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Tecnologias de emissões negativas não vão resolver crise climática

Compartilhe:     |  12 de setembro de 2020

Tecnologias de emissões negativas

Uma equipe liderada por pesquisadores da Universidade da Virgínia, nos EUA, adverte que, quando se trata das mudanças climáticas, o mundo está fazendo uma aposta que pode não ser capaz de pagar.

O artigo da equipe, publicado pela revista Nature Climate Change, explora como os planos para evitar os piores efeitos do aquecimento do planeta podem trazer seus próprios efeitos colaterais indesejados.

Os modelos nos quais o IPCC (Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudança Climática) e os tomadores de decisão em todo o mundo estão se baseando para desenvolver estratégias para cumprir os compromissos de neutralidade de carbono, todos eles, diz a equipe, assumem que tecnologias de emissões negativas estarão disponíveis como parte da solução.

As tecnologias de emissões negativas, ou TENs, removem dióxido de carbono (CO2) da atmosfera. As três abordagens mais amplamente estudadas são (1) bioenergia com captura e armazenamento de carbono, que envolve o cultivo de safras para produzir combustíveis e, a seguir, coletar e enterrar o CO2 da biomassa queimada; (2) plantar mais florestas; e (3) a captura direta de ar, um processo projetado para separar o CO2 do ar e armazená-lo permanentemente, provavelmente no subsolo.

“O problema é que ninguém testou essas tecnologias em escala de demonstração, muito menos em níveis massivos necessários para compensar as atuais emissões de CO2,” pondera o professor Andres Clarens. “Nosso trabalho quantifica os custos [dessas tecnologias] para que possamos ter uma conversa honesta sobre isso antes de começarmos a fazer isso em grande escala. ”

Tecnologias de emissões negativas não vão resolver crise climática, dizem cientistas

Todos os modelos considerados pelo IPCC dependem de novas tecnologias que ainda não estão garantidas.
[Imagem: Carnegie Institution]

Captura direta de ar

Para a pesquisa, a equipe usou um modelo integrado – um dos usados pelas Nações Unidas – chamado Modelo de Avaliação da Mudança Global e, em seguida, comparou os efeitos das três tecnologias de emissões negativas no abastecimento global de alimentos, no uso de água e na demanda de energia.

O trabalho consistiu então em analisar o papel que a captura de CO2 teria nos cenários climáticos futuros.

Os biocombustíveis e o reflorestamento ocupam vastos recursos de terra e água necessários para a agricultura, além do que os biocombustíveis também contribuem para a poluição pela fertilização. A captura direta de ar usa menos água do que o plantio de biocombustíveis e árvores, mas ainda exige muita água e ainda mais energia – em grande parte fornecida por combustíveis fósseis, anulando alguns dos benefícios da remoção de dióxido de carbono. Até recentemente, as tecnologias de ar direto também eram consideradas caras demais para serem incluídas nos planos de redução de emissões.

A análise da equipe mostra que a captura direta de ar pode começar removendo até três bilhões de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera por ano por volta de 2035 – mais de 50% das emissões dos EUA em 2017, o ano mais recente para o qual dados confiáveis estão disponíveis.

Mas mesmo que os subsídios governamentais tornem viável a adoção rápida e ampla da captura direta de ar, precisaremos de biocombustíveis e de reflorestamento para cumprir as metas de redução de CO2. A análise mostrou que os preços das safras de alimentos básicos ainda aumentarão aproximadamente três vezes no mundo em relação aos níveis de 2010 e cinco vezes em muitas partes do mundo onde já existem desigualdades no custo das mudanças climáticas.

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Já se sabia que as políticas ambientais podem ter efeitos colaterais indesejáveis, mas o pior pode vir mesmo da geoengenharia, que pode piorar o aquecimento global.
[Imagem: Martin Bruckner et al – 10.1088/1748-9326/ab07f5]

Sentar e esperar pela tecnologia

“A captura direta de ar pode suavizar – mas não eliminar – as compensações mais agudas resultantes da competição de terras entre terras agrícolas [para alimentos] e terras necessárias para novas florestas e bioenergia,” escreveram os pesquisadores.

Os custos que permanecem aumentam com o tempo, tornando as ações determinadas e multifacetadas para reduzir as emissões de dióxido de carbono e removê-lo da atmosfera ainda mais urgentes, argumentam eles.

“Precisamos nos afastar dos combustíveis fósseis de forma ainda mais agressiva do que muitas instituições estão considerando,” disse Clarens. “As tecnologias de emissões negativas são o suporte que a ONU e muitos países esperam que um dia nos salvem, mas elas terão efeitos colaterais para os quais temos que estar preparados. É uma grande aposta sentar e esperar pela próxima década dizendo, ‘Estamos tranquilos porque vamos dispor dessa tecnologia em 2030’; mas então descobrirmos que há falta de água e que não podemos fazer isso.”

“Antes de apostarmos tudo o que temos, vamos entender quais serão as consequências. Esta pesquisa pode nos ajudar a evitar algumas das armadilhas que podem surgir dessas iniciativas,” finalizou o pesquisador Jay Fuhrman.

Bibliografia:

Artigo: Food-energy-water implications of negative emissions technologies in a 1.5 °C future
Autores: Jay Fuhrman, Haewon McJeon, Pralit Patel, Scott C. Doney, William M. Shobe, Andres F. Clarens
Revista: Nature Climate Change
DOI: 10.1038/s41558-020-0876-z



Fonte: Inovação Tecnológica



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