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Saguis ‘invasores’ se proliferam em Florianópolis com ‘ajuda’ de alimentação indevida

Compartilhe:     |  28 de abril de 2019

Carismático, o sagui-de-tufos-pretos conquistou a simpatia dos moradores de Florianópolis. Não é difícil ver o primata interagindo com visitantes em parques da capital catarinense.

O contato entre humanos e saguis, no entanto, pode ser prejudicial às duas espécies: o sagui transmite doenças ao homem e perde a capacidade de procurar alimento na natureza depois de se habituar ao alimento oferecido por humanos.

Além disso, o sagui-de-tufos-pretos não é nativo de Santa Catarina: trazido na boleia de caminhoneiros nos anos 1960, o animal chegou ao estado por meio do tráfico ilegal e se reproduziu até tornar-se uma espécie exótica invasora.

Ainda não se sabe o tamanho do prejuízo ambiental que a espécie está causando no ecossistema da ilha, mas é possível o sagui compete por alimento com primatas nativos, como o macaco-prego, e pode predar ovos e filhotes de aves nativas.

Nesta semana, o Desafio Natureza do G1 publica uma série de reportagens sobre impactos ambientais, sociais e econômicos que as espécies invasoras causam a partir da história do javali, do sagui-de-tufos-pretos, do mexilhão-dourado e do pinheiro.

 — Foto: Roberta Jaworski/G1

— Foto: Roberta Jaworski/G1

Contato humano

Os saguis já fazem parte do dia-a-dia de Florianópolis. Moradores e turistas estão acostumados a encontrar o animal nos arredores de parques ou em áreas próximas a matas remanescentes.

83% dos visitantes do Parque Municipal do Córrego Grande e 92% dos moradores dos arredores avistam os saguis com frequência, segundo pesquisa feita pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O parque é o maior urbano de Florianópolis, com cerca de 21 hectares de Mata Atlântica.

Os saguis também são comuns em trechos do Parque Estadual do Rio Vermelho e em áreas de mata ao redor da Lagoa da Conceição.

Sagui-de-tufos-pretos no Parque Municipal do Córrego Grande, em Florianópolis — Foto: Celso Tavares/G1

Sagui-de-tufos-pretos no Parque Municipal do Córrego Grande, em Florianópolis — Foto: Celso Tavares/G1

O problema é que, além de tirar fotos ao avistar os saguis, alguns moradores ainda insistem em alimentar o animal. 13% dos moradores e 7% dos frequentadores do Parque do Córrego Grande admitem oferecer alimento aos saguis. Dos moradores, 63% relataram que os saguis têm costume de entrar nos seus terrenos, isto é, ultrapassar os limites do parque. Destes, 24% afirmaram que os animais entram nas casas em busca de alimento.

“As pessoas dão comida para esses animais porque ele é fofinho, bonitinho, é uma prática comum. Elas deixam um pratinho com frutas para promover a aproximação do animal silvestre. Isso é feito na ilha toda”, explica a bióloga Cristina Valéria Santos, que estuda os saguis há mais de 15 anos.

A alimentação provida pelo homem faz com que os animais se tornem menos capazes de encontrar o próprio sustento. “Eles acabam se tornando mais fortes e não passam pelas privações naturais que os animais silvestres passam”, afirma Santos. “Isso vai impactar positivamente na reprodução e vai deixar os saguis em vantagem em relação às espécies nativas.”

Jovem oferece frutas para atrair saguis no Parque Municipal do Córrego Grande, em Florianópolis — Foto: Celso Tavares/G1

Jovem oferece frutas para atrair saguis no Parque Municipal do Córrego Grande, em Florianópolis — Foto: Celso Tavares/G1

A proximidade com os humanos causa prejuízos ao sagui e também ao homem. Já foram registrados casos de saguis que morderam pessoas que se aproximaram abruptamente no Parque do Córrego Grande.

O contato estabelecido entre saguis, animais domésticos e humanos também pode promover a disseminação de doenças. O intercâmbio de patógenos é facilitado pela proximidade genética entre os primatas e os humanos.

“Todos os animais selvagens podem transmitir doenças, assim como nós podemos transmitir doenças para o sagui também”, explica a veterinária Cristiane Kolesnikovas. Dentre as enfermidades que eles hospedam estão varíola, sífilis, raiva e herpes.

