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Tiranossauro brasileiro: O maior jacaré que existiu viveu no Acre há 10 milhões de anos

Compartilhe:     |  13 de agosto de 2019

Há pouco mais de um mês, no início de julho, deu-se um fato curioso no município de Brasiléia, estado do Acre. Robson Cavalcante, um garoto de 11 anos, estava pescando com seu pai numa margem do rio Acre quando pisou em algo estranho. “Estava pescando, aí pisei em alguma coisa diferente e chamei meu pai. Ele cavou um pouco e eu achei que era um dinossauro”, disse o menino.

O pai da criança, o carpinteiro José Militão, voltou ao local no dia seguinte para escavar melhor e ficou impressionado com o que descobriu. “Usei enxada e picareta e fui descobrindo que era um fóssil. Fiz com bastante cuidado para não danificar.”

O que Robson havia encontrado não era um dinossauro. Não obstante, tratavam-se dos restos de um monstro. Era a mandíbula inferior de um purussauro, o maior jacaré que existiu.

Menino Robson e seu pai dentro da mandíbula inferior de um purussauro. Foto: Arquivo pessoal/Raylanderson Frota.

A notícia da descoberta de um dinossauro se espalhou-se pelas ruas de Brasiléia. Não tardou para o boato adquirir musculatura suficiente para reverberar há mais de 200 quilômetros dali, na capital do estado, Rio Branco, mais especificamente no Laboratório de Paleontologia da Universidade Federal do Acre (UFAC). Foi assim que o paleontólogo Jonas Filho ficou sabendo do achado, e foi investigá-lo.

“É um jacaré purussauro, um dos maiores que já existiram na Amazônia, há cerca de 8 milhões. É uma mandíbula completa. Parece que além da mandíbula, tem um crânio que está sendo exposto”, afirmou o paleontólogo. A mandíbula fossilizada tem mais de um metro de comprimento, o que dá as dimensões da bocarra assustadora que tinha o bicho.

Nos dias seguintes, Jonas Filho tratou de coletar com cuidado o bloco de rocha contendo o fóssil, transportando-o das barrancas do rio Acre à bancada de trabalho de seu laboratório. Lá, o fóssil recém-descoberto foi fazer parte da coleção de ossadas de purussauros que os paleontólogos acreanos vêm reunindo há décadas.

A estrela da coleção é um crânio completo, o único já descoberto, um espécime magnífico com um metro e meio de comprimento, meio metro de largura e outro meio metro de altura.

O crânio foi encontrado nos anos 1980 nas barrancas do rio Acre por uma equipe de paleontólogos brasileiros (da UFAC) e americanos do Museu de História Natural de Los Angeles. O fóssil é tão grande e tão pesado – estima-se que tenha mais de uma tonelada – que para removê-lo e transportado teve que ser cerrado em diversas partes, que foram novamente coladas em laboratório.

A remoção de toda a rocha que envolvia o crânio foi um trabalho de muitos meses, realizado por especialistas em Los Angeles. Quando o fóssil foi finalmente libertado da rocha, o resultado mostrou-se impressionante. O primeiro crânio completo de um purussauro é imponente. E assustador. Não deixa nada a dever aos crânios de tiranossauro rex, o mais famoso dos dinossauros, e que viveu na América do Norte dezenas de milhões de anos antes do purussauro.

Após ser estudado, o crânio completo do purussauro retornou ao Acre, onde encontra-se há mais de trinta anos sob uma redoma de acrílico na sala de exposições do Laboratório de Paleontologia da UFAC, em Rio Branco.

Desde então, réplicas daquele crânio estupendo foram sendo modeladas e expostas em diversos museus de história natural em todo o mundo.

Mas o original está no Acre.

Crânio completo de purussauro, no Laboratório de Paleontologia, Universidade Federal do Acre. Foto: Peter Moon.

O rei da selva

Os primeiros fósseis de purussauro foram descobertos não se sabe por qual caboclo amazônico há bem mais de um século, nas margens do rio Purus. Também não se sabe de que forma aqueles fósseis foram levados a Manaus, mas o fato é que acabaram percebidos pelo naturalista brasileiro João Barbosa Rodrigues (1842-1909), que em 1892 batizou o bicho de Purussaurus brasiliensis.

O nosso purussauro é o maior membro conhecido da longeva linhagem dos crocodilianos, animais que existem desde os tempos dos dinossauros, e que chegaram aos nossos dias divididos em dois grupos, os jacarés e os crocodilos. As maiores espécies viventes de cada um destes grupos são, respectivamente, o jacaré-açu (Melanosuchus niger) amazônico, que atinge 6 metros e meia tonelada, e o australiano crocodilo-de-água-salgada (Crocodylus porosus), pouco maior que o jacaré-açú, porém muito mais pesado, com 1,5 tonelada.

