Geografia Ambiental

Um perfil do Pantanal, uma paisagem alienígena encravada na América do Sul

Compartilhe:     |  19 de setembro de 2020

Por Martha San Juan França

Começa em outubro a temporada úmida no Pantanal. É um ciclo que se repete há, no mínimo, 30 mil anos. O nível da água vai subir lentamente, invadindo toda a planície encravada no centro da América do Sul. As dimensões dessa inundação são colossais. Dois terços dos 150 mil km² do território (uma área equivalente a Santa Catarina) serão cobertos por uma lâmina d´água reluzente. Arbustos e árvores emergem do tapete líquido, pontuado por jacarés e ariranhas, que são mais bem explicadas por seu apelido: lontras-gigantes.

Sem as enchentes, o local seria uma pastagem ressecada. No inverno, o solo encharcado dá lugar a algo mais próximo de uma savana. De fato, o pantanal se localiza à mesma latitude que regiões bastante áridas de outros países, como o deserto da Namíbia e os desolados outbacks australianos. É nesse contexto que acontecem as queimadas, que estão especialmente graves em 2020 (a autora deste texto, escrito para a SUPER em 1990, não imaginaria que, trinta anos depois, ele seria republicado em um contexto tão triste).

Até a década de 1950, aproximadamente, os cientistas desconfiavam que, no passado remoto, um mar interior cobria a região. Algo como um enorme lago de água salgada. Quando foi avistado pela primeira vez por europeus, no século 16, o bioma estava inundado e recebeu o nome de Lago dos Xaraiés. Foi uma homenagem aos nativos da região, com quem os exploradores fizeram contato.

O lago, depois se descobriu, não era um lago. Mesmo durante a época das cheias, muitos terrenos mais altos, que os moradores do Pantanal chamam de cordilheiras, servem de refúgio a bois e animais selvagens. Ademais, todo ano, durante os seis meses de estiagem, quase toda a planície fica exposta. O gado chega a passar sede.

Se não foi um mar nem um lago, o Pantanal tampouco é um pântano. Pelo menos, é o que dizem os pesquisadores, que implicam com o nome com que a região foi batizada, em época incerta, pelos habitantes do lugar. Aparentemente, eles se referiam às primeiras áreas inundadas pelos rios como pantanais – e o termo pegou.

“Jamais se descobriram ali os charcos estagnados ou os lodaçais traiçoeiros típicos dos pântanos”, objeta o geógrafo Aziz Ab’Saber, da Universidade de São Paulo USP, um dos maiores especialistas em geomorfologia brasileira. Ab’Saber prefere chamar o Pantanal de “planície inundável – única pelo seu tamanho, e porque está no interior do continente”. A imagem clichê de um pântano movediço não se aplica a nenhum pedaço do Pantanal.

Não olhe para baixo… Fabian Schmiedlechner / EyeEm/Getty Images

Depressão no terreno

O magnífico cenário do Pantanal, hoje se sabe, enfeita um fundo de concha situado entre as terras altas bolivianas a oeste e as serras brasileiras a leste. Há cerca de 60 milhões de anos, quando se elevaram tanto a Cordilheira dos Andes como o Planalto Brasileiro, a região do Pantanal manteve-se baixa. Uma malha impressionante de rios, formada pelo Paraguai e seus afluentes, despencou nesse imenso anfiteatro, vinda do norte e do leste, escavando os planaltos vizinhos.

A região foi sendo lentamente aterrada. O Rio Paraguai, muito raso para suportar a imensa descarga que recebe de seus afluentes, ainda encontrou obstáculos ao sul, ao atravessar a Serra do Bodoquena. Ao percorrer esse assoalho liso, cuja declividade não passa de 33 milímetros por km, não tem alternativa senão transbordar.

Assim, é fácil entender por que a enchente demora para baixar – avançando cerca de 10 km por dia, ela leva seis meses para atravessar o Pantanal. Enquanto ainda está ganhando terreno no sul, já começa a diminuir de volume no norte. Areia, vegetação decomposta, aguapés, tudo se movimenta com a cheia. Sim: a paisagem não é estática. A enchente, na verdade, é a passagem de um rio em câmera lenta.

Quando ocorre a vazante e a água escorre para outras paragens, fica no lugar uma sopa de detritos na qual nascem capim, ervas, arbustos e uma infinidade de flores – um conjunto exuberante de vegetação que jamais brotaria naquele solo pobre se não fosse a contribuição das águas.

