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Uganda sem dinheiro para adaptar-se à mudança climática e seus desastres

Compartilhe:     |  6 de novembro de 2014

Até outubro deste ano, a única fonte de renda da agricultora Allen Nambozo eram couves, cenouras e bananas, que cultivava nas ladeiras do monte Elgon, no distrito ugandense de Bulambuli. Entretanto, desde que as chuvas arrasaram sua pequena propriedade, não tem ideia de como ganhará a vida. As chuvas não destruíram apenas cultivos. A rede viária que ligava Bulambuli com os vizinhos distritos de Mbale e Kapchorwa, também ficou devastada.

Nambozo e seus vizinhos vendem o que produzem nos mercados locais desses distritos aldeões. “Agora não tenho onde cultivar alimentos. Tenho que esperar as chuvas pararem para poder recomeçar”, explicou à IPS. Bulambuli fica perto das ladeiras do fértil monte Elgon, que é um vulcão inativo. Apesar do risco que implica cultivar nesse lugar, muitos dos vizinhos de Nambozo optaram por fazê-lo pela produtividade de seu solo. As autoridades distritais pediram aos moradores que se mudem para áreas mais seguras, por medo de que as contínuas chuvas causem deslizamentos de terra e possíveis mortes.

Atualmente as chuvas fazem com que as pessoas de cerca de 500 residências corram risco caso não se mudem, disse à IPS Sam Wamukota, membro do comitê local de desastres. Mas muitos resistem porque não há instalações adequadas para abrigá-los e porque querem permanecer perto de suas férteis hortas. “Mesmo indo para a escola em busca de abrigo, não teremos onde dormir nem o que comer. É inútil. Penso que deveriam nos deixar em nossas casas, porque ali temos elementos para usar em lugar de sofrer em grupo”, disse à IPS o marido de Nambozo, Mugonyi.

Festus Bagoora, especialista no manejo de recursos naturais da Autoridade Nacional de Manejo Ambiental, afirmou que os esforços da entidade, para que a população se mude para lugares mais seguros, foram frustrados por políticos que querem manter os eleitores em seu distrito.

A contínua prática da agricultura no monte Elgon e nas áreas próximas fez com que fossem cortadas árvores em suas encostas. “Foi eliminada a vegetação que deveria reduzir a velocidade da água que vem da montanha. É por isso que cada vez que ocorre um deslizamento de terra, especialmente no Elgon, é severo, porque esses líquidos arrastam muito material, pedras, por exemplo, que é perigoso para as comunidades”, apontou Bagoora.

De acordo com esse especialista, a Autoridade vigia a área há tempos, mas os conselhos do governo às comunidades de áreas propensas a desastres foram inúteis. É provável que os deslizamentos de terra continuem devido à mudança climática, acrescentou. Uganda é um dos países da África oriental com probabilidade de experimentar maiores chuvas e secas nos próximos anos, e é preciso que implante práticas adequadas de manejo ambiental.

Segundo o quinto e recente informe do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC), algumas áreas do sul e leste da África experimentarão em cada década um aumento de cinco a 50 milímetros na média anual de precipitações.

Algumas avaliações sugerem que as temporadas úmidas serão mais intensas, como ocorre atualmente em Uganda. O informe acrescenta que a maioria dos países que experimenta essas mudanças de clima carece de suficientes dados que lhes permitam elaborar planos adequados para enfrentá-las. É o caso de Uganda, que atualmente não possui os recursos necessários para responder às emergências de um clima variável.

O presidente do distrito de Bulambuli, Simon Peter Wananzofu, culpou o governo por demorar muito para responder ao desastre. “Estamos suplicando ao governo que instale um acampamento para reassentar a população em perigo, assim, enquanto esperamos que implante planos para melhorar a infraestrutura, estaríamos seguros em alguma parte. Mas não respondeu ao nosso pedido”, contou por telefone à IPS.

“Enquanto falamos, há duas grandes rachaduras na montanha, já há tempos. É provável que afetem cinco subcondados de Bulambuli superior. A rede de estradas do baixo Bulambuli também ficou cortada pelas inundações. Assim, a situação está ficando patética”, afirmou.

Porém, o Ministério de Água e Ambiente, por meio de sua política de mudança climática, elaborou pautas para incluir atividades relativas a esse fenômeno em seu orçamento, segundo disse à IPS o secretário permanente dessa pasta, David Ebong. “Começando pelos processos orçamentários de 2015-2016, queremos que essas pautas integrem o ciclo orçamentário, para que cada setor seja obrigado a criar em seu orçamento um item dedicado à mudança climática, de modo que, coletivamente, possamos mobilizar recursos de todos os setores”, explicou.

Ebong considera que o país ainda não conta com os recursos financeiros adequados para enfrentar os problemas relacionados com a mudança climática. “Além do financiamento nacional, devemos nos fixar em outras opções, como o financiamento bilateral e o realizado sob a órbita da Organização das Nações Unidas (ONU), como o Fundo Verde para o Clima, entre outros”, ressaltou.

Ambientalistas como Bagoora veem isso com bons olhos. “Criar um fundo para a mudança climática é uma boa medida; a maneira com reagimos é muito ineficiente. Deveríamos estar preparados em lugar de reagir. Quando ocorre um desastre, se começa a buscar dinheiro em todos os lados em lugar de agir imediatamente. E quando esse dinheiro demora a chegar, a população sofre e o problema piora”, enfatizou.



Fonte: Envolverde/IPS



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