O lixo em questão

Saiba como a produção consciente de lixo, mesmo ainda tímida, promove mudanças

Compartilhe:     |  27 de fevereiro de 2021

Levantamento estima que foram coletadas 178 mil toneladas por dia de resíduos sólidos urbanos nos municípios brasileiros

Compostagem, uso de bucha natural para lavar louça, fabricação do próprio desodorante e a utilização de sacolas de papel em substituição às de plástico se tornou um hábito na vida de Thayna Dalsasso. A dona de casa, formada em história, tem como meta o descarte de lixo zero. Ela ainda é uma exceção em um país que tem muito a avançar na política de resíduos sólidos.

Thayna Dalsasso mudou os hábitos de vida quanto ao descarte de resíduos sólidos urbanos – Foto: Leo Munhoz/NDThayna Dalsasso mudou os hábitos de vida quanto ao descarte de resíduos sólidos urbanos – Foto: Leo Munhoz/ND

Dados mais recentes do Diagnóstico do Manejo de Resíduos Sólidos Urbanos – ano de referência 2019 – do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento da Secretaria Nacional de Saneamento apontaram que cada brasileiro produziu, em média, 0,990 gramas por dia de resíduos sólidos urbanos.

Segundo o levantamento, cujo dados são de responsabilidade das prefeituras, titulares dos serviços – o valor médio per capita em relação à população urbana, o catarinense descartou, diariamente, 0,850 gramas de resíduos sólidos, um total de 310,25 quilos no ano. Em comparação com os outros dois Estados vizinhos, o Paraná foi de 0,870 gramas e o Rio Grande do Sul 0,840 gramas. No país, o Ceará ficou em primeiro lugar com a produção de 1,55 quilo de resíduos sólidos por habitante. Amapá e Roraima foram os Estados que geraram menos descarte.

Pouco seletiva

O diagnóstico estima que foram coletadas 65,11 milhões de toneladas por ano ou 178,4 mil toneladas por dia de resíduos sólidos urbanos nos municípios brasileiros. Enquanto isso, a massa coletada de resíduos recicláveis foi de apenas 13,5 quilos por habitantes, equivalente a 1,6 milhão de toneladas coletada seletivamente em 2019.

“Isto significa dizer que, para cada 10 quilos de resíduos disponibilizados para a coleta, apenas 374 gramas são coletadas de forma seletiva; fato que conduz à conclusão de que a prática da coleta seletiva no país, embora apresente alguns avanços, ainda se encontra num patamar muito baixo”, apontou o relatório.

Descarte inadequado atrapalha reciclagem

Para o professor doutor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Armando Borges de Castilhos Junior, apesar de os números de descarte de resíduos sólidos ainda estar longe do ideal, há claramente, uma inflexão na curva de produção de resíduos, fruto, segundo ele, da implantação da política nacional de resíduos em 2010.

Em Florianópolis, 43% dos recicléveis secos são embalagens de papel e plástico – Foto: Leo Munhoz/NDEm Florianópolis, 43% dos recicléveis secos são embalagens de papel e plástico – Foto: Leo Munhoz/ND

“Quero creditar isso justamente a uma política importante da questão de manejo e gerenciamento de resíduos”, disse ele, ao lembrar que foram 20 anos do projeto tramitando no Legislativo até a aprovação.

Armando Júnior lamenta que a coleta seletiva em Florianópolis não seja das melhores. De acordo com ele, 6% a 7% dos resíduos são efetivamente coletados seletivamente e encaminhados para reciclagem.

O professor enfatizou que em um estudo em fase de elaboração, percebe uma quantidade de quase 30% de rejeitos nos resíduos coletados seletivamente. Ou seja, resto de preparos de alimentos e de consumo de alimentos, mais conhecido como “resto de comida no prato”.

O professor disse que o poder público precisa fazer campanha educativa para ensinar a população a saber separar em casa corretamente. “Quando a gente fala em resíduos recicláveis, todo mundo pensa no reciclável, os chamados secos: papel, plástico, vidro e metais, mas a matéria orgânica que compõe 50% em peso dos resíduos, ou seja, a maior quantidade, também um resíduo reciclável, que pode ser introduzido no solo e funciona como um corretivo de solo, um adubo orgânico”, explicou.

