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Rio é o estado do país onde há o maior consumo diário de água por habitante

Compartilhe:     |  21 de dezembro de 2014

Em tempos de torneiras secas e escassez hídrica, o Rio dá um exemplo negativo em sustentabilidade. Entre os estados da federação, é o que mais gasta água por habitante, com consumo médio per capita de 244 litros diariamente. Mais do que o dobro das taxas de países europeus e reflexo, segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO, do desperdício e da gestão precária da Cedae e de concessionárias privadas que operam no interior. O baixo número de residências dotadas de hidrômetro no estado (62,7%) — enquanto em São Paulo e Minas Gerais o patamar ultrapassa a faixa dos 90% — mostra essa falta de controle e contribui para o uso perdulário de um bem finito. Os dados são do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), do Ministério das Cidades.

O cotidiano de desperdício contrasta com a maior estiagem já vista no Sudeste nos últimos 84 anos. Um boletim da Agência Nacional de Águas (ANA) aponta que o volume médio dos quatro reservatórios do Rio Paraíba do Sul — que abastece Rio, São Paulo e Minas Gerais — estava em 1,8%. Há um ano, o patamar chegava a 47,8%. O reservatório de Funil, em Itatiaia, único que fica no Estado do Rio, também se aproxima do volume morto, com 5% de reservas hídricas.

Consultor em saneamento e especialista em gestão de serviços públicos, João Batista Peixoto afirma que o consumo de água fluminense supera qualquer parâmetro razoável. Segundo ele, seriam suficientes 140 litros por habitante/dia para satisfazer — e com conforto — as necessidades de cada habitante. Alguns organismos internacionais ligados à Organização Mundial da Saúde (OMS) chegam a estimar valores em torno de 100 a 150 litros diários como suficientes para uma pessoa saciar a sede, ter higiene adequada e preparar alimentos.

Peixoto estima que a Região Metropolitana poderia economizar ao menos 40% dos 48 metros cúbicos por segundo que a Cedae distribui para 8,4 milhões de pessoas a partir da Estação de Tratamento de Água (ETA) Guandu. Isso significa uma “sobra” de aproximadamente 1,6 bilhão de litros por dia. Mudar esse paradigma, entretanto, exigirá investimentos e vontade política.

— A conta de 140 litros por habitante/dia é um volume racional, que garante o conforto. O Rio está muito acima de qualquer parâmetro razoável, mesmo considerando que a população fluminense está concentrada no litoral, o que remete a um consumo mais elevado — alerta o especialista. — Chama a atenção o percentual baixo de instalação de hidrômetros em comparação com outros estados. Isso prejudica as ações de controle. O alto consumo é, na realidade, reflexo do desperdício. A lógica deve ser: o cidadão paga mais se consome mais. A instalação de hidrômetros é um investimento barato e necessário.

De acordo com o Ministério das Cidades, o consumo médio per capita de água no Estado do Rio é “bastante influenciado” pelo consumo médio por habitante abastecido pela Cedae, que, em 2012, foi de 265,3 litros por habitante/dia.

Síndico de um condomínio na Tijuca, o representante comercial Paulo César Spitz, de 61 anos, é o exemplo de que pequenas atitudes podem ajudar a mudar esse jogo. Com uma medida trivial — o reaproveitamento da água depois das lavagens das caixas —, ele conquistou um prêmio do Sindicato da Habitação do Rio (Secovi-RJ). Há três anos, seu prédio conseguiu derrubar o valor das contas de água pela metade.

— Uma lei municipal obriga os municípios a lavarem suas caixas d’água a cada seis meses. Normalmente, os condomínios jogam fora, nas galerias pluviais, toda a água depois da lavagem. Eu implementei algo diferente: passei a reutilizar. Economizo até 60 mil litros todos os meses. Aqui no prédio não tem desperdício, essa história de lavar o playground ou a fachada a toda hora — comenta Spitz. — Pretendo em breve instalar tubulações para jogar num reservatório as águas das chuvas. Acredito que possa conseguir uma economia de mais cinco mil litros por mês. Se todos os prédios fizerem algo parecido, certamente teremos um futuro melhor.

CEDAE DESTACA PUNIÇÃO A ‘GASTÕES’

Enquanto casos do tipo ainda são exceções à regra, as operadoras de saneamento que atuam no Rio afirmam estar investindo para reduzir o desperdício. De acordo com a concessionária Águas de Niterói, as perdas na distribuição eram de 40% em 1999 e hoje estão em 16%. A cidade é abastecida pelo sistema Imunana-Laranjal, que também sofre com a estiagem. Alexandre Boaretto, diretor da empresa, reconhece que há dificuldades em controlar o consumo de água em comunidades dominadas pelo tráfico.

— Trabalhamos muito em ações de controle e gestão, fizemos uma ampla reestruturação. Temos dificuldades para entrar em algumas comunidades, como ocorre com várias prestadoras de serviço. Mas o nosso índice de perda é muito baixo.

Wagner Victer, presidente da Cedae, estima as perdas na distribuição em 30% e afirma que a estatal investiu, nos últimos oito anos, R$ 600 milhões em trocas de redes obsoletas:

— Já trocamos 70% das redes antigas e estamos finalizando para chegar a 95% ainda em 2015. Quando eu entrei na Cedae, tínhamos um parque de hidrômetros sucateados. Em 2007, o cidadão precisava esperar duas semanas até ser atendido numa reclamação de vazamento de água. Hoje (o tempo de espera) é inferior a 36 horas. Estamos substituindo 150 mil hidrômetros por ano.

Victer descarta a adoção de medidas de punição aos “gastões”, como o governo de São Paulo anunciou na última quinta-feira. O paulista que tiver um aumento de consumo igual ou menor que 20% (em relação à média de fevereiro de 2013 a janeiro de 2014) terá 20% de acréscimo na conta de água.

— Neste momento, isso não está em discussão. Não estamos num momento de racionamento. Modificamos captações, fizemos um tremendo dever de casa.

O engenheiro Ricard Frigola Perez, diretor da Aqualogy, empresa ligada à companhia Águas de Barcelona, dá a dimensão do desafio do Rio. Na capital da Catalunha, o consumo médio é de 105 litros por habitante/dia. Os investimentos no setor de abastecimento ganharam força após os Jogos Olímpicos de 1992 — na ocasião, o índice de perdas superava 30%.

— Atualmente, as perdas em Barcelona chegam a 15% — diz. — O Mediterrâneo tem um regime complicado de chuvas, são comuns os problemas de abastecimento de água. As medidas de eficiência de gestão vão acontecer no Brasil, isso é inexorável.

Para Airton Sampaio Gomes, especialista em eficiência em sistemas de abastecimento e consultor do Banco Mundial, o Japão é outro caso de sucesso, com perdas de apenas 4%. Ele destaca que as empresas de saneamento do Rio não são sequer reguladas pela Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico (Agenersa).

— As perdas no Rio certamente superam os 30% anunciados pela Cedae. Falta uma prioridade no combate às perdas. Costuma-se priorizar o aumento da oferta, em detrimento do controle de demanda e do combate ao desperdício. O Rio está muito atrás dos outros estados do Sudeste. Ainda surfa na abundância de recursos, mas esse cenário vai mudar. É questão de tempo.



Fonte: O Globo



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