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Todos precisam usar máscara fora de casa? Especialistas avaliam

Compartilhe:     |  25 de abril de 2021

Diversos fatores podem influenciar a necessidade de manter o rosto coberto ao caminhar, pedalar ou correr ao ar livre.

Os dias estão ficando mais longos, as temperaturas estão subindo e os narcisos estão em plena floração no Hemisfério Norte. Depois de um inverno longo e escuro com as pessoas isoladas dentro de suas casas sob a ameaça da covid-19, a primavera promete uma chance de finalmente interromper esse confinamento. Mas será preciso respirar esse ar fresco por trás de uma máscara?

Um ano depois de as cidades fecharem playgrounds e parques públicos, temendo a disseminação do vírus em espaços externos compartilhados, muitas evidências se acumularam mostrando que a transmissão raramente acontece ao ar livre. Isso significa que as recomendações sobre o uso de máscara nesses espaços também não precisam ser tão rígidas.

“Uma das descobertas mais importantes na literatura é que a transmissão é reduzida em ambientes externos, comparada aos internos”, afirma Jonathan Proctor, pós-doutorado na Iniciativa de Ciência de Dados e no Centro de Meio Ambiente de Harvard. O motivo é bastante intuitivo: o vírus tem muito mais lugares para transitar além do nariz das pessoas.

“Há uma grande quantidade de ar no qual as gotículas e as partículas virais podem se dispersar”, explica Lisa Lee, especialista em saúde pública do Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia e ex-funcionária dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

Uma revisão sistemática publicada em fevereiro descobriu que menos de 10% das infecções pelo Sars-CoV-2 relatadas ocorreram ao ar livre. Em comparação, a transmissão em ambientes internos era 18 vezes mais provável. As infecções que ocorreram ao ar livre geralmente envolviam outros riscos, como pessoas alternando entre atividades internas e externas.

Distância, duração e intensidade são os fatores mais importantes

Ainda assim, o risco existe, afirma Saskia Popescu, epidemiologista da Universidade do Arizona em Phoenix.

“Ambientes externos são mais seguros, mas não eliminam totalmente o risco”, ela diz. “Quando constatamos transmissões ao ar livre, são entre pessoas próximas umas das outras, conversando cara a cara.”

Segundo ela, os três principais fatores a se considerar são distância, duração e intensidade. Quanto mais próximas as pessoas estão, mais gotículas uma atividade gera e quanto mais tempo as pessoas ficam próximas umas das outras, maior o risco e mais importante se torna o uso de máscara. Como acontece com tantos outros fatores na pandemia, o risco de infecção — e a necessidade de usar uma máscara — depende do contexto.

“Depende muito de uma série de fatores, incluindo a quantidade de pessoas envolvidas em uma atividade ao ar livre, a quantidade de movimento, se todos estão voltados para a mesma direção ou uns de frente para os outros, quão vigorosa é a respiração das pessoas”, explica Lee. “Se todos estiverem com uma respiração pesada, suas gotículas irão viajar mais longe, então o ideal é manter uma distância maior que um metro e oitenta.”

Popescu deu alguns exemplos de situações ao ar livre nas quais sempre usa uma máscara, em comparação com outras em que ela simplesmente mantém uma à mão, caso precise.

“Se eu estiver em uma feira livre, vou usar uma máscara, porque estou perto de outras pessoas. Mesmo que eu possa me distanciar periodicamente, vou usar uma máscara o tempo todo”, explica Popescu. “Se eu estiver passeando com meu marido na praia ou andando pela rua com meu cachorro, vou manter minha máscara comigo e a colocarei ao ver alguém se aproximando.”

Basicamente, se Popescu estiver próxima de pessoas fora de sua casa, ela vai colocar a máscara. Se ela conseguir ficar a pelo menos um metro e oitenta dos outros — no mínimo, ela enfatiza — a máscara não é necessária.

O clima parece ter pouco impacto

À medida que se inicia o verão no Hemisfério Norte, os riscos de transmissão ao ar livre podem cair ainda mais. É o que sugerem algumas pesquisas preliminares sobre o impacto do clima na transmissão do Sars-CoV-2. O fator mais importante, embora ainda tenha fracas evidências no geral, parece ser a luz ultravioleta.

“Nossas descobertas sugerem que a radiação ultravioleta pode estar desativando o vírus e, portanto, dificultando sua propagação”, explica Proctor, coautor de um estudo que apresenta uma relação entre níveis mais elevados de luz ultravioleta e níveis mais baixos de transmissão de covid-19. As razões para essa associação são difíceis de definir, segundo ele.

“Em termos de estudos empíricos sobre fatores climatológicos, (luz solar, temperatura, umidade, velocidade do vento, etc.) parece que quando temos dias de maior intensidade de luz solar, ocorre redução da transmissão da covid nas duas semanas seguintes”, afirma Proctor. “Esse intervalo de duas semanas é consistente com o tempo que uma pessoa leva para transmitir o vírus e, em seguida, apresentar sintomas e fazer o teste”.

