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Redução da poluição no ar durante pandemia convida à mudança de comportamento social

Compartilhe:     |  29 de maio de 2020

As primeiras percepções positivas começaram pela China, país considerado o maior poluidor do mundo com intensa produção industrial baseada na queima de combustíveis fósseis. Os satélites de monitoramento de poluição da NASA e da Agência Espacial Europeia (ESA) detectaram reduções significativas de dióxido de nitrogênio (NO²) e CO2  sobre a China. Depois, com o avanço da pandemia, sobre a Itália. Há evidências de que a mudança está relacionada à desaceleração econômica após o surto de coronavírus (Covid-19).

O consumo médio de carvão nas usinas chinesas, que relatam dados diários, caiu para o nível mais baixo em quatro anos. Segundo os cientistas, a redução da poluição foi aparente perto de Wuhan, mas acabou se espalhando por todo o país após milhões de pessoas serem colocadas em isolamento. “É a primeira vez que vejo uma queda tão dramática em uma área tão ampla para um evento específico”, disse Fei Liu, pesquisadora de qualidade do ar da NASA.

As imagens a seguir mostram concentrações de dióxido de nitrogênio, um gás nocivo emitido por veículos a motor, usinas de energia e instalações industriais. Os mapas na parte superior revelam os valores de NO2  na China de 1 a 20 de janeiro de 2020 (antes da quarentena) e de 10 a 25 de fevereiro (durante a quarentena). Os dados foram coletados pelo satélite Sentinel-5 da Agência Espacial Europeia. Um sensor relacionado, no satélite Aura da NASA está fazendo medições semelhantes.

Imagens do NASA Earth Observatory com dados modificados do satélite Copernicus Sentinel 5P processados pela Agência Espacial Europeia.

Menos carros nas ruas

A redução da poluição foi comprovada em várias cidades brasileiras, como em Curitiba, Paraná. O geógrafo e pesquisador Max Anjos estuda, entre outros temas, o clima urbano e a poluição atmosférica. Atualmente, ele coordena projeto de pesquisa que visa quantificar e mapear as emissões de dióxido de carbono (CO2) das ruas de Curitiba no âmbito do programa internacional de pós–doutorado PRINT/CAPES, desenvolvido no Laboratório de Climatologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e conta com a colaboração científica do Prof. Dr. Francisco Mendonça e da graduanda em Geografia Yasmin Forigo.

A pedido do Jornal Observatório de Justiça e Conservação, os pesquisadores avaliaram as emissões de CO2 provenientes dos veículos motorizados, em algumas vias da capital do Paraná, no período de 20 a 29 de março de 2020 (durante a quarentena), e compararam com os resultados do mesmo período do ano de 2019. Os mapas mostram que os totais das emissões de CO2 durante a quarentena, no pico de fluxo de veículos, entre as 17h e às 19h, foram até 3.200 toneladas menor do que o mesmo pico em 2019 (sem quarentena), indicando uma redução significativa de 54% nas emissões. Se considerarmos a soma total das emissões por dia da semana, em todas as vias analisadas, essa redução chega aos surpreendentes 78%, como se observa na figura abaixo.

Os pesquisadores usaram modelo computacional, Sistema de Informação Geográfica, que calcula as estimativas de emissões de CO2  baseando-se na configuração das ruas, fatores de emissões e principalmente dados de contagem de veículos, cedidos pela Secretaria Municipal de Defesa Social e Trânsito do município.

‘’Apesar de serem preliminares, os resultados apresentados indicam que as medidas de confinamento e diminuição do fluxo de veículos nas ruas, devido à pandemia do COVID-19, reduziram drasticamente as emissões de CO2, o principal gás de efeito de estufa’’, salienta Max Anjos.

Impactos sobre demanda e emissões de energia geram cenário incerto

A análise inicial da Agência Internacional de Energia (AIE) e da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) sugere que as repercussões do surto poderiam reduzir em até meio por cento a demanda global de petróleo de janeiro a setembro deste ano.

A questão principal é se a redução nos impactos vai se sustentar e se eles serão compensados, ou mesmo revertidos, pela resposta do governo e da sociedade à crise. As próximas medidas de estímulo econômico, em resposta à interrupção, podem superar esses impactos de curto prazo na energia e nas emissões, como ocorreu na China, após a crise financeira global e a crise econômica doméstica de 2015.

A demanda por derivados de petróleo, aço e outros metais caiu muito mais do que a produção, resultando estoques maiores, o que vai colocar pressão para uma produção maior daqui para a frente para impulsionar a economia, inclusive por parte do governo. O que significa que as emissões podem se recuperar rapidamente, anulando o efeito positivo da queda na poluição.

Depende das vendas

A contabilidade ainda está sendo feita, mas a procura por produtos como carros, celulares e eletrônicos caiu bruscamente. O consumidor deixou de comprar devido ao não pagamento dos salários, à queda nos rendimentos e a apreensão sobre o futuro. Logo, a produção industrial e o uso de combustíveis fósseis podem não se recuperar, embora haja capacidade industrial para isso.