No Ceará, o sagui é um dos principais transmissores de raiva para humanos, segundo estudo do Laboratório Central de Saúde Pública do Ceará (Lacen). Dados do Ministério da Saúde mostram que houve aumento no número de casos de raiva humana nos anos em que foram registrados mais saguis contaminados pela doença no Nordeste.

A espécie também é altamente suscetível à febre amarela. Os saguis atuam como uma espécie de sentinela contra a doença já que, em geral, são os primeiros a contrair o vírus, o que permite que as autoridades adotem medidas de prevenção para evitar que os surtos cheguem aos humanos.

Biodiversidade

Além dos riscos à saúde, o sagui também pode representar uma ameaça à biodiversidade de Florianópolis.

“Eles competem por alimento com as nossas espécies nativas”, diz Kolesnikovas. Um dos animais nativos que tem alimentação similar a dos saguis é o macaco-prego.

“Por serem animais generalistas, que comem de tudo, os saguis-de-tufos-pretos também podem atacar ninhos, comer ovos ou filhotes de passarinhos e causar desequilíbrio ambiental nas espécies daqui”, diz a veterinária Cristiane Kolesnikovas.

Para a bióloga Cristina Santos, ainda faltam estudos capazes de demonstrar o impacto da superpopulação de saguis nas espécies nativas da ilha de Santa Catarina.

“É fato que ele está aumentando sua área de distribuição aqui mas a gente ainda não sabe exatamente o impacto disso na biodiversidade e nas populações de espécies nativas”, diz.

Visitantes e moradores oferecem alimento para os saguis na ilha de Santa Catarina — Foto: Celso Tavares/G1

Visitantes e moradores oferecem alimento para os saguis na ilha de Santa Catarina — Foto: Celso Tavares/G1

Ainda não há evidências científicas da predação contínua e crescente de ovos de aves por saguis. Por isso não é possível determinar que essa predação é a causa principal do desaparecimento de espécies de aves em Florianópolis. Outros fatores que prejudicam as aves nativas na cidade são o crescimento urbano acelerado, a diminuição e fragmentação de áreas com florestas e também a captura de aves para criação e tráfico ilegal.

Pesquisadores avaliam que a invasão biológica dos saguis-de-tufos-pretos nos parques da região Sul do Brasil é uma ameaça constante a essas áreas protegidas. No entanto, as ações para controle dessas bioinvasões não visam erradicar a espécie invasora, já que em muitos casos a medida é praticamente impossível graças a facilidade de instalação e dispersão dos saguis.

Responsável pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), que acolhe saguis apreendidos em operações da Polícia Ambiental, Cristiane Kolesnikovas acredita que eventuais medidas de controle só terão resultado no longo prazo.

“Para começarmos algum projeto de controle populacional precisaria ser feito primeiro um levantamento de quantos animais a gente tem na ilha para que, depois, no caso de um processo de castração, a gente tenha certeza que todos os animais estão castrados”, diz.

Educação ambiental

A falta de conhecimento sobre espécies exóticas invasoras contribui para que o sagui se dissemine ainda mais em Florianópolis. 46% dos visitantes do Parque do Córrego Grande ainda acreditam que a espécie é nativa da ilha de Santa Catarina. Para mudar esse cenário, projetos de educação ambiental se intensificam.

No Parque Estadual do Rio Vermelho, condutores ambientais explicam aos visitantes como a espécie tornou-se exótica invasora e quais riscos sua disseminação oferece. Para isso, alguns dos saguis-de-tufos-pretos encaminhados ao Cetas ficam expostos em recintos ao longo da Trilha do Rio Vermelho. Ao todo, 18 saguis vivem em cativeiro no Cetas. Por serem espécies exóticas, os animais apreendidos não podem ser reintroduzidos na natureza em Santa Catarina.

Sagui fica em recinto aberto ao público no Parque Estadual do Rio Vermelho — Foto: Celso Tavares/G1

Sagui fica em recinto aberto ao público no Parque Estadual do Rio Vermelho — Foto: Celso Tavares/G1

No Parque Municipal do Córrego Grande também são realizadas atividades para promover a conscientização sobre espécies exóticas invasoras.