O céu, por sua vez, não contribui muito. Na tórrida cidade de Corumbá, no sul da planície, por exemplo, chove menos do que em São Paulo. Esse fenômeno lembra o que ocorre no Rio Nilo, na África, cujas enchentes fertilizaram o deserto e fizeram a grandeza do Egito há 5 mil anos.

Não é preciso ir muito longe para imaginar o que seria do Pantanal sem o constante ciclo das águas. Do outro lado da fronteira, no território da Bolívia, fica uma das áreas da planície do Chaco, formada na mesma época e da mesma maneira que a planície do Mato Grosso. Apesar do nome, que lembra “charco” e por isso pode dar margem a confusão, a terra ali não é úmida, mas árida.

A palavra chaco vem do idioma quíchua, ainda hoje falado pelos indígenas da região, e significa “terra de caça”. Na sua parte central, o Chaco é um imenso descampado, dominado por bosques baixos e vegetação de savanas. Ali não ocorrem inundações. Os poucos córregos que percorrem a planície são parcamente alimentados nas cabeceiras, localizadas nos altiplanos andinos, onde raramente chove – ao contrário do que acontece nas úmidas serras nas bordas do Pantanal, onde estão as nascentes do Paraguai e seus afluentes.

Na época das secas, a inundação dá lugar a poças humildes e o gado pode passar sede. Principalmente com nossos amigos jacarés à espreita.  Christian Edelmann/Getty Images

Do lado de cá da fronteira, o verde se transforma à medida que o Paraguai atravessa os 700 km de seu percurso pantaneiro. De leste para oeste da planície, o grande rio e seus afluentes passam por matas, cerrados e campos que, em alguns trechos, lembram a caatinga nordestina. Na parte sul e na borda ocidental, a vegetação se parece com a dos bosques chaquenhos.

Calcula-se que durante o Período Quaternário, há 20 ou 30 mil anos, espécies de vegetação tropical e subtropical dos cerrados, do Chaco e da periferia da Amazônia disputavam o espaço enquanto os rios abriam caminho na planície. É por isso que o geólogo Fernando Flávio Marques de Almeida, da Universidade Estadual de Campinas, afirma que não existe um único Pantanal na região. “São quase uma dezena, cada um com características diferentes”, esclarece. A gente do lugar reconhece esses pantanais por nomes diferentes: pantanal de Cáceres, ou de Poconé, ou de Nhecolândia etc.

“Trata-se de uma espécie de mosaico, onde se interpenetram diversos ecossistemas e suas respectivas faunas”, concorda outro pantanólogo, Francisco de Arruda Machado, o Chico, biólogo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Filho de pescadores, nascido numa vila perto de Cuiabá, Chico só podia mesmo se especializar no estudo da multidão de peixes da bacia do Paraguai. Segundo ensina, eles representam um dos elos mais importantes da riquíssima cadeia alimentar do Pantanal, capaz de sustentar animais de grande porte, como a onça-pintada, o lobo-guará, o tamanduá, a capivara e o cervo.

Durante a época das cheias, cardumes e mais cardumes sobem os rios para a desova, no conhecido fenômeno da piracema. Os filhotes se alimentam de microorganismos e da vegetação aquática, como os aguapés, que cobrem as áreas inundadas, ou baías, conforme se diz na região. Quando vem a vazante, muitos rios interrompem seu curso, formando uma seqüência de pequenos lagos, onde jacarés, cobras, pequenos roedores e pássaros fazem a festa. “Numa lagoa de 2 m² se encontram 60 espécies de peixes convivendo lado a lado”, diz Chico.

Alterar esse sistema, a conseqüência inevitável da interferência humana em larga escala na região, significa desequilibrar o ciclo de vida no Pantanal. Sabe-se, por exemplo, que o acréscimo de aguapés, provocado pelo assoreamento dos rios, e a matança indiscriminada dos jacarés estão aumentando os cardumes de piranhas nos rios. Não existem números comparativos a respeito, mas o fato é certo.

As aves – a forma de vida que mais chama a atenção no Pantanal – também estão ameaçadas. Ali voam garças, araras, papagaios, biguás, maçaricos, batuíras, colhereiros – e os tuiuiús, de corpo branco e pescoço vermelho, escolhidos por sua beleza como o símbolo oficial da região. Deslumbrados com toda essa abundância, os mais entusiasmados fãs leigos do Pantanal asseguram que a região, como manancial de espécies, é ainda mais rica que a Amazônia. É e não é. Na verdade, explica Wellington Braz Carvalho Delitti, da USP, “as espécies da floresta são mais variadas, mas no Pantanal a quantidade é mais perceptível”.

