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Slow living: por que a filosofia de viver de forma desacelerada ganhou força diante de tantas incertezas

Compartilhe:     |  10 de novembro de 2020

Uma pandemia se fez necessária para reduzir a velocidade do planeta. Restringir deslocamentos, rever velhos hábitos e voltar o olhar para dentro de si – e para o outro – foram alguns dos inesperados impactos causados pelo novo coronavírus. Ato contínuo, serviram como ensejo para a busca da tão almejada qualidade de vida, por vezes relegada a segundo plano. Sentida, sobretudo, por aqueles como privilégio de permanecer em casa durante o período de distanciamento social, a inevitável desaceleração dos dias apresentou muita gente ao slow living (vida lenta, em tradução livre), conceito que se contrapõe à supervalorização do ritmo frenético tão caro à sociedade moderna.

Slow living: por que a filosofia de viver de forma desacelerada ganhou força diante de tantas incertezas (Foto: Arquivo pessoal)
No sítio Iandeva, em Piracaia, SP, a arquiteta Elena Caldini, seu marido e mais dois casais de amigos encontraram sua maneira de desacelerar: estão montando um empreendimento para turismo rural sustentável

Nascido na Itália, o movimento originou-se como ativista Carlo Petrini, que protestava contra a abertura de um restaurante fast food em Roma, em 1986, enquanto reivindicava o enaltecimento do ato de comer por meio da alimentação sustentável, justa e consciente. O slow food prega o respeito aos produtores locais e ao tempo da natureza. Não demorou a abraçar outras vertentes, entre eles a moda (slow fashion), a medicina (slow medicine) e o urbanismo (slow cities), como explica Carl Honoré, autor de Devagar: Como um Movimento Mundial Está Desafiando o Culto da Velocidade (Record, 350 págs.) e referência do pensamento slow. “É uma revolução cultural contra a noção de que mais rápido é sempre melhor. Isso não significa adotar um ritmo de lesma”, ressalta. “Trata-se de encontrar o andamento certo, apreciando o tempo em vez de apenas contá-lo. Fazer tudo da melhor maneira possível, em vez de o mais rápido possível. É uma questão de qualidade e não de quantidade, seja em qual âmbito for”, define.

“Para alguns, adotar uma cadência moderada implica afastar-se da cidade. Outros atingem o equilíbrio ao ajustar prioridades. Para o slow living, o  importante é conectar-se como presente, seja onde for”

 

Honoré difunde há mais de 15 anos esses ensinamentos globalmente. Com quatro livros publicados em 35 idiomas, nem mesmo ele previu uma imposição tão abrupta e nítida da redução de marcha, como ocorre agora. “Já antes da Covid-19, a sociedade se encontrava em uma virada, questionando valores, revisando a relação como meio ambiente e a comunidade. Isso retirou o véu. Agora vemos o bem e o mal da estrutura dominante: injustiça, miséria, desemprego”, afirma. “A cultura da pressa a que estávamos acostumados nos converteu em máquinas tarefeiras e nos desconectou de nós mesmos e dos outros. O lado bom da experiência soturna da pandemia é redescobrir o prazer de passar mais tempo com seu parceiro e filhos, achar a hora certa para se dedicar a todas as atividades, a cada dia.”

Refletir sobre os símbolos por trás da agitação pode ser a primeira providência a fim de frear o passo. “Culturalmente, atribui-se a vida lenta ao ócio. Especialmente no Brasil, há um preconceito com a ideia do devagar. O brasileiro entende o bem-estar como privilégio, não direito”, afirma Michelle Prazeres, articuladora do slow living em São Paulo. “Antes de tudo, é preciso entender que desacelerar não quer dizer ser moroso ou preguiçoso, mas, sim, parar e respirar. Ponderar quando a correria faz sentido. É estar presente, com plenitude, disponibilidade e atenção”, esclarece a jornalista e idealizadora do Desacelera SP, mobilização que agrega 90 parceiros adeptos da filosofia na capital paulista e propaga os seus preceitos.

O VALOR DA PAUSA
Cultivar uma postura flexível como presente, a cidade e os outros: eis a premissa básica para escapar da lógica fast. Soa descomplicado, mas dispor de tempo para contestar a própria relação com o tempo pressupõe algumas camadas de desconstrução. “Enquanto vivermos numa sociedade pautada pela prosperidade, tivermos empresas preocupadas com produtividade e indivíduos com o seu sustento, essa escolha será para poucos. Quanto mais marcadores sociais, menores as chances de alguém sair desse ciclo”, diz Michelle. “Temos de encarar essa agenda coletivamente para recobrar nossa humanidade. Não existe somente um jeito de viver, nem um único padrão de consumo.”

