O lixo em questão

Startup francesa cria propelente de iodo que pode ajudar a reduzir lixo espacial

Compartilhe:     |  23 de janeiro de 2021

Em novembro do ano passado, o pequeno satélite de telecomunicações Beihangkongshi foi lançado contendo uma novidade: trata-se de um propelente de iodo desenvolvido pela startup francesa ThurstMe, uma solução pequena, mas, talvez, com grande potencial. Já nos meses de dezembro e janeiro, a empresa conseguiu realizar com sucesso os primeiros testes de mudança de órbita do satélite, provando a eficácia do propelente que foi utilizado pela primeira vez para estes procedimentos.

A ThrustMe é, na verdade, uma empresa da École Polytechnique e da French National Centre for Scientific Research (CNRS), e foi desenvolvida com apoio da Agência Espacial Europeia (ESA). Assim, este primeiro sistema de propulsão elétrica de iodo foi enviado no Beihangkongshi-1, um CubeSat desenvolvido pela empresa chinesa Spacety e lançado com um foguete Long March 6; além dele, havia também satélites da empresa argentina Satellogic. Depois de algumas semanas do lançamento, o sistema de propulsão foi testado durante minutos, resultando em uma mudança total de 700 m de altitude.

O sistema da ThrustMe instalado no satélite Beihanghongshi-1 (Imagem: Reprodução/Spacety)
O sistema da ThrustMe instalado no satélite Beihanghongshi-1 (Imagem: Reprodução/Spacety)

O desenvolvimento do propelente veio em um momento em que agências espaciais e empresas privadas têm planos para lançar megaconstelações de satélites, compostas por centenas de milhares deles: “percorremos um longo caminho até levar este produto dos sonhos para a realidade”, disse Dmytro Rafalskyi, da ThrustMe. “Para isso, tivemos que inovar, desenvolver um sistema complexo e realizar pesquisas fundamentais, porque várias propriedades do iodo estão faltando nos bancos de dados científicos”.

Para a empresa, usar o iodo como propelente poderá causar uma revolução na indústria dos satélites, por permitir que os sistemas de propulsão sejam levados para os clientes já completamente pré-abastecidos, além de simplificar o processo de integração dos satélites. Agora, a empresa tem planos para duas demonstrações em órbita, sendo que a primeira deverá ser realizada ainda neste ano com uma missão que ainda será anunciada.

Impactos além dos custos

O iodo é uma substância mais barata e de uso mais simples do que aquele dos propelentes comuns, não é tóxico e se mantém sólido mesmo na temperatura e pressão ambientes. Ao ser aquecido, ele vai direto para o estado gasoso sem passar pelo líquido, o que o torna uma boa alternativa para sistemas de propulsão simplificados. Por fim, a substância é mais densa e ocupa menos espaço nos satélites.

Essa tecnologia, além de ter potencial inovador, poderá ser mais uma ferramenta para contribuir com a redução do lixo espacial, porque poderia permitir que pequenos satélites se autodestruam de forma barata e simples ao fim de suas missões. Ainda, a tecnologia poderia ser usada para dar algum impulso extra à duração das missões de satélites que monitoram plantações e daqueles que compõem megaconstelações de internet, colocando-os de volta na órbita adequada quando começarem a se deslocar em direção à Terra.

Além destas contribuições, o sistema pode ser mais um possível aliado para lidarmos com o lixo espacial e os perigos que eles representam. Quando objetos orbitais se chocam, eles podem ser fragmentados em pequenos detritos capazes de iniciar um fenômeno chamado de Síndrome de Kessler, no qual os detritos vão atingindo outros objetos e iniciam um efeito dominó destrutivo.

Hoje, a ESA estima que existam 34 mil objetos de lixo espacial com mais de 10 cm, enquanto os menores podem chegar aos 900 mil em órbita em janeiro de 2021. Como se movem a alguns quilômetros por segundo, mesmo fragmentos pequenos podem colocar naves, satélites e até astronautas em risco. Assim, ao facilitar a reentrada dos satélites para a atmosfera da Terra, onde se queimariam, o sistema poderia ajudar a reduzir a quantidade dos detritos ao redor da Terra.



Fonte: BR Finanças - Danielle Cassita



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