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UFRJ inicia primeiro ensaio clínico do país para testar vacina BCG no combate à Covid-19

Compartilhe:     |  6 de outubro de 2020

Começaram nesta segunda-feira, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os primeiros ensaios clínicos no país com a vacina BCG, indicada na prevenção de casos graves de tuberculose, para prevenção da Covid-19. Serão vacinados 1 mil profissionais de saúde, com o objetivo de analisar se a vacina também é eficaz contra os efeitos da Sars-CoV-2. Como parte da mesma iniciativa, também foi inaugurado na UFRJ um laboratório de campanha que terá capacidade para analisar 300 testes moleculares, do tipo PCR, por dia.

O Hospital Pedro Ernesto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o Hospital Municipal de Barueri Dr. Francisco Moran (SP) fazem parte do estudo. A ação, que engloba os ensaios e o laboratório, é da “RedeVírus MCTI” do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), com investimentos de R$ 1 milhão.

A Fiocruz e o Instituto de Pesquisa Infantil Murdoch da Austrália também desenvolvem estudo semelhante sobre o uso de BCG para Covid-19. O início dos ensaios clínicos foi anunciado para o dia 19 de outubro.

A inauguração dos ensaios e do laboratório da UFRJ teve a participação do ministro Marcos Pontes, que valorizou o papel da ciência e a importância de recursos para pesquisa no enfrentamento da Covid-19, lembrando os 100 anos da UFRJ em 2020. De acordo com ele, outros 12 laboratórios de campanha estão sendo inaugurados no país, apontando para a necessidade de se pensar a infraestrutura nacional de pesquisa para enfrentar problemas futuros.

— É difícil falar que a pandemia tem um lado bom, mas, se há, é o de que ressaltou a importância da ciência, da união, para que trabalhemos juntos para resolver esse problema — afirmou. — Essa não vai ser a última pandemia. Quão preparados estamos para as próximas que virão? Recurso para ciência e tecnologia não é gasto, é investimento, para salvar vidas. Vamos continuar com esses investimentos. A ciência é a única arma que temos para vencer o vírus.

BCG pode combater Covid-19

A BCG, presente no calendário vacinal do Brasil, previne contra as formas graves de tuberculose, como meningite tuberculosa e tuberculose miliar, e é indicada a partir do nascimento. Estudos recentes levantaram a hipótese de que ela também teria efeito contra a Covid-19. Esta hipótese é baseada em dados que apontam que países onde há o uso da vacina apresentaram menor incidência de Covid-19 em comparação com aqueles que suspenderam esse tipo de imunização, como os EUA, a Espanha e a Itália.

A equipe da UFRJ se baseou nesta hipótese e agora busca indícios que a comprovem. A coordenadora da pesquisa, professora de Tisiologia e Pneumologia do Instituto de Doenças do Tórax da UFRJ, Fernanda Mello, explica que os profissionais de saúde que serão vacinados serão divididos em dois grupos: um receberá a BCG e o outro, placebo.

Como, teoricamente, a população brasileira já tomou a vacina BCG na infância, o grupo que receberá a vacina terá uma “revacinação”. Mello explica que a BCG estimula uma resposta imunológica no corpo, que pode ir perdendo a força com o tempo. Por isso, a tentativa de vacinar novamente.

Por enquanto, reforça Mello, são apenas hipóteses e não há qualquer indicação para vacinar novamente a população em geral.

— A BCG estimula a imunidade inata do corpo, e, estudos mostram que isso melhora a resposta imunitária para outras bactérias e vírus (além da tuberculose). Mas sabemos que, com o passar dos anos, há um decréscimo nesse potencial. Agora, vimos que os países que mantinham a vacina no calendário vacinal tiveram menor letalidade do que aqueles que a tinham retirado. E aí veio a hipótese dessa revacinação no intuito de estimular essa imunidade inata de uma forma que ela possa reagir quando tiver contato com o Sars-coV-2 — diz Mello. — Precisamos verificar se, no contexto específico da Covid-19 a BCG vai ter, de fato, efeito protetor.

Para isso, os dois grupos serão acompanhados por um ano, com a realização de testes sorológicos para identificar se houve contato com o vírus e se houve infecção ou não. Se o grupo que tomou a vacina adoecer menos que o que tomou placebo, já haverá um indício do efeito da BCG. Ao longo dos 12 meses, serão feitas análises periódicas, que podem trazer resultados promissores.

Ainda que o Brasil tenha estado entre os países com os maiores índices de casos e de mortes pela Covid-19, estudos iniciais indicam que o cenário poderia ter sido pior, caso não houvesse a BCG no calendário vacinal.

— O Brasil é muito grande e tivemos muita exposição ao vírus. É possível que a BCG tenha contribuído para que tivéssemos menos mortes. Mas ainda é uma hipóteses. O que vai confirmar que a vacina tem efeito protetor é o ensaio clínico, randomizado com placebo controlado. Assim teremos mais certeza — conclui Mello.

Capacidade de testagem e de pesquisa

O laboratório de campanha inaugurado na UFRJ nesta segunda-feira tem o objetivo de otimizar os diagnósticos a partir da análise dos testes e a pesquisa no estado, além de aumentar a segurança biológica das testagens. Segundo o coordenador do centro, Amilcar Tanuri, o foco inicial deste laboratório será na comunidade da universidade, profissionais de saúde, alunos e funcionários presentes na universidade e nos hospitais vinculados à instituição, como o Clementino Fraga. Mas também serão analisadas amostras enviadas por outras unidades de saúde federais, municipais e estaduais.

Amilcar destaca a importância científica do laboratório, que, segundo ele, tem uma sofisticação que melhorará a qualidade e a segurança biológica das análises de testes.

— Neste laboratório, o teste se transforma em pesquisa também. A vantagem de se colocar um laboratório em estrutura de universidade é que o teste auxilia o paciente e também movimenta a pesquisa na área — afirma.

Durante a inauguração, Amilcar afirmou que há indícios que levam a crer que o vírus que circula hoje no estado não é o mesmo que circulava no início da pandemia — o que reforça a importância de se ter uma infraestrutura adequada para a pesquisa contínua. Além disso, ele enfatizou que a curva de casos não caiu como se esperava, reforçando que é preciso manter a vigilância.



Fonte: Extra



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