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Uma chance de salvar os muriquis, o maior macaco das Américas

Compartilhe:     |  14 de dezembro de 2014

Como pesquisadores descobriram uma população dessa espécie em perigo de extinção a duas horas da cidade de São Paulo

Quem vive na cidade de São Paulo, cercado de prédios e concreto, pode não acreditar, mas a apenas duas horas de viagem da maior cidade da América Latina é possível encontrar uma área protegida de floresta que abriga uma série de espécies selvagens, muitas delas ameaçadas de extinção. Ainda pouco conhecida, a área está sendo estudada por biólogos e pesquisadores, que encontraram uma população dos muriquis, o maior macaco das Américas e uma espécie que corre o risco da extinção.

A reserva, batizada de Legado das Águas, é mantida pela Votorantim. São mais de 30 mil hectares de floresta na região do Vale do Ribeira, perto de Sorocaba. São terras que foram adquiridas pela empresa décadas atrás para garantir o abastecimento de água de um conjunto de hidrelétricas no rio Juquiá, que gera energia para uma fábrica de alumínio. A maior parte da floresta não foi alterada e, portanto, possível encontrar animais raros, como uma anta albina, grandes carnívoros, como a onça parda, além dos simpáticos muriquis.

O estudo sobre os muriquis é coordenado pelo professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Maurício Talebi. Ele apresentou os resultados preliminares da pesquisa na semana passada. O trabalho não é simples. Consiste em entrar na floresta e buscar vestígios da passagem dos muriquis. Até o momento, foram mais de 300 horas de trabalho no meio da floresta, que resultou em sete encontros (avistamentos) com os muriquis e dez horas de contato visual direto. “Ao fim do trabalho, nós poderemos avaliar se o muriqui está ainda mais ou menos ameaçado do que acreditamos atualmente”, diz Talebi.

O muriqui é um animal notável. Adulto chega a ter mais de um metro de altura. Sua calda, majestosa, tem mais de um metro de comprimento, e ele a usa para se mover entre as árvores. Seu comportamento também o difere da maioria dos primatas, incluindo nós, seres humanos. O muriqui evoluiu em uma sociedade sem estrutura hierárquica, onde os conflitos são resolvidos com conciliação e abraços. O muriqui adora abraçar.

Pode não parecer, mas esse animal dócil e curioso também desempenha uma função importante na Mata Atlântica. “Ele é o jardineiro da floresta”, diz Talebi. Os muriquis habitam o topo das árvores e se alimentam de frutos. Como eles estão constantemente se movendo na floresta, acabam dispersando as sementes das árvores mais altas, permitindo que elas se reproduzam. Sem os muriquis, as grandes árvores morrem, e sem as grandes árvores, a Mata Atlântica fica comprometida. É um efeito dominó, já que para se ter água, é necessário haver floresta. No longo prazo, o desaparecimento do muriqui poderá ser sentido nas torneiras de São Paulo.

E eles estão desaparecendo. São duas espécies de muriquis. Os do norte habitam o Rio de Janeiro, Minas Gerais e estão praticamente extintos na Bahia, e são classificados como “criticamente em perigo”, com menos de 1.500 indíviduos. A destruição da Mata Atlântica – só restam 7% da cobertura original do bioma – é a principal causa. Os muriquis do sul habitam o Rio, São Paulo e Paraná, e estão classificados como “em perigo”, com uma população de 2 mil indivíduos.

O desmatamento levou o muriqui à beira da extinção, e o homem pode terminar o trabalho: a caça é hoje a maior ameaça ao maior macaco das Américas. A caça está geralmente associada à extração ilegal do palmito. ÉPOCA já contou essa história. Os palmiteiros entram na mata e, enquanto buscam o palmito juçara, acabam matando os muriquis para consumo humano.

A pesquisa sobre os muriquis na reserva da Votorantim está apenas no começo. Ainda não é possível saber quantos macacos existem na região, se é uma população saudável ou se ela está sob perigo. Mas o fato de encontrar o muriqui no local é um bom sinal. Indica que é possível manter grandes reservas de florestas, com a presença de animais silvestres e protegendo a água, mesmo estando tão perto de uma grande metrópole como São Paulo.

*O repórter viajou a convite do Instituto Votorantim.



Fonte: Época - Blog do Planeta - Bruno Calixto



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