Valor da matéria orgânica

O professor Castilhos Junior observa uma mudança comportamental na sociedade que está começando a pensar na questão da recuperação da matéria orgânica, ou seja, na coleta seletiva da matéria orgânica, como tem feito a jovem Thayna.

“São passos que têm que ser dados, tanto a população quanto seus gestores têm que aprender a coletar seletivamente o orgânico. Isso é um aprendizado, não é fácil você guardar matéria orgânica dentro de sua casa quando a coletiva seletiva passa só uma vez por semana. Tem que ter proatividade de todos, nós cidadãos somos responsáveis, pois geramos os resíduos. Quando a gente paga a Taxa de Resíduos Sólidos no IPTU, a gente transfere para o poder público essa responsabilidade, mas no final o gerador somos nós”, finalizou.

De sobras de sopa à compostagem

Uma reportagem em 2014 de uma moradora de Londres, capital inglesa, foi a inspiração para Thayna Dalsasso mudar de vida quanto ao descarte de resíduos sólidos urbanos, assim como também em relação ao consumismo.

Thayna conseguiu convencer o síndico do prédio a ceder um espaço para a produção de adubo orgânico, que é compartilhado com os vizinhos – Foto: Leo Munhoz/NDThayna conseguiu convencer o síndico do prédio a ceder um espaço para a produção de adubo orgânico, que é compartilhado com os vizinhos – Foto: Leo Munhoz/ND

No apartamento localizado em Palhoça, ela tem implementado iniciativas para reduzir a zero o descarte de resíduos. Entre elas, um balde de compostagem, que pode diminuir mais da metade do resíduo em casa.

O processo natural de decomposição de materiais orgânicos dentro do balde é feito com ajuda do farelo bokashi, que ajuda na aceleração da compostagem. Um processo normal que levaria de quatro a seis meses para se decompor na natureza, com esse método leva cerca de 40 dias para o resíduo incorporar na terra e virar adubo para as plantas, de maneira inodora e sem moscas.

As iniciativas de Thayna não param por aí. Em um espaço do condomínio onde mora, entre a lixeira e a casa de gás, ela pediu a autorização e iniciou um espaço de compostagem que tem beneficiado a vizinhança com adubos naturais.

“Na pandemia, estava morando com minha avó. E ela fazia muita sopa e não tomava toda. Eu também não consumia toda, não dava conta e eu ficava com dó de jogar fora. Então, resolvi fazer a compostagem aqui no condomínio”, lembrou.

Na prateleira da natureza

A rotina de Thayna se transformou após aderir o descarte zero de resíduos sólidos. A bucha para lavar louças compradas em supermercado está dando lugar à bucha natural, que é produzida no terreno do vizinho.

A vassoura plástica, quando não servir mais para uso, já tem uma substituta: uma de palha, que aguarda encostada em um dos cantos do apartamento. As compras do supermercado vêm dentro das sacolas ecobags e as sacolas de papel que embalam pão são reutilizadas como saco na lixeira do banheiro.

Até mesmo quando vai comprar produtos naturais, Thayna leva os potes de vidro. “Eles pesam e colocam nos potes que eu levei, então não precisam usar sacolas plásticas para levar os produtos”, contou. Thayna também resolveu fazer o próprio desodorante e aboliu o uso de algodão em sua vida. Limpeza de pele e dos ouvidos ganharam outras alternativas sem a necessidade de descarte.

Recicláveis e rejeitos

A movimentação de resíduos em 2019 na cidade de Florianópolis foi de 212.303 toneladas, sendo 194.729 em rejeitos e 17.572 em recicláveis, segundo a Comcap. Destes, 1,93% foi de recuperação de resíduos compostáveis e 5,22% de recuperação de recicláveis secos.

Pela caracterização dos resíduos sólidos domiciliares coletados em Florianópolis: 35% são orgânicos, sendo 24% restos de alimentos e 11% resíduos verdes como podas, restos de jardinagem e folhas varridas na limpeza pública. Outros 43% são recicláveis secos (embalagens de plástico, papel, metal e vidro) e 22% são rejeitos (lixo sanitário e outros materiais que não podem ser recuperados).



Fonte: ND+ - PAULO ROLEMBERG



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

O pet precisa de suplementação alimentar equilibrada

Leia Mais