém, está cada vez mais evidente que não basta mudar a matriz energética, descarbonizar a economia e promover uma maquiagem verde no processo de produção e consumo. É preciso, urgentemente, colocar na ordem do dia o debate sobre os meios de se promover o decrescimento das atividades antrópicas. A meta de redução da pobreza deve ser alcançada pelo decrescimento das desigualdades sociais e não pelo crescimento demoeconômico desenfreado.

A destruição do meio ambiente e os efeitos deletérios da globalização vão provocar um agravamento das condições sociais de amplas parcelas da população mundial, gerando levantes populares e rebeliões. Análise da consultoria Verisk Maplecroft (16/01/2020) mostra que 47 países ao redor do mundo conviveram com distúrbios civis no ano passado, tais como Hong KongChileNigériaSudãoHaiti e Líbano. E este número pode subir para 75 países em 2020.

Até a elite econômica de Davos, na Suíça, reconhece a gravidade da situação ecológica. O novo relatório do Fórum Econômico Mundial, de janeiro de 2020, afirma que a crise climática é o maior risco global, pois se nos anos anteriores os problemas econômicos eram considerados as maiores ameaças, agora os temores de colapso climático ficaram no centro do palco. As percepções de risco se desviaram para condições climáticas extremas, desastres ambientais, perda de biodiversidade, catástrofes naturais e falha na mitigação das mudanças do clima. Uma das estrelas do evento será Greta Thunberg que reforçará a demanda pelo fim do uso dos combustíveis fósseis.

Assim, não é possível mais negar a gravidade da situação. A 6ª extinção em massa das espécies e o agravamento do aquecimento global são apenas o prelúdio de um colapso ecossocial que se vislumbra no horizonte. No dia 22 de abril de 2020 se comemora os 50 anos do Dia da Terra e será uma boa oportunidade para as pessoas se manifestarem e se mobilizarem contra o caminho ecocida e suicida que a humanidade está seguindo.

Referências:

ALVES, JED. Os 25 anos da CIPD: Terra inabitável e o grito da juventude, R. bras. Est. Pop., v.36, 1-13, e0085, 2019.

ALVES, JED. A maior temperatura em 5 milhões de anos, Ecodebate, 19/09/2016.

ALVES, JED. O clima na era dos humanos, Ecodebate, 27/07/2016.

James Hansen et. al. Global Temperature in 2019, GISS, 15 January 2020.

Mark D. Zelinka et. al. Causes of higher climate sensitivity in CMIP6 models, Geophysical Research Letters, 03 January 2020.

Miha Hribernik and Sam Haynes. 47 countries witness surge in civil unrest – trend to continue in 2020. Political Risk Outlook 2020, Verisk Maplecroft, 16 January 2020.

The Global Risks Report 2020. Para acessar clique aqui.



Fonte: REVISTA IHU ON-LINE - EcoDebate



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