“Antigamente, quando a gente fazia as intervenções, as pessoas achavam muito ruim a gente falar que não pode dar banana para o sagui então às vezes a gente era recebido de maneira agressiva”, lembra Silvane Dalpiaz, coordenadora de educação ambiental da Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis (Floram).

Para Dalpiaz, a situação começou a melhor por conta das atividades realizadas com crianças que visitam o parque em excursões escolares. “As crianças levam essa percepção para a casa, e normalmente, quando voltam com suas famílias ao parque já têm outro entendimento”, explica.

Área de piquenique no Parque Municipal do Córrego Grande atrai saguis pela oferta de alimentos — Foto: Celso Tavares/G1

Área de piquenique no Parque Municipal do Córrego Grande atrai saguis pela oferta de alimentos — Foto: Celso Tavares/G1

O trabalho de educação ambiental feito pela Floram é focado na explicação de como o sagui chegou à ilha e qual a participação do ser humano em sua disseminação e introdução.

“Se nós seres humanos não revermos nossa relação com o ambiente e não entendermos que nós somos o ambiente, nós vamos continuar prejudicando, impactando e trazendo espécies de outros lugares”, afirma Silvane Dalpiaz.

Izaias dos Santos, condutor ambiental no Parque Estadual do Rio Vermelho, se esforça para passar essa mensagem aos visitantes que encontram o sagui na trilha do Rio Vermelho.

“O sagui é visto como uma praga pela sociedade mas ele não tem culpa”, diz. “O verdadeiro culpado da grande população desse animal são as pessoas que tiveram ele [como animal] doméstico no início, quando ele começou a vida dele aqui em Florianópolis.”

Introdução da espécie

O sagui-de-tufos-pretos é uma espécia nativa do Cerrado. Sua distribuição natural não atinge o estado de Santa Catarina. Acredita-se que ele chegou até Florianópolis principalmente por meio do tráfico ilegal de animais silvestres.

Os primeiros animais apareceram nos anos 1960 trazidos por caminhoneiros que vinham do Nordeste. Muitos ofereciam o animal como bicho de estimação aos moradores da ilha, que com frequência abandonavam os saguis na mata pouco depois. Só em 2012 o Conselho Estadual do Meio Ambiente de Santa Catarina proibiu a venda de saguis em todo o estado.

A devolução inadequada à natureza de animais apreendidos também pode ter contribuído para a disseminação do sagui no estado. Isso ocorre porque apenas em 2004 o Ibama publicou uma instrução normativa que regulamenta a reintrodução de animais nas matas. Ainda hoje, por conta da falta de informações, muitas devoluções de animais à natureza são feitas fora de seus habitats originais e em desacordo com as necessidades das espécies.

Sagui de tufos-pretos é espécie invasora em Santa Catarina — Foto: Celso Tavares/G1

Sagui de tufos-pretos é espécie invasora em Santa Catarina — Foto: Celso Tavares/G1

Sagui pelo Brasil

O tráfico ilegal de animais silvestre levou o sagui-de-tufos-pretos para diversas regiões do país. Além de Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro também têm focos de distribuição do animal em áreas que não são seu habitat natural.

Em Ilhabela, a espécie foi introduzida por turistas que têm saguis como animais de estimação e os levam para passear nas férias. O Parque Estadual de Ilhabela estima que já existam pelo menos 250 indivíduos em toda a ilha. O ONG Animalia, localizada em São Sebastião, recebe animais silvestres capturados pela Polícia Ambiental ou por agentes da secretaria estadual de Meio Ambiente. Em 2018, 15 saguis foram acolhidos pela instituição.

No Rio de Janeiro, o Laboratório de Ecologia de Mamíferos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) já está castrando os saguis machos que são apreendidos e encaminhados à universidade. O processo é feito sem cirurgia, por meio de uma injeção química.

A superpopulação de saguis em todo o país dificulta até mesmo o encaminhamento dos animais apreendidos pelo Ibama ou pelas Polícias Ambientais estaduais.

“Os saguis hoje já são um problema nacional então é difícil dar um destino diferente para os animais que nós temos aqui em cativeiro”, explica Cristiane Kolesnikovas, do Cetas. “Os zoológicos, as instituições legalizadas e até mesmo os laboratórios de pesquisa que poderiam acolher os animais apreendidos em áreas de invasão já estão todos lotados de saguis.”



Fonte: G1 - Patrícia Figueiredo



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