Notícias

Sínodo da Amazônia termina com uma proposta conscientizadora sobre as mudanças climáticas

Compartilhe:     |  30 de outubro de 2019

Relatório da Igreja Católica, liderada por papa Francisco, enfatiza uma postura proativa com relação aos povos da floresta

Uma igreja consciente de seu papel facilitador no combate às mudanças climáticas e no caminho da conversão ecológica com base na Encíclica Laudato Sí, com um “rosto” indígena, afrodescendente, dos ribeirinhos, dos povos tradicionais, jovem, feminino e sem postura colonizadora, mas ecumênica, inter-religiosa e intercultural. Estes são os principais eixos orientadores do documento final do Sínodo da Amazônia, com a aprovação do papa Francisco e cerca de 200 bispos, realizado entre os dias 6 e 27 de outubro, no Vaticano, na Itália. O relatório com 120 itens retrata a proposta de prioridades da Igreja Católica, a partir de agora, em sua atuação na Pan-Amazônia, que incorpora os nove países da região (Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), onde vivem uma população estimada de 33,6 milhões de habitantes.

Neste contexto de atuação, há três propostas diferenciadas no conteúdo, que são: a definição do ‘Pecado ecológico’, da criação de um fundo global para cobrir parte dos orçamentos das comunidades presentes na Amazônia, que promovam seu desenvolvimento integral e auto-sustentável, e de um observatório socioambiental pastoral, que fortaleça a luta em defesa da vida.

O que é pecado ecológico?

Uma ação ou omissão contra Deus, contra outros, a comunidade e o meio ambiente. É um pecado contra as gerações futuras e se manifesta em atos e hábitos de poluição e destruição da harmonia do meio ambiente, transgressões contra os princípios da interdependência e quebra de redes de solidariedade entre as criaturas e contra a virtude da justiça.

O cuidado da casa comum

Mais uma novidade é a criação de ministérios especiais para o cuidado da “casa comum” e a promoção da ecologia integral no nível paroquial e em cada jurisdição eclesiástica, que tenham como funções, entre outros, o cuidado do território e das águas, bem como a promoção da encíclica Laudato Si ‘. 

Qual será o papel do Observatório Socioambiental?

Deverá fazer um diagnóstico do território e de seus conflitos socioambientais em cada Igreja local e regional, a fim de assumir uma posição, tomar decisões e defender os direitos dos mais vulneráveis. O Observatório trabalhará em parceria com Caritas, Universidades Católicas e Rede Eclesial Pan-amazônica (Repam), entre outros, como também participantes não eclesiais e representantes dos povos indígenas.

A emergência imposta pelas mudanças climáticas e o foco dirigido principalmente aos indígenas, que são mais de 2,5 milhões em todo território, camponeses, afrodescendentes, colonos, mestiços e ribeirinhos norteiam o texto, além da população urbana. Os processos migratórios na região são mais um ponto de preocupação exposto, devido a deslocamentos forçados internos na Amazônia e entre países, como os provenientes da Venezuela e do Haiti. O objetivo é que a Igreja mantenha um diálogo ecumênico, inter-religioso e cultural, sem posturas colonialistas.

Foto: Vatican News

“Neste Sínodo, tivemos a graça de escutar as vozes dos pobres e refletir sobre a precariedade das suas vidas, ameaçadas por modelos de progresso predatórios. E, no entanto, precisamente nesta situação, muitos nos testemunharam que é possível olhar a realidade de modo diferente, acolhendo-a de mãos abertas como uma dádiva, habitando na criação, não como meio a ser explorado, mas como casa a ser guardada, confiando em Deus…E quantas vezes, mesmo na Igreja, as vozes dos pobres não são escutadas, acabando talvez vilipendiadas ou silenciadas porque incomodam. Rezemos pedindo a graça de saber escutar o clamor dos pobres: é o clamor de esperança da Igreja. Assumindo nós o seu clamor, também a nossa oração – temos a certeza – atravessará as nuvens” (papa Francisco)

A tônica socioambiental é constante no relatório do Sínodo, com destaque para o papel estratégico da região para o regime de chuvas para a América do Sul e os movimentos atmosféricos em todo planeta, alertando que se configura atualmente como a segunda área mais vulnerável do mundo às mudanças climáticas devido à ação direta do ser humano. No contexto da ecologia integral, estabelece um olhar mais aprofundado à conexão entre ecossistemas, cultura e desenvolvimento de territórios.