Comparados ao purussauro, mais pareceriam calangos ou teiús.

Estima-se que, quando vivo, um purussauro adulto atingiria 12,5 metros de comprimento (quase tanto quanto um ônibus) e talvez 8,5 toneladas – equivalente ao peso de um elefante africano e meio – ou 15 búfalos.

Purussauro foi o maior membro da linhagem dos crocodilianos.

O purussauro era um jacaré dono de um focinho muito curioso. Os jacarés que conhecemos tem rostro achatado e afilado. Já o purussauro o tinha curto e alto, fazendo com que seu crânio lembrasse o de um lagarto descomunal.

Ao longo dos 150 milhões de anos de história da linhagem dos crocodilianos, nenhum superou as dimensões do purussauro. O vice-líder em tamanho foi um crocodilo afro-brasileiro, Sarcosuchus imperator. Há 100 milhões de anos, aquele “supercroc” de 12 metros habitava os pântanos do Nordeste brasileiro e do oeste do deserto do Saara, regiões hoje separadas por mais de 3 mil quilômetros de Atlântico, mas que à época encontravam-se coladas, pois ainda não havia oceano.

O terceiro colocado na lista dos maiores crocodilianos foi um gigante norte-americano, Deinosuchus, também contemporâneo dos dinossauros.

E o quarto colocado era um rival amazônico contemporâneo do purussauro. Gryposuchus croizati, ou griposuco, foi o maior gavial que existiu. Tinha 12 metros e era dotado de um focinho extremamente afilado, adaptado para a captura de peixe. Tal morfologia sobrevive até hoje apenas nos pântanos da Índia, onde os únicos gaviais viventes (Gavialis gangeticus), com máximos 4 metros, são versões bastante acanhadas do outrora gavial-rei.

O lar do purussauro

Imagem: Reprodução.

Purussauro e griposuco eram os predadores máximos de um mega-pântano que havia na Amazônia ocidental, entre 23 milhões e 8 milhões de anos atrás, no período Mioceno.

O imenso lago Pebas se formou em decorrência do soerguimento dos terrenos da protobacia amazônica. Isso se deu em função da elevação dos Andes, que acelerou a partir de 20 milhões de anos atrás. Naquela época, a Amazônia ocidental era banhada pelas bacias do Amazonas (que corria em sentido contrário ao atual) e do rio Magdalena, na Colômbia.

A elevação dos Andes, no que são hoje o Peru e a Colômbia, acabou por bloquear do proto-Amazonas, que fluía do Pará em direção ao Pacífico. Foi o empoçamento de suas águas o que deu origem ao Lago Pebas.

Os vestígios daquele antigo bioma estão espalhados por mais de 1 milhão de quilômetros quadrados, divididos entre Bolívia, Acre, oeste do Amazonas, Peru, Colômbia e Venezuela.

Daí que foram achados fósseis de purussauros tanto no Peru quanto na Venezuela. Porém jamais um crânio tão completo quanto aquele acreano.

As mesmas formações geológicas que nos legaram os fósseis do purussauro e do griposuco, também revelaram restos de uma dezena de crocodilianos, entre eles um terceiro gigante, o mourasuchus de 10 metros, que curiosamente era adaptado a se alimentar não de carne ou peixe, mas moluscos.

No Pebas também viveu a maior das tartarugas. “Estupidamente” grande, como sugere seu nome, Stupendemys geographicus tinha um casco de 3,5 metros de comprimento e pesava duas toneladas, imensamente maior que a maior tartaruga viva,  a de casco-de-couro, que tem 2 metros e 700 kg.

O primeiro casco de estupendemis foi achado na Colômbia e descrito em 1976. Posteriormente, em 1993, novos exemplares foram achados no Acre.

Era comida de purussauro. Tanto isto é verdade que, na Venezuela, foi achado um casco completo de estupendemis faltando um pedaço – cujo formato é idêntico ao da mordida de um purussauro.

Imagem: Reprodução.

Como predador máximo do bioma Pebas, o purussauro incluía em seu cardápio igualmente roedores gigantes. Com 50 quilos, as capivaras são os maiores roedores vivos. Elas vivem em banhados. Há 10 milhões de anos, nos charcos do Pebas viviam famílias de roedores de 1,5 metro de altura e 800 quilos, chamado Phoberomys pattersoni, cujo fóssil foi achado na Venezuela, em 2000.

Dá até para imaginar um purussauro se aproximando sorrateiro das margens de um rio no Pebas para abocanhar imensos poberomis…

Há 8 milhões de anos, o Amazonas passou a correr no seu curso atual. Assim, as águas do Lago Pebas, antes represadas, puderam escoar para o oceano.

Foi o fim daquela autêntica terra de gigantes. E de sua fauna maravilhosa.



Fonte: ((o))Eco - Peter Moon



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