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Solo, aliado silencioso na luta contra a fome na América Latina e Caribe

Compartilhe:     |  18 de dezembro de 2014

https://i1.wp.com/envolverde.com.br/portal/wp-content/uploads/2014/12/Ter710_Solos1.jpg?resize=340%2C191Por Marianela Jarroud*

A América Latina e o Caribe devem empregar técnicas de produção sensíveis para preservar solos saudáveis, que são a base da agricultura, da produção de alimentos e da luta contra a fome. “Manter solos sadios significa poder ter produção de alimentos. Se não se tem solo adequado, a produção de alimento empobrece, fica difícil e cara”, afirmou Raúl Benitez diretor regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“Muitas vezes não temos consciência de que, para gerar um centímetro de solo sadio, pode demorar mil anos e, no entanto, este centímetro podemos perder em segundos pela contaminação, pelo lixo tóxico, e por mau uso dos mesmos”, explicou Benitez ao Terramérica.

Apesar de sua grande importância, 33% das terras do planeta estão degradadas por razões físicas, químicas ou biológicas, o que se evidencia em uma redução da cobertura vegetal, redução da fertilidade, contaminação do solo e da água e, como consequência, empobrecimento das colheitas, alerta a FAO. A América Latina e o Caribe têm as maiores reservas de terras cultiváveis do mundo, mas 14% da degradação mundial ocorrem na região.

A situação mais grave se vive na Mesoamérica, onde afeta 26% do solo. Na América do Sul, esse fenômeno atinge 14% das terras. Segundo dados da FAO, quatro países da região têm mais de 40% de suas terras degradadas e em 14 países a degradação fica entre 20% e 40% do território nacional. Cerca de 40% das terras mais degradadas do mundo estão em regiões com elevadas taxas de pobreza.

Nesse contexto, a FAO lançou, no dia 5, o Ano Internacional dos Solos 2015, no marco da Aliança Mundial pelo Solo e em colaboração com os governos e a Secretaria da Convenção das Nações Unidas de Luta Contra a Desertificação. A América Latina chega a este ano internacional “bem consciente da utilidade e do papel fundamental que os solos têm na luta contra a fome, o que a leva a tomar esse tema com uma importância inusitada”, afirmou Benitezem entrevista ao Terramérica, no escritório da FAO em Santiago.

O diretor da FAO recordou que a América Latina atingiu os maiores avanços do mundo na segurança alimentar, se convertendo na região com maior número de países que conseguiram erradicar a fome, o primeiro dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). “Por isto, não tenho a menor dúvida de que este Ano Internacional dos Solos servirá para chamar a atenção dos governos, das organizações, da população, e a América Latina seguramente assumirá o compromisso consigo mesma, e também uma conduta acordada, sobre as necessidades da região”, acrescentou.

Nesse caminho, o escritório regional da FAO fez alianças com diversas organizações sociais que trabalham na recuperação dos solos. No Chile, uma delas é o Centro Comunitário de Meio Ambiente Natureza Viva, do município Estación Central, a oeste de Santiago. A dirigente social María Contreras, presidente desse centro, liderou a luta para recuperar 40 hectares do antigo lixão de Lo Errázuriz, na localidade de Maipú, oeste de Santiago, um terreno onde, nas décadas de 1970 e 1980, todos os municípios da capital chilena despejavam seu lixo.

“Ali ficava o lixão. Era o Fundo San José de Chuchunco, com algumas áreas onde havia extração de áridos” (material pétreo, cascalho, areia e outros), contou Contreras ao Terramérica. O governo da Região Metropolitana de Santiago possui 30 desses hectares e Estación Central o restante. “Atualmente temos dez hectares já recuperados com árvores e o governo regional já contratou segurança e irrigação”, afirmou a dirigente, que antecipa a extensão desse espaço verde para outros 20 hectares de miniflorestas, que imagina com trilhas para caminhada e ciclovias.

A área passou a se chamar Bosques de Chuchunco, palavra mapuche que significa “entre águas”. A líder explicou: “desenvolvemos nossa experiência por sobrevivência”, e recordou que, há 30 anos, “Maipúa abastecia Santiago de hortaliças”. Há dois anos, a FAO financiou ali a criação de um pequeno viveiro “e hoje produzimos sementes”, acrescentou.

O início do projeto remonta a 2010, e para estender o reflorestamento se deve investigar o que há no subsolo, supostamente biogás e/ou líquidos lixiviados. “Sem o solo todos morremos. A vida que não vemos está no subsolo”, afirmou a ativista.

Contreras ressaltou que é preciso fortalecer as redes sociais e a participação da cidadania para proteger os solos e destacou a necessidade da educação ambiental nas escolas, para que projetos como o Bosques de Chuchunco sejam sustentáveis no tempo. “Queremos que as crianças tenham educação ambiental básica, para que amanhã sejam cidadãos responsáveis”, acrescentou.

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Outro exemplo é o do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Minhocultura (Ceilom), que busca promover e expandir essa técnica por meio da cultura da reciclagem de matéria orgânica em nível domiciliar. Esse centro nasceu em 1980 com a chegada ao Chile das primeiras minhocas vermelhas californianas (Eisenia foetida). São dados cursos de minhocultura, com fórmula que permite a redução dos dejetos e a reciclagem de 100% da matéria orgânica produzida em uma casa, que é de 700 quilos anuais em uma família de quatro pessoas.

“Atualmente temos um convênio com uma feira de verduras de Recoleta (ao norte de Santiago), para recuperar todo seu lixo e tratá-lo. Mas há muitas outras feiras com as quais se pode realizar esse mesmo acordo”, afirmou ao Terramérica a diretora-geral do Ceilom, Marcela Campos. Ela também citou que o Parque Metropolitano de Santiago, um “pulmão verde” no meio da cidade, que abriga o zoológico e que “produz tanto lixo que pode ser tratado. Assim, não necessitaria de fertilizantes químicos para recuperar suas áreas verdes”, acrescentou.

Atualmente, em nível mundial, 12% da terra é usada para cultivos agrícolas, o que corresponde a 1,6 trilhão de hectares, por isso “é preciso redobrar esforços e preservar nossos solos usando técnicas de produção que nos permitam preservar nossos recursos naturais”, enfatizou Benítez. Um solo sustentável é “um aliado silencioso” na erradicação da fome, concluiu. Envolverde/Terramérica

* A autora é correspondente da IPS.



Fonte: Envolverde/Terramérica



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