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Restam apenas 250 onças-pintadas na Mata Atlântica, alertam especialistas

Compartilhe:     |  28 de agosto de 2014

Por Demétrio Rocha Pereira

A Mata Atlântica abriga ainda cerca de 250 onças-pintadas, dentre as quais apenas 50 em atividade reprodutiva. A onça é mais conhecida por enfeitar a nota de R$ 50. Não é tão difícil dar de cara com ela no dia a dia, pintada nova em folha no caixa eletrônico, aninhada em grupo numa carteira bem-aventurada. Símbolo nacional, afinal de contas.

O bicho de verdade, maior felino do hemisfério Ocidental, terceiro maior do mundo (tigre e leão à frente), rondava também o bioma Pampa, mas foi varrido pelos gaúchos de todas as procedências, com e sem acento. A meados dos 1930, a pintada podia ser vista até nos arredores de Porto Alegre, sempre solitária, que em grupo é invenção de carteira cheia: o animal tem manhas de gato, gosta de viver só.

No Rio Grande do Sul de agora, o número de onças se calcula em quatro ou cinco, punhado espremido no Parque Estadual do Turvo, em Derrubadas, esquina com Argentina e Santa Catarina. Esse assassínio gradual da espécie Panthera onca tem relação direta com a devastação da Mata Atlântica, reduzida a menos de 10% da sua cobertura pré-colonização europeia. Das áreas restantes, apenas 24% são extensas o bastante para hospedar as onças, e o animal está ocupando 7% desses retalhos, publicaram 13 cientistas brasileiros em janeiro na revista Science.

– A onça está praticamente extinta no Estado, e o nosso alerta é que o Rio Grande do Sul não está sozinho. Em toda a costa brasileira está havendo declínio – diz Eduardo Eizirik, professor da Faculdade de Biociências da PUCRS e coautor da carta-alerta na Science.

O biólogo Dante Meller, gestor do Parque do Turvo, reputa a sobrevivência de onças no Estado à proximidade com a província argentina de Misiones, cujas florestas se estendem até o Parque Nacional do Iguaçu (PR).

– É um animal difícil de ser avistado. Normalmente encontramos rastros. Há poucos dias soubemos de pegadas num município próximo à Reserva Indígena do Guarita, a 15 quilômetros daqui. Achamos que a onça faz esse trajeto de ida e volta – sugere Dante, lamentando o conflito com agricultores e pecuaristas. – Procuramos trabalhar, mas há pouca gente. O povo se estabeleceu nessa cultura de caçar e explorar a floresta.

O cenário não é muito melhor no Iguaçu, onde a população de onças caiu de 180 para 18, informam Marina Xavier da Silva e Ronaldo Morato, que coordenam, respectivamente, o projeto Carnívoros do Iguaçu e o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap).

Uma das soluções para estancar a sangria é a criação de corredores interligando todos os
biomas, da Argentina ao México (abaixo, no Uruguai, e acima, nos EUA, a onça já era). O internacional Panthera Project tenta desenhar essas rotas convencendo fazendeiros e comunidades da importância de deixar a onça viajar em segurança. Em um trabalho exibido nas televisões de 53 países, o Instituto Onça-Pintada (IOP) acompanhou a jornada da jaguar ?Lenda?, que emigrava do Cerrado para o rio Araguaia, corredor natural até a Amazônia, esperança de sobrevivência e acasalamento.

Detetive ecológico

Tirar as onças do isolamento não é apenas conservar vivo um bicho majestosamente bonito, felino da mordida mais forte, por meses morador de árvores, por quilômetros nadador de rios. Predador do topo da cadeia alimentar, ele cumpre papel fundamental no equilíbrio do ecossistema, controlando populações de capivaras, veados, queixadas, raposas, guaxinins, porcos do mato e tudo o mais que, demais, vira praga de fazenda.

Presidente do IOP, o biólogo Leandro Silveira aponta que o maior algoz da onça na Mata Atlântica tem sido a falta de alimento decorrente da caça ilegal a suas presas. Leandro diz que, extinta a onça, perseguida como ameaça ao gado, os caçadores dariam cabo também das eventuais pragas, mas o desequilíbrio estaria instaurado.

– Já está acontecendo. A falta de onças e suas presas está afetando a diversidade de plantas e, assim, toda a fauna associada a elas – aponta.

Uma floresta em que os reis são herbívoros é uma floresta com os dias contados. Destruída a vegetação, animais como insetos precisariam se mudar. E que lugar melhor para insetos retirantes do que uma lavoura? Viessem os carnívoros menores tomar o lugar da onça, as vítimas da vez poderiam ser as aves, hábeis semeadoras da floresta. Fica pior: áreas hoje protegidas se abririam mais facilmente à festa do desmatamento, que já autografa 15% das emissões de gases do efeito estufa. Para não arriscar muita previsão, dá para resumir assim: quanto menos mata, menos onça, e quanto menos onça, menos mata.

Entre 2002 e 2004, o IOP esteve em acordo com 14 fazendas que cobriam 400 mil hectares do Pantanal (onde, aliás, 95% das terras são privadas): ninguém podia matar onça nenhuma, e qualquer carcaça de boi encontrada e certificada como obra da pintada era indenizada pelo instituto. As propriedades compromissadas com o meio ambiente também recebiam assistência médica, odontológica e educacional.

– Todas as fazendas parceiras melhoraram o seu manejo do gado. Os prejuízos por causa das onças eram em média 90% menores do que os relatados antes do projeto. A maior lição foi de que é infinitamente mais barato e socialmente correto ter o fazendeiro como parceiro da conservação do que tratá-lo como vilão. Dar assistência mínima é mais barato do que desapropriar, manter e fiscalizar 400 mil hectares na forma de uma reserva – conclui Leandro.

A tática desaguou na Aliança para a Conservação da Onça-Pintada, que atua no Pantanal, no Cerrado, na Amazônia e na Caatinga. Quanto à Mata Atlântica, Leandro tem poucas esperanças.

– Em 2008, o IOP publicou um artigo sobre a situação da onça-pintada nos diferentes biomas do Brasil. A Mata Atlântica teve a pior classificação. O desenvolvimento urbano e as densidades humanas no entorno das poucas áreas de reservas deixam poucas alternativas para reconectar as populações restantes – lamenta, acrescentando que “está passando da hora de ficar apenas pesquisando”.

Veterinário e chefe do Cenap, Ronaldo Morato ressalta que o centro vem articulando projetos como o Plano de Ação para a Conservação da Onça Pintada e a própria Aliança, que busca concentrar os trabalhos dos diversos agentes, evitando a duplicação de esforços. Como exemplo da colaboração crescente entre pesquisadores, Morato menciona a Rede Sisbiota ? Predadores de Topo, coordenada pelo professor Pedro Galetti, da Universidade Federal de São Carlos (SP).

Para Morato, há lugar para otimismo – ao norte do equador, o reflorestamento, a reintrodução e a translocação de indivíduos vêm recuperando populações de carnívoros. Por outro lado, o tripé caça/hábitat degradado/aquecimento global é réu em vários outros processos de extinção, como o dos tubarões e arraias, que devem ser talhados aos 25% nas próximas décadas, divulgou no mês passado a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais. Segundo o geneticista da PUCRS Eduardo Eizirik, “a visão realista não é boa”.

– Não é fácil ficar otimista. Temos de reverter a estrutura como os humanos interagem com recursos naturais, o lixo, a geração e o consumo de energia. Precisamos pensar nos impactos que causamos. É necessário e é bom que a humanidade amadureça.



Fonte: Zero Hora



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