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Sem recursos, paleontologia nacional corre perigo de extinção

Compartilhe:     |  2 de janeiro de 2015

Preguiças-gigantes, mastodontes, pterossauros e dinossauros puseram sua marca no território brasileiro há mais de 60 milhões de anos. O rastro deixado pela grande maioria ainda é um mistério, porque falta infraestrutura para estudá-lo. Mesmo com o interesse crescente de universidades e o forte apelo popular, a pesquisa na área da paleontologia no país carece de recursos e tecnologias avançadas.

O potencial para novas descobertas não tem sido suficiente para conseguir a chave dos cofres públicos. Os pesquisadores tropeçam na classificação confusa imposta a seus trabalhos e lamentam a falta de representantes nos comitês que fornecem financiamento. Para golpear a resistência oficial, o paleontólogo Alexander Kellner criará este mês o movimento SOS Dinossauros. Na pauta, a reivindicação de verbas para a área e mais transparência na seleção de projetos científicos que contarão com um cheque do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

— Considerando o modo como é vista pelo governo federal, a pesquisa em paleontologia está em perigo de extinção — lamenta Kellner. — Nossa área é cada vez mais popular na academia, mas os projetos em campo e em museus não contam com bolsas. E os recursos são imprescindíveis, porque trazem conhecimento e contribuem para a formação de alunos.

FALTA DE TRANSPARÊNCIA

A fundação do SOS Dinossauros foi motivada por um abaixo-assinado escrito no início do ano e passado por 150 paleontólogos, capitaneados por Kellner, reivindicando ao governo federal mais transparência no julgamento de projetos que concorrem a bolsas de produtividade em pesquisa.

No documento, o grupo ressalta que seus programas vão muito além da coleta de peças em sítios de estudo ou de seu resgate em museus. Esta é apenas a etapa inicial dos estudos. O preparo do material em laboratório pode demorar até dez anos e exige investimentos generosos, que oscilam entre R$ 15 mil e R$ 100 mil. Trata-se de um trabalho minucioso, em que se usam diversos instrumentos para retirar a rocha sedimentar que recobre o fóssil. Os cuidados, de acordo com o fundador do SOS Dinossauros, não seriam vistos com paciência pelos comitês responsáveis pela entrega de bolsas de produtividade.

Os signatários do abaixo-assinado afirmam que “a pesquisa de fósseis tem as suas especificidades e complexidades (…). A questão de coleta não obedece a nenhum padrão até mesmo pela natureza aleatória do registro fossilífero, onde em um local podem existir dezenas de exemplares, enquanto que em outro não ocorre absolutamente nada. (…) Nunca é demais relembrar que, em muitos casos, uma atividade de campo não resulta em nenhuma descoberta e existem situações onde o que é encontrado não é exatamente o que se buscava”.

A maioria dos paleontólogos está concentrada na Paleozoologia, ou seja, no estudo de animais fósseis. Os projetos para bolsas de pesquisa desta subárea devem ser direcionados ao Comitê de Zoologia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnologia (CNPq), órgão ligado ao MCTI.

No entanto, os caçadores de dinossauros têm pouca visibilidade no comitê. Dos 206 bolsistas ali reunidos, apenas dois são paleozoólogos. De acordo com o CNPq, a demanda de profissionais desta subárea chega a, no máximo, 3,07% de todas as propostas submetidas para a chamada de bolsas de produtividade em pesquisa.

Ainda segundo o CNPq, Kellner foi informado de que “a atuação de um pesquisador no comitê ligado à paleozoologia seria reduzida considerando a demanda de propostas desta subárea em comparação à demanda bruta”. A justificativa não convenceu o paleontólogo.

— Há pouca demanda porque não tem investimento. É como um cachorro correndo atrás do rabo — compara. — Não é um ato de má-fé, mas a miopia do CNPq o impede de enxergar a nossa área. Recebemos respostas lacônicas. Simplesmente nos informam que nossas propostas não atingiram a pontuação necessária para ganhar uma bolsa. Se tivéssemos um representante entre os julgadores, poderíamos procurá-lo e saber o que faltou no projeto ou o que fizemos errado.

Professor do Departamento de Zoologia da Unirio e membro da Academia Brasileira de Ciências, Leonardo Avilla também defende mudanças no critério de representatividade do comitê que avalia financiamentos.

— A paleontologia no Brasil é bastante recente, e por isso conta com um número muito pequeno de pesquisadores. No entanto, eles possuem uma produção bastante considerável — ressalta.

Em uma nova tentativa de conseguir financiamento, os paleontólogos tentam adequar seus projetos para concorrer a bolsas em outro comitê, voltado às Geociências. Para isso, precisam desviar seu enfoque principal — o estudo da anatomia dos grandes répteis, a relação de parentesco e a evolução — e estudar outros aspectos, como a localização do fóssil na camada do solo. Quanto mais profundo é um terreno, maior é a sua idade. Daí se pode descrever como era aquele habitat milhões de anos atrás. Trata-se de uma pesquisa útil, mas que poderia ser realizada sem caçadores de dinossauros. É, de acordo com os estudiosos do campo, como se as suas propostas fossem empurradas de uma comissão para outra.

Sem os recursos do governo federal, a paleontologia consegue sustentar-se com o cofre das fundações estaduais de amparo à pesquisa. Entre as mais engajadas estão as de Rio, São Paulo, Ceará e Pernambuco.

MAIS EMPREGO NAS UNIVERSIDADES

O número de pesquisadores em campo com financiamento é muito aquém do desejado. Na academia, porém, a situação é outra. Cada vez mais empregos são criados, já que um número crescente de professores de Ciências Biológicas demonstra interesse em dar aulas de paleontologia.

O movimento foi detectado por Max Langer, presidente da Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP):

— Diversos cursos foram criados nos últimos dez anos — destaca. — Temos mais trabalhos publicados. No entanto, ainda falta qualificação. A medida mais óbvia para esta análise é conferir quantas vezes um artigo é citado em outros trabalhos. Em 2013, o Brasil ficou apenas na 18ª posição.

Langer ainda não conhece detalhes sobre o movimento SOS Dinossauros, mas acredita que a dificuldade de financiamento de pesquisas não está dificultando a formação de jovens talentos.

— Temos um grande potencial para captação de mão de obra qualificada — assegura.



Fonte: O Globo - Renato Grandelle



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