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Última chance para o leopardo persa: a luta para salvar as florestas do Curdistão

Compartilhe:     |  29 de junho de 2020

Durante a primavera, a montanha de Pirmagrun – um dos últimos refúgios do mundo para o leopardo persa, em ameaça de extinção – defende o campo circundante do Curdistão Iraquiano. Seus picos rochosos e cobertos de neve se desbotam em uma antiga floresta de carvalho, que começa escassa antes de se transformar em vales estreitos e densamente arborizados.

Tão recente quanto os anos de 1980, a floresta cobria tanto as encostas da montanha – também conhecida como Birah Magrun – quanto a área ao redor, e o leopardo era comumente visto por caçadores. Contudo, a intensiva e ilegal exploração madeireira faz com que a floresta agora acabe abruptamente na metade do caminho montanha adentro, onde se choca com uma barreira de terra composta por tocos de árvores e pastadas por hordas de cabras.

A perda acelerada de habitat é ameaçadora para a completa existência do leopardo persa no Iraque, de acordo com Hana Raza, uma bióloga da organização de conservação Nature Iraq, que tem monitorado a população desses predadores por mais de uma década.

Entre 1999 e 2018, quase metade das florestas do Curdistão Iraquiano – mais de 890 mil hectares (2,2 milhões de acres) – foram destruídos, principalmente pela extração madeireira e por incêndios florestais, de acordo com pesquisas lideradas pela ONU e o governo regional do Curdistão (GRC).

Ao mesmo tempo, a antes comum população adulta do leopardo persa é estimada a ter sido reduzida a um número entre 800 e 1.200.

“A árvore de carvalho é uma espécie-chave no Curdistão iraquiano”, diz Raza. “Se as florestas de carvalho continuarem a diminuir, então a existência contínua do leopardo persa se tornará insustentável”.

Da mesma forma que o leopardo persa, o predador máximo da região, pelo menos 31 espécies de pássaros estão ameaçadas com a extinção no Curdistão Iraquiano, conforme a Nature Iraq. Outros animais como a corça persa e o leão asiático já estão em extinção da região.

Em adição a isso, o carvalho caucasiano, um dos quatro tipos de árvores de carvalho encontradas nas montanhas do Curdistão, está criticamente sob ameaça a nível regional e em perigo de desaparecer completamente das florestas iraquianas.

“Todos os anos, quando eu retorno, existem menos árvores – e não é apenas em uma montanha – a dizimação das florestas nativas de carvalho está se acelerando por todo o Curdistão Iraquiano”, diz Raza.

O maior causador da atual onda de exploração madeireira na região é a pioria da crise econômica. O Curdistão Iraquiano, que se baseia no setor de petróleo e gás em cerca de 80% das suas receitas governamentais, estava passando por dificuldades para lidar com o balão de dívidas do fim de 2019. Os problemas financeiros têm sido compostos pela pandemia do Covid-19, que tem afundado os preços globais do petróleo.

Dliva Abdulla é o prefeito do município de Qara Dagh e vive em uma cidade próxima à impressionante cordilheira. A série de nove picos de montanhas, conhecidos como Qopa Qara Dagh, é transpassada por oito vales e é um dos poucos lugares em que o leopardo persa foi fotografado no Curdistão Iraquiano.

A cordilheira se posiciona em uma região em que os ecossistemas da montanha Zagros e a estepe mediterrânea se sobrepõe, fazendo com que seja uma região altamente biodiversa e que seja o lar de mais de 900 espécies de plantas. Entretanto, ela também tem visto um aumento na extração madeireira ilegal, enquanto moradores da comunidade sofrem para conseguir dinheiro.

Abdulla diz que muitos dos que vivem no seu município cortam árvores para prover combustível para cozinhar e se aquecer. Nem Abdulla ou a polícia florestal, encarregada de prevenir o desflorestamento ilegal, tem recebido seus salários do GRC até o final de Abril. “A guarda florestal está tão limitada em recursos que ela não pode custear a gasolina para o seus veículos, e ela tem tido de reduzir o número de patrulhas”, diz Abdula. A crise econômica e a presença reduzida da guarda tem, por sua vez, levado ao aumento da caça.

