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Farmácias proliferam como cogumelo em meio a uma sociedade doente

Compartilhe:     |  24 de outubro de 2020

Elas surgem como cogumelos e ocupam espaços nobres dos bairros, são em geral feias e espalhafatosas. Há dez anos eram as igrejas evangélicas neopentecostais, hoje são as farmácias. É um fenômeno urbano recente, curioso: a economia em recessão determina o fechamento de vários estabelecimentos, a Pandemia enterra negócios antes prósperos. Mas as farmácias se multiplicam – às vezes três numa mesma calçada, contei 12 num trecho do Largo do Machado ao Catete, pouco mais de três quarteirões. Devem ser bem lucrativas.

Têm diferentes tamanhos e bandeiras, mas as mais feias, esteticamente falando, são as das maiores redes (Onofre, Raia, Riofarma) lembrando as norte-americanas Rite Aid ou Duane Aid. São os McDonalds da doença.

Dominam as vendas de remédios e também homogeneízam um certo padrão de consumo. Muitos remédios tradicionais e mais baratos “somem do mercado” dando lugar a marcas mais caras, que pagam royalty a labs estrangeiros.

Além de remédios e itens de higiene, as farmácias vendem hoje um portfolio variado de produtos que se estendem a cosméticos, alimentos e suplementos vitamínicos.

A sua presença quase agressiva na paisagem urbana e como disse concorrencial, sugere várias coisas preocupantes: estamos doentes, muito doentes (ou pensamos que estamos) e as despesas familiares com remédios – no orçamentos doméstico – só fazem aumentar. Pesquisas do IBGE e do SUS o comprovam. Não só os mais velhos têm de ingerir diariamente medicamentos para colesterol, hipertensão ou diabetes (os mais comuns) mas as crianças e jovens tratam de obesidade, ansiedade e alergias. Quase todas estas doenças advém da dieta, do ambiente e do estilo de vida sedentário.

As farmácias prosperam com a pandemia: além dos remédios para aumentar a imunidade e outros “indicados” pelas fake e verdadeiras news, aumentou exponencialmente o consumo de desinfetantes, álcool gel, sabões e apetrechos como máscaras, luvas cirúrgicas, toucas, sapatilhas e similares.

Esses verdadeiros shopping centers de doença & saúde não oferecem nenhum serviço que seria fundamental para diminuir o impacto de tão ampla e massiva distribuição de produtos perigosos: não há logística reversa, como o recolhimento de remédios vencidos ou frascos vazios; não há restrição na distribuição de sacolas plásticas; não há recolhimento de embalagens – nem do material utilizado na prevenção da Covid – um novo tipo de lixo, sem destinação adequada.

Vender remédios e toda um cadeia de produtos associados parece ter se tornado um excelente negócio, em franca e irrefreada expansão.

As contrapartidas para uma existência mais sustentável, menos impactante desses estabelecimentos, parecem ausentes.

Eis um tema tanto para os governos locais quanto para as organizações que lidam com o consumo consciente.
Alguma coisa não está certa nessa febre das farmácias no Brasil.

Samyra Crespo é cientista social, ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins e coordenou durante 20 anos o estudo “O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente”. Foi vice-presidente do Conselho do Greenpeace de 2006-2008.

* Este texto foi escrito para o Site Envolverde e faz parte se uma série que venho publicando desde março do ano passado.



Fonte: Envolverde – por Samyra Crespo



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