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Sono: “O medo da noite pode desencadear reações psicossomáticas nas crianças”

Compartilhe:     |  28 de novembro de 2020

Olá mãe adormecida! Problema com o sono das crianças é uma queixa comum no meu consultório. Seja a dificuldade para dormir ou acordar no meio da noite por causa de pesadelos, o fato é que boa parte das crianças tem problemas com o sono. Não dormir pode causar fadiga, diminuir a capacidade de concentração durante o dia e gerar dificuldades na família toda. O medo da noite pode ser tão intenso, causar tanto desconforto e desencadear reações psicossomáticas nas crianças.

No meu consultório, regularmente recebo pais que têm dificuldade em colocar seus filhos para dormir. A história é sempre conhecida, ou seja, a criança que não quer ficar sozinha no quarto porque tem medo do escuro. Então, ela quer uma enésima história antes de dormir ou um copo de água ou qualquer coisa que possa atrasar o momento em que os pais fecham a porta do quarto, para que todos possam dormir. Muitas vezes, depois de algumas tentativas frustadas, a criança acaba indo dormir na cama dos pais. Isso não deixa de ter consequências, seja para a criança ou para o casal.

Mas, então, o que fazer? Repreender a criança e correr o risco de acentuar as ansiedades noturnas? Levá-la para o quarto dos pais correndo o risco de cair em um círculo infernal? Estabelecer um diálogo para entender o que é problemático para a criança e ajudá-la a encontrar soluções? Saiba que a criança com dificuldade para dormir precisa de ajuda. Por isso veja, a seguir, como você pode ajudar seu filho:

Acolha suas emoções

A primeira coisa a fazer é estabelecer um diálogo com seu filho para tentar entender o que passa pela cabeça dele no período noturno. Afinal, para acalmar os medos, seu filho precisa identificar e verbalizar suas emoções. Dar-lhe a palavra permitirá que ele sinta que não está sozinho, tendo que gerenciar essas emoções. Lembre-se também que as crianças muitas vezes falam por metáforas. Uma criança que tem medo do lobo, não vai ficar calma se você tentar mostrar que não há lobos na cidade. Mas, se você levar a sério esse medo de lobos e perguntar do que mais ela teme, com certeza ficará mais confiante para contar sobre seus outros medos. Muitas vezes, acabamos descobrindo preocupações como, por exemplo, com um colega de classe, com a saúde dos pais, medo que a família seja separada, nessas conversas. Então, essa preocupação dela na forma de “tenho medo do lobo”, na verdade, simboliza a insegurança ou o medo do abandono. Deu para entender?

Deixe a criança segura

Para adormecer é preciso sentir-se seguro o suficiente para relaxar. Nós, ressaltamos sempre a importância dos filhos serem independentes, só que para isso, eles precisam primeiro ter experimentado a segurança emocional, que vem antes da autonomia. O pequeno começa a andar se souber que os pais estão lá, atrás dele, caso seja necessário. Ele precisa dessa segurança para poder explorar o mundo sem ter medo de ficar perdido. Como a noite representa para a criança uma separação de seus pais e a experiência do sono é vivida sozinha, a criança pode pensar: “Meus pais estarão lá quando eu acordar? Eles ficarão em casa enquanto durmo? O que eles vão fazer durante esse tempo?

É importante lembrar ao seu filho que você está em casa e não sairá enquanto ele estiver dormindo. Algumas vezes ouço os pais informarem que quando precisam sair à noite, colocam os filhos na cama antes da babá chegar, sem avisar que vão embora, pois de qualquer forma a criança está dormindo e não saberá que saíram. Mas é exatamente isso que preocupa a criança: que seus pais vão embora enquanto ela dorme. Em qualquer idade as crianças têm o direito de saber o que vai acontecer enquanto dormem. E, caso acorde, é melhor que não tenha a desagradável surpresa de descobrir que aqueles com quem está contando não estão lá, o que pode ser bastante traumático. Pessoalmente, se meu parceiro tiver que se ausentar por conta do trabalho no meio da noite, mesmo que por algumas horas, eu prefiro saber com antecedência, você não? Com os pequenos é a mesma coisa.

Torne a ideia de noite concreta para a criança

Uma criança não tem a mesma noção de tempo que um adulto. A duração de uma noite é muito abstrata na cabeça dela. Parece óbvio, mas os pais não dão aos filhos referências suficientes sobre o que a noite representa. São muitos os materiais que explicam às crianças, dependendo da idade e do nível de compreensão, quantas horas dura uma noite, qual é a duração aproximada, o que acontece no corpo durante a noite… O medo de dormir é muitas vezes um medo do nada, do vazio e, simbolicamente, da morte. Mas as coisas acontecem quando nossos olhos estão fechados. O corpo continua a viver, as células se regeneram, o sangue continua a circular, o coração continua a bater e o cérebro memoriza as informações armazenadas durante o dia. Explicar isso ao seu filho dá uma representação diferente dessa pausa que representa a noite.

Estabeleça rotinas

Da mesma forma que antes de dormir, diminuímos a luz do quarto, pegamos um livro ou ouvimos música, a criança precisa constituir referenciais que significam “logo, vou dormir”. E a melhor maneira de fazer isso é estabelecendo uma rotina, que deve ter o envolvimento da criança no processo. Porque só ela sabe o que precisa à noite: uma história, uma música, brincadeiras tranquilas no quarto, abraços… O que ela considera necessário para que adormeça? Se for uma criança maior, vale perguntar pra ela.

Por fim, quando tudo isso não for mais suficiente, pode ser necessário consultar um especialista: pediatra, psicanalista ou psicólogo para conversar com a criança e ajudar os pais a rever alguns hábitos noturnos. Afinal, as ansiedades noturnas devem ser sempre levadas a sério, pois apesar de representarem um estágio clássico no desenvolvimento da criança, também pode acontecer que elas se transformem numa porta de entrada para questões mais importantes. De qualquer forma, seu filho deve ser capaz de sentir que não está sozinho, são coisas simples que farão grande diferença tanto no sono dele como no seu. Afinal, você também merece ter o sono da Aurora, não é?

Mônica Pessanha é psicanalista de crianças, adolescentes e mães. É co-autora do livro "Criando filhos para a vida". É mãe de mãe de dois, um que virou “estrelinha” e da Melissa, 13 anos. (Foto: Arquivo pessoal)

 (Foto: Arquivo pessoal)

Mônica Pessanha é psicanalista de crianças, adolescentes e mães. É co-autora do livro “Criando filhos para a vida”. É mãe de mãe de dois, um que virou “estrelinha” e da Melissa, 13 anos.



Fonte: Revista Crescer - MÔNICA PESSANHA



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