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Seca na África deixa 42 milhões sob o risco da fome, segundo a FAO

Compartilhe:     |  9 de junho de 2016

A foto de uma africana esquálida, negra, amamentando uma criança que parecia estar saudável correu mundo nos anos 80. Era um tempo diferente, as coisas andavam mais devagar, as notícias ou comentários não viralizavam, passavam por fax, ainda era preciso fazer cópias e telefonar. Assim mesmo, muita gente viu a foto e se deu conta do drama das pessoas que viviam num continente de subsolo riquíssimo, mas intensamente desvalido e pobre. Dados do fim da década de 60, colhidos e divulgados pela FAO (Food and Agricultural Organization), organização das Nações Unidas que cuida de alimentos e agricultura, davam conta de que havia então 460 milhões de pessoas com fome no mundo.

O século acabou, já estamos a quatro anos de fecharmos a segunda década do século XXI, e hoje os números da fome não nos deixam tranquilos. São quase 800 milhões no mundo de pessoas no mundo, segundo a ONU, que não conseguem dormir alimentadas.

Um dado novo, porém, surgiu e me fez lembrar a foto da mulher que alimentava o filho sem condições de se manter em pé: mais de 42 milhões de pessoas enfrentam o risco de fome nos 27 países da África Oriental e Austral por causa da grave seca que está se alastrando pela região, consequência do fenômeno El Niño*. O país mais afetado é a Etiópia, que enfrenta a pior seca em 50 anos, segundo informações do Programa Mundial de Alimentação (PMA) para a região. Lusa Challiss McDonough, porta-voz do Programa, mostrou sua preocupação durante uma entrevista:

“As taxas de desnutrição aumentaram nitidamente no último trimestre. A situação é extremamente séria”.

Moçambique declarou um alerta vermelho, o nível mais alto de preparação de emergência nacional. O governo da Somália pediu ajuda da comunidade internacional para dar solução às necessidades básicas das pessoas, cerca de 10 milhões. O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) informou que cerca de 1,7 milhão de pessoas precisam ali de algum tipo de assistência humanitária.

Lesotho, Malawi, Swazilândia e Zimbabwe declararam estado de emergência. E o PMA, que é a maior agência humanitária do mundo, indicou que tem apenas 13% do orçamento necessário para dar resposta às necessidades na região da África Austral entre abril deste ano e março de 2017. Segundo o PMA, serão necessários cerca de US$ 677 milhões para salvar aquelas pessoas. Uma quantia quase miserável levando em conta que o plano de resgate econômico arquitetado em 2008 pelos Estados Unidos para evitar uma quebradeira dos grandes bancos foi de cerca de US$ 800 bilhões.

Sim, alguma coisa está muito fora da ordem num sistema em que há mais ajuda monetária para salvar bancos do que para salvar pessoas. Assim como também não se pode achar equilibrada uma civilização que põe barreiras em territórios para evitar ingresso de seres humanos a fim de transformar tais terrenos em Unidades de Conservação do meio ambiente para possibilitar a venda de emissões de carbono a países ou empresas. É o mercado de carbono, ou colonialismo verde, como chamam os ativistas socioambientais que estão na linha de frente para refletir sobre tais abusos.

Como se vê, desde a divulgação da foto que virou ícone da fome no mundo nos anos 80 até hoje, pouco ou nada mudou de verdade na disposição solidária dos ricos para com os pobres. O que mudou, e foi para pior, é que as mudanças climáticas acrescentaram um sabor ainda mais amargo às vidas já tão cheias de privações de muitas dessas pessoas. Na África, a seca. Em países do Pacífico que vivem cercados por águas, como Nauru, por exemplo, as populações convivem com a certeza de que o aumento dos oceanos causado pelo derretimento das geleiras do Ártico vai submetê-los a buscarem refúgio em outras terras.

Aliás, em Nauru há mais um componente dramático, símbolo de nossos dias. Segundo artigo publicado por Naomi Klein no site “London Review of Books”, o governo australiano mantém ali sobreviventes de guerra e de regimes despóticos em campos de refugiados que estão em situação deplorável. A situação lá está tão desesperadora que uma somaliana ateou fogo ao próprio corpo para tentar chamar a atenção do mundo para seu drama.

“As alterações climáticas não discriminam ninguém, mas atingem os pobres em primeiro lugar, não importa se eles estejam agarrados aos telhados de Nova Orleans, lançados ali pelo furacão Katrina, ou se são os 36 milhões da África Austral e Oriental que estão vivendo sua pior seca. Estamos vivendo uma cultura que dá tão pouco valor à vida que se dispõe a deixar que os seres humanos desapareçam sob as ondas ou desidratem no calor árido”, escreve Klein.

Mas eu comecei falando sobre a fome e pretendo voltar ao tema, tamanha a minha inquietude com relação a ele. Tenho aqui na estante o livro “Rich world, poor world”, publicado em 1978 pelo jornalista e também ativista ambiental Geoffrey Lean, em que a questão da desigualdade é intensamente debatida. E olha que naquela época ainda não tínhamos atravessado a crise financeira e econômica mundial de 2008. Também ainda não tinha sido lançado o “Capital do Século XXI”, praticamente uma bíblia da desigualdade, escrito pelo francês Thomas Piketty.

No segundo capítulo do livro de Lean, o artigo “The Growing Imbalance” (“O Desequilíbrio crescente”, em tradução literal), lembra que “O desenvolvimento da crise de alimentos tem base na polarização de nosso planeta em dois mundos, o norte rico e o sul pobre”.

A questão, como mostra o texto do jornalista e como tem sido recorrentemente denunciada por estudiosos, não é a falta de produção de alimentos, mas a péssima distribuição deles.

“No começo dos anos 70 as pessoas da Europa Ocidental, Austrália e Japão estavam consumindo 23% calorias a mais do que elas necessitavam efetivamente. E o povo norte-americano estava à frente deles, com 26% a mais. Ao mesmo tempo, três quintos de todos os países em desenvolvimento não tinham comida suficiente para dar a cada pessoa suas necessidades básicas. No mundo dos pobres, 30% das crianças morrem antes de completar 5 anos. Metade dessas mortes acontecem por causa da desnutrição”, diz o texto assinado pelo jornalista.

Sabem o que pode ser bom nisso tudo? É que a crise climática na era da comunicação tem possibilitado irradiar informações, como está acontecendo agora. Está certo que a fome na África não é notícia nova. Tampouco não se pode mais dizer que é novidade o fato de a seca provocada pelas mudanças do clima ter sido a principal causa do problema. Mas, saber disso já nos dá chances de refletir além.

Para terminar, quase uma boa notícia: um estudo publicado pelo Banco Mundial no início do mês, os “Indicadores de Desenvolvimento Global”, que neste ano tem como foco os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, mostra que, em 2030, 4% da população do planeta viverão em extrema pobreza se a economia continuar crescendo como na década entre 2002 e 2012.



Fonte: G1 - Nova Ética Social - Amélia Gonzalez



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