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“Tudo que amamos vai mudar”, diz autor de livro sobre mudança climática

Compartilhe:     |  9 de agosto de 2019

Não é difícil coletar evidências de que a Terra está passando por um severo aquecimento global. Enquanto a Europa atravessa uma das mais intensas ondas de calor de sua história, agravada pela ação humana, países como o Brasil e os Estados Unidos discutem a necessidade de políticas que protegem o meio ambiente. Temas relacionados ao estado da natureza estão cada vez mais em debate.

No último mês, o jornalista norte-americano David Wallace-Wells, editor da New York Magazine, lançou o livro “A terra inabitável: Uma história do futuro“, onde explora a extensão dos danos ao meio ambiente e a urgência de se agir em prol da natureza como forma de tentar minimizar uma verdadeira catástrofe climática. O livro se tornou best-seller na lista do New York Times. Em conversa com VEJA, o autor discorreu sobre o assunto e opinou sobre a importância do tema.

De acordo com Wallace-Wells, o homem ignorou a mudança climática por tempo demais. Parte disso, diz ele, se deve à ação da imprensa, que tende a comentar o tópico de modo excessivamente otimista, dando ao público uma ideia errônea da severidade do problema. Segundo o autor, cabe à mídia mudar esse tipo de comportamento. “O principal é que a imprensa simplesmente conte a verdade sobre o que está acontecendo ao meio ambiente. Durante muito tempo, jornalistas relutaram em falar sobre o clima porque achavam o assunto entediante, pensavam que o público não estaria interessado. Mas é nosso trabalho contar toda essa história honestamente”, afirma.

David acredita que haja muitos outros motivos por trás da demora em encararmos os fatos. Para ele, a novidade do assunto tem um papel importante nesse aspecto. “A mudança climática ainda é algo relativamente recente. Os primeiros avisos sobre o aquecimento começaram a ser feitos no fim da década de 80. Uma verdadeira mudança de perspectiva pode demorar mais do que 40 anos para se infiltrar em nossos pensamentos e hábitos”, opina.

Ainda assim, as coisas podem estar prestes a se transformar. De acordo com o jornalista, tudo está se alterando muito rapidamente. “Desde 1980, já fizemos mais dano à atmosfera do que em qualquer época antes disso”, informa. “Acho que os políticos estão começando a perceber que os efeitos da mudança climática não virão apenas a longo prazo. Espero que nossos líderes se atentem a isso.”

A esses fatores, soma-se outro igualmente importante: a reação humana ao aquecimento do planeta. Segundo Wallace-Wells, nós possuímos uma espécie de viés cognitivo que nos impede de agir diretamente a favor da natureza. “Vivemos em negação”, opina. E, quando o assunto é a luta pelo equilíbrio no meio ambiente, esse tipo de comportamento nos desacelera.

Para além da negação involuntária pela qual todos passamos, há aqueles que se recusam a acreditar que a mudança climática sequer exista. Seguindo tendências negacionistas, — como aquelas observadas em indivíduos terraplanistas ou anti-vacinas — essas pessoas afirmam que o aquecimento global é um mito. Mas David diz que não devemos nos importar com isso. “O problema do obscurantismo quanto a esse tema é menor do que costumamos pensar. Quando fazemos pesquisas, vemos que a grande maioria do mundo sabe que a mudança climática está acontecendo. Se 20% ou 30% não acredita nela, o problema não é tão grande quanto o fato de que quase ninguém está tão preocupado quanto deveria. Fazer com que os conscientes tomem uma atitude é mais importante do que educar os que não acreditam no aquecimento”, comenta.

Entre aqueles que desprezam as mudanças climáticas estão grandes nomes da geopolítica mundial, a exemplo do presidente norte-americano Donald Trump e de Jair Bolsonaro. “Eu categorizaria esses dois como pessoas que preferem agir mais devagar do que outras nações em relação ao meio ambiente. Eles não negam a mudança em si, mas se sentem mais motivados por outros interesses, como o lucro. Não veem o clima como um problema grande o suficiente para ser sua prioridade, o que é muito preocupante. De certa forma, Trump e Bolsonaro podem representar sinais iniciais de uma nova política, que prega a inação ambiental”, opina Wallace-Wells.

Apesar dos muitos motivos para pessimismo, o autor enxerga uma grande chance de sobrevivência para a espécie humana. “Acho que nós nos adaptaremos. Nossa civilização e nossa biologia são muito adaptáveis. Mas as condições nas quais viveremos serão absurdamente diferentes. Tudo se transformará traumaticamente. Os impactos em outras espécies serão mais dramáticos ainda, já que a maioria deles é muito menos adaptável do que nós”, diz. “Tudo que conhecemos será alterado e, em muitos casos, destruído. E é isso que mais me assusta: o fato de que tudo que conheço está sob ameaça. Isso nos chama à ação. Tudo que amamos vai mudar.”



Fonte: Veja - Sabrina Brito



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