Outro setor que impacta na poluição é a construção civil, com a fabricação de componentes, metais, cimento, tijolos, entre outros, que demandam uma carga alta de carvão e combustíveis fósseis na fabricação. A retomada das obras e novos empreendimentos não é tão rápida. O setor deve se manter desacelerado por muitos meses, pela queda no poder aquisitivo e o cenário de incerteza econômica sobre a oferta de crédito.

A previsão é de que o valor das vendas de imóveis caia até 50% nos primeiros meses de 2020. Uma pesquisa feita pela Brain Inteligência Corporativa, divulgada em abril, aponta que 45% das pessoas que tinham intenção de comprar uma casa ou apartamento no período que antecedeu a chegada do coronavírus ao Brasil desistiram momentaneamente da compra, diante das incertezas do período.

Cancelamento de voos

O setor de transporte aéreo é responsável por boa parte das emissões de gases poluentes no planeta e as medidas de quarentena têm um impacto dramático sobre os volumes da aviação. A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (ABEAR) informou que é a pior crise que o setor já enfrentou. “A demanda doméstica teve redução de pouco mais de 90% e a internacional caiu a zero. Quem hoje está viajando são pessoas voltando para suas casas e equipes que estamos transportando gratuitamente; pessoas ligadas à saúde, que são profissionais como médicos e enfermeiros e atuam no combate à pandemia. Não há mais tráfego por conta de negócios e lazer”, afirmou o presidente da ABEAR, Eduardo Sanovicz.

Comparativo entre os voos que aconteciam em Março de 2019 e Março de 2020. Crédito: Eurocotrol.

O avião é o meio de transporte mais poluente do mundo, de acordo com a Agência Europeia de Meio Ambiente. Cada aeronave emite 258 gramas de CO2 por passageiro, com a queima do querosene, além do conjunto de outros gases e efeitos negativos que contribuem para o  aquecimento global, como óxido de nitrogênio, vapor d’água, material particulado, trilhas de condensação e alterações das nuvens. A contribuição negativa do setor é pelo menos duas vezes maior que o efeito isolado do CO2, segundo a Organização Internacional de Aviação Civil (ICAO).

Uma análise do site britânico Carbon Brief, que cobre áreas como ciência climática, política climática e política energética, aponta que o coronavírus deve causar a maior queda anual das emissões de CO2. Na China, a queda foi de 25%, dois meses após o país entrar em confinamento. A análise resumida dos dados sugere que a pandemia poderia causar cortes de emissões este ano na região de 1.600 milhão de toneladas de CO2. Essa estimativa provisória equivale a mais de 4% do total global em 2019. Como resultado, a pandemia pode desencadear a maior queda anual de emissões de CO2, mais do que em qualquer crise econômica ou período de guerra anterior.

Ainda não é suficiente

Para colocar o potencial efeito do coronavírus 2020 em um contexto climático mais amplo, vale a pena acrescentar que as emissões globais precisam cair mais de 6% a cada ano nesta década para limitar o aquecimento a menos de 1,5 ° C. Este valor é baseado no relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) de 2018, que constatou que as emissões globais em 2030 precisavam estar 45% abaixo dos níveis de 2010, para limitar o aquecimento a 1,5 ° C.

Uma taxa tão rápida de cortes anuais de emissões seria extremamente difícil de sustentar por uma década. A estrutura da economia global poderia continuar sua lenta mudança em direção a emissões mais baixas por unidade de PIB – nesse caso, a produção econômica precisaria cair 5% ao ano. Ou o PIB pode continuar a subir se acompanhado por mudanças rápidas e estruturais em direção às economias de baixo carbono.

Vidas salvas

Em várias partes do mundo a redução da poluição atmosférica pode ser sentida e vista. Na Índia, é possível ver o Himalaia pela primeira vez depois de 30 anos encoberto pelas nuvens de poluição. Crédito: Reprodução/Twitter @anshulchopraa.

A crise gerada pelo Covid-19 causou um efeito paradoxal. De um lado, temos milhares de vidas perdidas em decorrência do coronavírus. De outro, a qualidade do ar que respiramos melhorou significativamente, o que deve salvar outras milhares de vidas, principalmente de crianças.

Um levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que, pelo menos, nove em cada dez crianças estão expostas à poluição atmosférica mortal que pode desencadear asma e câncer infantil, além de prejudicar o neuro desenvolvimento. A estimativa da OMS é de que 600.000 crianças morreram de infecções respiratórias agudas causadas por ar sujo, no ano em que o levantamento foi feito, em 2016.

Uma razão pela qual as crianças são mais vulneráveis é que respiram mais rapidamente que os adultos, absorvendo mais toxinas. Em todo mundo, as doenças respiratórias crônicas representam cerca de 7% da mortalidade global, o que corresponde a 4,2 milhões de óbitos a cada ano, mais do que as piores previsões possíveis para o coronavírus.



Fonte: ((o))Eco - Sandrah Guimarães - Observatório de Justiça & Conservação



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