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Um olhar mais atento sobre a evolução dos leões oferece esperança na salvação dos grandes felinos

Compartilhe:     |  1 de junho de 2020

Há trinta mil anos, vários tipos de leões vagueavam pelo mundo, caçando presas em quatro continentes. Um dos mais prolíficos, o leão-das-cavernas, vagueou desde Espanha, passou por toda a Eurásia e chegou até ao Alasca e ao Yukon dos dias de hoje, e foi amplamente retratado na arte rupestre.

Enquanto isso, os leões-americanos, ainda maiores que os leões-africanos, e os tigres dentes-de-sabre rondavam por toda a América do Norte e possivelmente por zonas da América do Sul. Outros leões de vários tamanhos e aparências viviam em África, no Médio Oriente e na Índia. Grande parte destas criaturas desapareceu desde então, mas os cientistas conseguiram recolher pistas genéticas que lançam uma nova luz sobre a sua existência e oferecem alguns detalhes sobre os seus primos modernos, que agora enfrentam a sua própria extinção.

Durante os últimos 150 anos, a população global de leões-africanos caiu mais de 20 vezes, para números inferiores a 25 mil, sobretudo devido à caça e à perda de habitat. Na Índia, restam aproximadamente 600 leões-asiáticos.

Para ajudar a salvar os leões que ainda existem no mundo, e para compreender melhor como é que os diferentes tipos estão relacionados, uma equipa internacional de cientistas sequenciou os genomas completos de 20 leões individuais, 14 dos quais morreram há muito tempo, incluindo dois leões-das-cavernas com 30 mil anos que ficaram preservados no pergelissolo da Sibéria e do Yukon.

No estudo, publicado no dia 4 de maio na Proceedings of the National Academy of Sciences, os investigadores revelam que os leões-das-cavernas não fizeram cruzamento de espécies com outros tipos de leões, e também afirmam que os leões-asiáticos se separaram dos seus antepassados há cerca de 70 mil anos, para além de outros segredos sobre a evolução dos grandes felinos.

Os extintos leões-das-cavernas (Panthera leo spelaea) provavelmente não tinham jubas, podendo não ser atraentes para as leoas ...

Os extintos leões-das-cavernas (Panthera leo spelaea) provavelmente não tinham jubas, podendo não ser atraentes para as leoas africanas.

FOTOGRAFIA DE DEAGOSTINI, GETTY/ARTWORK BY MIKE DONNELLY

“O estudo analisa o passado para descortinar o futuro”, diz um dos coautores do trabalho, Ross Barnett, geneticista da Universidade de Copenhaga. “Se olhássemos apenas para os leões que existem atualmente, iríamos passar ao lado da história.”

Fora de África

Os resultados do estudo suportam a teoria de que os leões saíram de África numa série de migrações, algo que, de certa forma, se assemelha ao que aconteceu com os humanos, diz Barnett.

Os leões-das-cavernas foram os primeiros a sair, separando-se dos seus parentes africanos há cerca de 500 mil anos. Estes leões evoluíram com características ligeiramente diferentes. Por exemplo, “pela arte rupestre existente na Europa, sabemos que os machos não tinham jubas”, diz Barnett. Estes animais espalharam-se por toda a Eurásia e pela América do Norte.

Ainda assim, os leões-das-cavernas e os antepassados dos leões-africanos da atualidade não fizeram cruzamento de espécies, revela a análise genética. “Isto é estranho, porque a maioria dos grandes felinos ocasionalmente acasala quando tem essa possibilidade – mesmo entre animais muito diferentes, como leões e tigres”, diz Marc de Manuel, outro dos coautores do estudo, do Instituto de Biologia Evolutiva em Barcelona.

Portanto, é provável que existisse algo que os impedia de se misturarem – e não foi apenas a geografia, já que as suas faixas de alcance se sobrepuseram durante algum tempo no Sudoeste Asiático.

Barnett diz que isto se pode dever ao facto de os leões-das-cavernas não terem jubas, algo que as leoas africanas reconhecem como sinais importantes de saúde e virilidade. “Existe portanto a possibilidade de os outros tipos de leões não terem encarado os leões-das-cavernas como parceiros viáveis para acasalar.”

Outra migração e divisão aconteceu há cerca de 70 mil anos, quando os antepassados dos leões-asiáticos se separaram. Estes leões tinham faixas de alcance que se estendiam desde a Arábia Saudita até à Índia. Agora, tudo o que resta é uma população pequena e isolada na Floresta Gir, no oeste da Índia, diz Steve O’Brien, cientista da Universidade Nova Southeastern.

Graças aos esforços de conservação, a população destes leões quase que triplicou desde os anos 1990, mas é uma população altamente consanguínea, com um nível de diversidade genética muito reduzido. Isto faz com que os leões-asiáticos machos apresentem níveis problemáticos de esperma e testosterona – cerca de 10 vezes inferiores aos dos leões-africanos, diz O’Brien.

Talvez um dia seja necessário introduzir novos genes na população, caso se perca mais diversidade genética, mas isso também pode ser controverso e politicamente difícil, diz Barnett.

Felinos extintos

Como parte do estudo, os investigadores reuniram genomas de outros três indivíduos de linhagens extintas: leões-do-atlas do norte de África; leões do Médio Oriente; e leões do Cabo da África do Sul. Todos tiveram pequenas variações na aparência, embora as novas informações genéticas revelem que não se qualificam como espécies diferentes.

O estudo suporta em grande parte a visão atualmente dominante de que existem duas subespécies de leões: os leões-asiáticos e as populações de África Central e Ocidental, que são atualmente classificados juntos como Panthera leo leo, e os animais de África Oriental e do Sul conhecidos por Panthera leo melanochaita. No entanto, o estudo sugere que os leões de África Central, dos quais restam apenas algumas centenas, podem estar mais estreitamente relacionados com os leões de África Oriental e Austral, embora seja necessário mais trabalho para confirmar esta descoberta.

Os cientistas têm sugerido a reintrodução de leões na África Ocidental, onde estão em perigo crítico de extinção; restam apenas cerca de 400 indivíduos.

Mas como os leões de África Ocidental são geneticamente mais parecidos com os extintos leões-do-atlas, o estudo constata que esta região de África poderia fornecer uma boa população base, isto se os esforços de reintrodução ganhassem tração – apesar de este continuar a ser um cenário improvável.

Prevenir o desaparecimento de leões

No passado, os leões tinham um alcance vasto e, tirando os leões-das-cavernas, as diferentes populações misturaram-se o suficiente para propagar os seus genes, e isto é crucial para a saúde a longo prazo da espécie.

O estudo reforça a importância de existirem enormes áreas protegidas de habitat contíguo para permitir o fluxo genético e para proteger os animais da caça, dizem os autores. E também realça a urgência da conservação dos leões para prevenir futuras perdas.

Mas há uma conclusão preocupante: o artigo mostra que os leões-do-atlas tinham níveis relativamente saudáveis de diversidade genética antes de desaparecerem, sugerindo que, em termos evolutivos, a sua extinção aconteceu rapidamente, diz Manuel – e este é um dos possíveis destinos para os leões da atualidade, isto se a sua conservação não for uma prioridade.



Fonte: National Geographic



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