Aves. Muitas aves. elleon/Getty Images

Um mundo de cheias

No coração da América do Sul, o Pantanal é uma exceção à regra da formação das planícies inundáveis. Essas paisagens quase sempre surgem junto à costa, na altura dos deltas de rio. A bacia do Amazonas, que se estende por quase 7 milhões de km², tem épocas variadas de cheias, conforme o trecho do rio, mas apenas uma estreita faixa de várzea é inundada.

As maiores planícies inundáveis do mundo estão na Ásia. É o caso da planície do Rio Yang Tsé, na China, que ocupa 2 milhões de km², onde existem cidades, como Xangai, cujas populações também se contam aos milhões. As enchentes do Rio Yang Tsé podem inundar centenas de quilômetros de planície. Além deste, também o Rio Huang Ho, no norte da China, forma terras inundáveis e pantanosas.

No Sudeste Asiático, o Rio Mekong inunda as planícies do Laos, Camboja, Vietnã e Tailândia, sendo responsável pela principal cultura da região: o arroz. A planície do delta do Ganges, entre a Índia e Bangladesh, também forma um dos territórios mais férteis e por isso mesmo mais populosos do mundo. Ali, a paisagem alterna plantações de chá e de arroz com florestas tropicais e pântanos.

Em contraste, no norte do continente, os rios siberianos Ob, Ienissei e Lena recebem a neve e o gelo derretido dos maciços da Ásia Central e inundam uma terra menos habitada e coberta pela vegetação de tundra antes de desaguar no Ártico. Uma das planícies inundáveis mais famosas do mundo fica no delta do Mississípi, o maior rio dos Estados Unidos, que cobre uma área superior a 3 milhões de quilômetros quadrados. Antes de desaguar no Golfo do México, ele forma uma malha de canais, cercados por bosques baixos, povoados por uma infinidade de aves e jacarés – agora raros.

Devastação

Recentemente, um encontro realizado em São Paulo pela Fundação Pantanal Alerta Brasil, uma organização ambientalista, mostrou a fragilidade do equilíbrio ecológico da planície. “As terras inundáveis sofrem muito com as alterações que acontecem nas bordas da planície”, acusou na ocasião o geólogo José Domingos Godoy Filho, da UFMT. “O Pantanal recebe toda a carga de agrotóxicos das plantações de soja situadas nas cabeceiras dos rios e sente seus efeitos, como a erosão, assoreamento e contaminação das águas.”

Além disso, a mineração, praticada na beira dos rios, já transformou trechos da paisagem idílica em verdadeiras crateras. Como também lembra o geólogo, um paulista seduzido pelo Pantanal, o mercúrio usado pelos garimpeiros para localizar ouro, depois de escapar para a atmosfera, retorna ao solo e aos rios, trazido pela chuva, contamina a natureza e envenena gente e bichos. Se isso não bastasse, descobriu-se que as queimadas realizadas nos cerrados do Brasil Central elevam a níveis alarmantes a concentração de gás carbônico na atmosfera do Pantanal, durante a estação seca.

Como se sabe, o gás carbônico, resultante do fogo ou da combustão de derivados de petróleo, é um dos maiores causadores do efeito estufa. Como acontece em Porto Velho, a capital de Rondônia, por causa dos gigantescos incêndios provocados pelo desmatamento da Amazônia, também em Cuiabá, no Mato Grosso, que fica ao norte do Pantanal, a fumaça das queimadas obrigou várias vezes ao fechamento do aeroporto por falta de visibilidade.

No encontro de São Paulo, os cientistas brasileiros que defendem uma ocupação menos predadora do Centro Oeste, como uma forma de evitar a destruição da paisagem do Pantanal, contaram com o apoio de um ilustre colega americano. O biólogo Estus Whittfield, diretor da área de meio ambiente do governo da Flórida, comparou a região de Everglades, no seu Estado, ao Pantanal.

Segundo explicou, a ocupação do pântano de Everglades causou tamanho problema no abastecimento de água do sul da Flórida que hoje os americanos estão gastando cerca de 300 milhões de dólares para curar as dores de cabeça que o desenvolvimento trouxe à região. “Se eu lhes contar a nossa história, vocês não vão querer cometer os mesmos erros”, ofereceu-se Whittfield. Resta esperar que os brasileiros estejam dispostos a ouvir.



Fonte: Superinteressante



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

“Comida de humanos” pode até matar os pets! Veja os riscos dessa prática

Leia Mais