A floresta amazônica é um “coração biológico” para as terras cada vez mais ameaçadas. Ele está numa corrida desenfreada até a morte. Requer mudanças radicais com grande urgência, uma nova direção que a salvará. Está cientificamente comprovado que o desaparecimento do bioma amazônico terá um impacto catastrófico para todo o planeta! (trecho do relatório)

Com suporte de cientistas, como o climatologista Carlos Nobre e o economista norte-americano Jeffrey Sachs, a questão das mudanças climáticas tem um expressivo peso nos argumentos. Entre eles, a iminência da savanização da Amazônia, por causa do desmatamento, que coloca em risco o ecossistema e o clima, vulnerabilizando ainda mais os povos da floresta. Uma sinalização para a bioeconomia também é exposto no documento (veja  Pacto das Catacumbas é renovado com releitura socioambiental durante o Sínodo da Amazônia)

O texto tem um trecho especial dedicado ao conceito do “bem-viver” estabelecido pelos povos indígenas andinos, como algo a ser respeitado pela Igreja, que incorpora a harmonia consigo mesmo, com a natureza, com os seres humanos e com o ser supremo, que introduz a ligação com o cosmos. Isto infere que se apoie a manutenção da harmonia com os modos de vida tradicionais, dialogando entre a sabedoria e a tecnologia de seus ancestrais e os novos conhecimentos adquiridos. Expõe a importância das demarcações das terras indígenas e de proteção dos povos Indígenas em Isolamento Voluntário (PIAV) ou Povos Indígenas em Isolamento e Contato Inicial (PIACI), que são entorno de 130 grupos.

“Eles são os mais vulneráveis ​​entre os vulneráveis ​​… Continue a defendê-los. A presença deles nos lembra que não podemos descartar bens comuns à taxa de avidez do consumo”, afirmou o papa Francisco.

O processo de escuta

O clamor dos mais vulneráveis, de acordo com o documento, foi refletido em momentos de pré-sínodos. Nesta escuta, o que se registra é um contexto de violência e ameaça à vida, por causa da apropriação e privatização de ativos naturais, como a própria água; concessões legais de exploração madeireira e entrada de madeireiros ilegais; caça e pesca predatórias; megaprojetos não sustentáveis ​​(hidrelétricas, concessões florestais, extração maciça de árvores, monoculturas, estradas, hidrovias, ferrovias e projetos de mineração e petróleo); poluição causada pela indústria extrativa e lixões urbanos e, especialmente, mudanças climáticas.

Este ciclo de violência desencadeia um processo ainda mais perverso, com doenças derivadas da poluição até perda de cultura e identidade originais (idioma, práticas e costumes espirituais) e criminalização e assassinato de líderes.

Um dos consensos resultantes do Sínodo da Amazônia é da necessidade de se defender o direito de todas as pessoas à cidade.

O direito reivindicado à cidade é definido como o gozo equitativo das cidades dentro dos princípios de sustentabilidade, democracia e justiça social. No entanto, também será necessário influenciar políticas públicas e promover iniciativas que melhorem a qualidade de vida no mundo rural, impedindo, assim, seu deslocamento descontrolado.

Agora começa o momento mais complexo, que é o da implementação do Sínodo da Amazônia, sob a condução principal do papa Francisco.

Sobre a 350.org Brasil e a causa climática

A 350.org é um movimento global de pessoas que trabalham para acabar com a era dos combustíveis fósseis e construir um mundo de energias renováveis e livres, lideradas pela comunidade e acessíveis a todos. Nossas ações vêm ao encontro de medidas que visem inibir a aceleração das mudanças climáticas pela ação humana, que incluem a manutenção das florestas.

Desde o início, trabalha questões de mudanças climáticas e luta contra os fósseis junto às comunidades indígenas e outras comunidades tradicionais por meio do Programa 350 Indígenas e vem reforçando seu posicionamento em defesa das comunidades afetadas por meio da campanha Defensores do Clima. Mais uma vertente das iniciativas apoiadas pela 350.org é da conjugação entre Fé, Paz e Clima.

Sucena Shkrada Resk – jornalista ambiental, especialista em política internacional, e meio ambiente e sociedade, é digital organizer da 350.org Brasil



Fonte: Envolverde - Por Sucena Shkrada Resk, para o 350.org



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Estresse passa do dono para o cachorro

Leia Mais