A batida vertiginosa imposta pelo trabalho tende a constituir uma das principais amarras. Não à toa, a síndrome de Burnout, ou esgotamento profissional, entrou em 2019 para a Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS). O diagnóstico afeta mais de 33 milhões de brasileiros, segundo estudo da International Stress Management Association. “Numa sociedade produtivista, a aceleração visa extrair das pessoas o máximo que elas podem entregar. Somos mais bem-vistos quando expressamos uma rotina corrida. É um discurso banal, mas que fala de status e de sucesso”, analisa o terapeuta Alexandre Coimbra Amaral. “A parte mais sombria diz respeito às emoções. Isso está correlacionado com a epidemia de depressão no mundo, justamente porque um pedaço nosso não se manifesta no piloto automático da existência”, reflete.

De acordo com o psicólogo, despertar para essa evolução na mentalidade passa pela clássica máxima do desfrutar aqui e agora. Ele explica: “O slow living oferece a possibilidade de presentificação. Geralmente miramos o futuro ou o passado, porque a aceleração nos desliga do presente, que é a única hora em que a vida acontece de verdade e com qualidade. Na quarentena, muitos se indagaram se a realidade de antes vale a pena. Esta é uma pergunta essencialmente sobre autenticidade e, basicamente, não a fazemos em modo acelerado.”

SOMOS INSTANTES
A arquiteta paulistana Elena Caldini viu-se diante desse dilema quando se percebeu presa a um dia a dia alinhado aos moldes urbanos. Acordava logo cedo, saía para trabalhar, retornava tarde da noite e preparava-se para a mesma agenda no dia seguinte e nos subsequentes. Incomodada sem saber o motivo, notava que algo em si não se encaixava no modus operandi da cidade. “Aos poucos, entendi que esse estilo se distanciava do meu objetivo e, principalmente, que poderia ser mais feliz sem ele. Eu me sentia numa prisão de horários e pressões que não eram meus, mas de outras pessoas”, diz. Sem conhecê-la como tal, flertava com a filosofia slow. “Se tenho o privilégio da escolha, por que me mantinha presa? Foi quando reconheci que os ícones do mundo desenfreado não ecoavam em mim.”

A procura por dias brandos levou-a a uma redescoberta na própria profissão. O interesse por bioconstrução, aflorado ainda na faculdade, aproximou-a da permacultura. Em Ubatuba, região costeira de São Paulo, desenvolveu projetos com terra seca, manejo de bambu e sistemas de agricultura regenerativa. “Há quem romantize experiências desse tipo, mas, na realidade, é tudo bem direto. Somos bichos também, capazes de nos relacionar com a natureza de forma direta, sem idealizações”, afirma. Atualmente, Elena toca a estruturação de um sítio colaborativo em Piracaia, interior paulista, futura morada para ela, o marido e casais de amigos, mas não só. O “jardim de pessoas”, como gosta de chamar, oferecerá turismo sustentável. “Acredito que, para desenvolver, precisamos decrescer. A proposta do Iandeva é ser um santuário ecológico para receber gente, dar oficinas e proporcionar vivências baseadas nos ciclos naturais”, explica.

Mais do que não sucumbir ao relógio, desacelerar pode significar, ainda, a retomada da ancestralidade. Esse foi o processo da psicóloga Elaine Moraes, cujo contato com outra lógica temporal serviu de gatilho para revisitar suas origens.“Na minha história, o slow living se traduz em um novo modo de estar no universo”, diz. Com ascendência afro-ameríndia, ela mudou a chave após deixar a cidade natal, Piracicaba, SP, para morar em São Paulo. O choque ressignificou sua identidade com tamanho impacto que ela passou a guiar-se também pelos calendários maia e lunar. Na selva de pedra, entendeu, enfim, quem rege o tempo: a natureza. “O calendário romano propõe uma perspectiva linear e progressiva baseada no futuro”, pontua. “Já os povos africanos lidam com isso de forma cíclica, pautados pelas narrativas orais, pelo fluxo da natureza e pelos próprios antepassados. Encampei essa visão, que nos convida a resgatar as melhores versões do que fomos para viver o presente”, finaliza. Na metrópole ou fora dela, uma vida preenchida por novos significados e propósitos parece ser o caminho.



Fonte: Casa Vogue - POR RAFAEL BELÉM | FOTO FERNANDO GUERRA/FG+SG



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