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Tartaruga morre com óleo das narinas ao intestino, aponta laudo

Compartilhe:     |  31 de outubro de 2019

A necropsia de uma tartaruga-oliva altamente contaminada por petróleo, encontrada em um dos paraísos ecológicos brasileiros, é, antes de tudo, a anatomia de um crime ambiental com proporções ainda desconhecidas.

O animal, da espécie Lepidochelys olivacea, já está em perigo no Brasil, conforme classificação do Ministério do Meio Ambiente. O vazamento de óleo que vem impactando toda a costa do Nordeste elevou esse risco a outro patamar, com efeito devastador para o organismo desses bichos.

O GLOBO teve acesso ao laudo da necrópsia feita em uma tartaruga-oliva encontrada na Praia de Jericoacoara, no Ceará, na manhã de 24 de setembro. A carcaça tinha óleo em 100% da superfície.

A necrópsia mostra um quadro sistêmico de agressão à vida da tartaruga. O petróleo penetrou para bem além do que estava visível no casco.

Embrenhou-se por boca, narinas e abertura da traqueia; obstruiu o esôfago e impediu que a tartaruga se alimentasse; chegou ao intestino e se misturou às fezes; a substância ficou “firmemente” aderida à pele, impregnada nas pregas do corpo.

Tudo isso durou pelo menos dez dias, desde a contaminação do réptil em alto-mar até o encalhe na praia. A tartaruga morreu na madrugada seguinte.

O médico veterinário Vitor Luz Carvalho, da Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis), assina o laudo.

Ao GLOBO, ele disse que a tartaruga era uma fêmea adulta que tinha perdido bastante peso por conta da obstrução do trato digestivo:

– Como é um animal que tinha lesões com algumas características mais crônicas, a gente acredita que ela teve contato com o óleo há mais dias e só depois veio a encalhar. Como ingeriu bastante óleo, a tartaruga ficou com o trato digestivo obstruído e não conseguiu se alimentar. Ficou cada vez mais debilitada e acabou derivando, encalhando na costa.

Óleo atingiu 107 animais e matou 74

O último levantamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostra que 107 animais foram contaminados pelo petróleo desde o início da tragédia ambiental, há dois meses.

Eles foram encontrados em oito dos nove estados do Nordeste. Oitenta e um morreram. A grande maioria é de tartarugas, os bichos mais impactados pelo petróleo – 74 foram encontradas “oleadas” desde o início da contaminação da costa nordestina.

O impacto é tão expressivo que equipes de resgate fazem capturas preventivas de filhotes de tartarugas, para evitar que esses bebês sejam banhados pelo petróleo.

Na Bahia e em Sergipe, foram guardados e posteriormente liberados 3,3 mil filhotes.

Os detalhes contidos no laudo da necrópsia da tartaruga-oliva encaminhado ao Ibama dão a dimensão da gravidade do impacto do óleo no organismo dos animais.

“A tartaruga apresentava ausência de conteúdo alimentar ao longo do trato gastrointestinal devido à obstrução esofágica por substância oleosa”, conclui o laudo.

“Foram observados quadros patológicos relevantes, incluindo enterite hemorrágica severa, hepatomegalia, doença renal cística, cistite e edema pulmonar. Considerando o curso subagudo e crônico das lesões, sugere-se que o contato com o material oleoso se deu ainda no mar, pelo menos dez dias antes do encalhe”, continua o documento.

As causas da morte: intoxicação por substância oleosa e falência múltipla de órgãos.

Segundo o veterinário que assina o laudo, houve uma falha circulatória geral que comprometeu diversos órgãos.

A tartaruga era adulta, com o casco medindo 63 centímetros. Depois de ser encontrada por uma equipe do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), foi levada para a sede do Parque Nacional de Jericoacoara.

No mesmo dia, o animal foi encaminhada à Aquasis. Chegou à unidade de “despetrolização” da entidade às 22h50, ainda com vida. Estava debilitada e com reflexos reduzidos.

A tartaruga foi lavada, e seguiu com movimentos escassos. Quando os técnicos tentaram entubá-la, numa tentativa de eliminação de toxinas, o animal sofreu uma parada respiratória. Morreu à 0h50.

O documento da necrópsia foi solicitado pelo Ibama, e encaminhado ao órgão no último dia 7.

A necrópsia mostrou edema na abertura da traqueia e nos brônquios. Havia hemorragia nos pulmões. No trato digestivo, o óleo estava “firmemente aderido às papilas esofágicas”.

Também havia hemorragia na mucosa gástrica, do intestino e da bexiga. Uma “substância enegrecida” recobria a mucosa.

“O fígado estava discretamente aumentado, congesto e com superfície de coloração irregular.”

O legista faz uma anotação no laudo: “Com relação ao trato reprodutivo, foi observada a presença de centenas de folículos em diferentes estágios de desenvolvimento.”

A espécie habita principalmente águas rasas, próximas à costa. O Projeto Tamar estima que existam 8.700 ninhos de tartaruga-oliva por temporada no Brasil.

As áreas de desova são do sul de Alagoas até o litoral norte da Bahia, regiões que estão diariamente sendo afetadas pelas manchas de óleo que chegam às praias.



Fonte: Extra - Gabriel Shinohara e Vinicius Sassine



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