“Eles ainda estão tentando reforçar estritamente leis anti-caça furtiva – contudo, com as leis contra a extração madeireira, eles têm de ser mais lenientes por causa das famílias do povo”, adiciona.

Esse crescimento na caça está prejudicando a população de cabras, bodes e javalis selvagens, os quais servem de alimento para o leopardo. Em abril, o cadáver de um leopardo de três anos foi encontrado em Birah Magrun, como a Nature Iraq reportou.

“Caçadores estão simplesmente andando pela montanha e matado qualquer coisa que veem”, disse Raza. “A guarda florestal não consegue controlar isso. Nesse caso, o caçador atira no leopardo, mas não o mata instantaneamente, e não pode achá-lo depois – deixando uma carcaça a ser encontrada mais tarde por outra pessoa”.

Em meio à diminuição da habilidade regional do governo de reforçar leis que protejam a vida selvagem da região, as minas terrestres o Curdistão iraquianos têm se tornado uma das últimas proteções contra a extração madeireira ilegal e a caça da região.

Minas deixadas nas décadas anteriores fazem do Curdistão Iraquiano uma das cinco regiões mais intensamente minadas do mundo. Durante a guerra do Irã-Iraque nos anos de 1980, as linhas de frente avançaram e retrocederam através das montanhas e é estimado que mais de 20 milhões de minas terrestres foram plantadas.

Mais delas foram adicionadas quando as forças de Saddam Hussein sistematicamente destruíram vilarejos durante campanhas contra os Curdos no fim da década de 80 e início da de 90.

A Agência de Ação contra Minas do Curdistão do Iraque estima que minas cobrem aproximadamente 226 quilômetros quadrados na região, com mais concentração ao longo da fronteira montanhosa do país com o Irã – onde elas continuam a matar e mutilar pessoas.

Saman Ahmad, o presidente da Fundação Botânica do Curdistão – uma organização dedicada a gravar e preservar a flora do país – acredita que, em meio a crise econômica e as atuais questões de segurança, as minas terrestres são a única coisa que defende efetivamente as florestas de carvalho selvagem restantes no Curdistão iraquiano.

“Finalmente, essas florestas devem ser gerenciadas de uma forma moderna – usando documentação científica, guardas florestais efetivos e fundos do turismo para proteger a biodiversidade excepcional da região”, ele diz. “Agora, com todos os problemas que a região enfrenta, isso simplesmente não é possível”.

“No momento, é provavelmente o melhor que as minas estejam no solo para [manter pessoas longe e] prevenir pessoas de cortar fora árvores e de perturbar o habitat natural”.

Esforços para montar um parque nacional de padrão internacional na região têm falhado em meio às instabilidades econômicas e políticas.

Em 2014, o Parque Nacional Halgurd Sakran foi nomeado o primeiro parque nacional da região, mas o projeto descarrilou pelo surgimento do Estado Islâmico (EI), o qual tomou controle de Mosul, a segunda maior cidade do Curdistão Iraquiano, em Junho do mesmo ano.

Em 2018, planos por um parque transnacional protegido, que teria incluído montanhas no Irã e no Curdistão iraquiano, foram colocados em espera quando nove cientistas e pesquisadores de conservação da Persian Wildlife Heritage Foundation (Fundação Persa de Conservação da Vida Selvagem, em tradução livre), com sede em Teerã, foram acusados de espionagem.

Agora, a Nature Iraq está trabalhando para estabelecer um menor parque formalmente reconhecido de conservação para leopardos persas, que conteria os nove picos do Qopi Qara Dagh. A compra da terra foi aprovada pelo Governo Regional do Curdistão em Janeiro de 2019 e a organização espera que o governo federal do Iraque aprove o status de parque nacional da área em 2021.

“É fácil sentir que você é impotente para parar a destruição do habitat”, diz Raza. “Todavia, ao longo do século passado, o povo curdo tem sacrificado muito para manter o controle dessas montanhas. Todos esses sacrifícios não terão significado se os leopardos e outros animais nativos se tornarem extintos”.



Fonte: Anda



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