Diversos estudos também descobriram que os casos diminuem com o aumento da temperatura.

“Em geral, vírus respiratórios gostam de temperaturas frias e secas, especialmente o Sars-CoV-2”, afirma Luca Cegolon, médico epidemiologista do departamento de saúde pública em Treviso, Itália, e autor principal de um comentário sobre a justificativa para o uso de máscaras ao ar livre. “A máscara não apenas fornece uma barreira física, mas também ajuda a manter a umidade relativa e a temperatura da boca e principalmente do nariz”, explica Cegolon. “Isso interfere na instalação [capacidade do vírus de se firmar] e na replicação do vírus, e mantém o sistema imunológico das vias aéreas superiores mais forte.”

Mas essas descobertas são mais relevantes no inverno e, novamente, quando as pessoas se reúnem por um tempo prolongado. No geral, as evidências sobre a sazonalidade do vírus permanecem confusas, afirma Gaige Kerr, cientista ambiental e de saúde ocupacional da Universidade George Washington, que liderou uma recente revisão de pesquisas nessa área.

“Neste ponto, não temos uma boa noção do impacto exato que diversas variáveis meteorológicas têm sobre a doença”, explica Kerr. Segundo ele, o vírus influenza e outros coronavírus são sazonais, e experimentos de laboratório mostraram que o vírus Sars-CoV-2 sobrevive por mais tempo em condições frias e secas com baixa radiação UV. “Mas esses resultados não se refletiram de fato nos dados do mundo real”, ele comenta. “Apesar de dezenas ou centenas de estudos, os resultados estão por toda a parte e não há consenso algum. Usar a meteorologia como base para mudar ou relaxar as intervenções do governo não é algo sustentado pela ciência.”

Passar tempo ao ar livre, mesmo sem máscara, oferece benefícios à saúde

Em vez disso, o maior impacto do clima provavelmente é sobre o comportamento humano. Embora as descobertas de Proctor, por exemplo, sugiram que a luz ultravioleta pode estar desativando o vírus, outras razões podem explicar a relação encontrada.

“Pode ser porque, quando está ensolarado, as pessoas saem de casa”, afirma Proctor.

As pessoas se reúnem em lugares fechados quando a temperatura fica muito alta ou muito baixa, explica Lee, e isso aumenta as transmissões. Na verdade, essa é a razão pela qual é importante que os legisladores não exijam o uso de máscaras ao ar livre, declara Muge Cevik, médico infectologista e professor clínico da Universidade de St. Andrews, na Escócia.

“Por mais de um ano, as pessoas estiveram sob algum tipo de restrição, nossas vidas mudaram significativamente e todos estão simplesmente cansados”, afirma Cevik. “Se pedirmos às pessoas que usem máscaras regularmente ao ar livre em todas as circunstâncias, isso vai agravar essa fadiga mental. Então não haverá lugar onde elas possam se divertir sem quaisquer restrições.”

O uso obrigatório de máscaras ao ar livre também incentiva as pessoas a se reunirem em lugares fechados, nos quais elas não serão vistas, mas onde o risco é muito maior, diz Cevik. E reunir-se ao ar livre traz outros benefícios para a saúde pública.

“Não podemos pensar em saúde pública apenas como um controle de infecção”, afirma Cevik. “Permitir que espaços externos sejam um lugar onde as pessoas recarreguem suas energias com ar fresco, alegria, atividade física e interação social também é importante do ponto de vista da saúde pública.”

Use máscara se a situação exigir

Portanto, optar por usar uma máscara ao ar livre depende, novamente, da atividade. Popescu não vê muita razão para ciclistas usarem máscara sozinhos, embora os que pedalam em grupos mais próximos ou perto de muitos pedestres devam usar uma. Da mesma forma, corredores só precisam colocar uma máscara ou puxar uma polaina de pescoço ao passarem por alguém.

“Se você estiver correndo atrás de alguém, entrará em contato com partículas que essa pessoa exala e deixa pelo caminho”, afirma Lee, então use uma máscara até passar por ela.

Ao nadar, máscaras são obviamente impraticáveis, mas também são desnecessárias se pessoas de convívios diferentes ficarem a pelo menos dois metros de distância e ninguém falar diretamente na cara de outra pessoa, diz Lee.

Caminhantes podem ficar sem máscara, a menos que estejam passando a menos de dois metros um do outro. Mesmo nesses casos, máscaras não são necessárias para encontros breves, a menos que os caminhantes estejam respirando pesadamente. Dito isso, usar uma máscara também possui um valor simbólico.

“Acho que é uma importante expressão de solidariedade”, comenta Lee. “Passa uma mensagem importante de que não custa nada colocar a máscara por alguns segundos ao passar por alguém.”

Popescu concorda. “É uma combinação de respeito e reconhecimento de que, mesmo que seja breve e o risco seja muito baixo, é a coisa certa a fazer”, ela conclui.



Fonte: National Geographic - POR TARA HAELLE - FOTO DE ANNICE LYN, GETTY IMAGES



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