Notícias

Uma erupção vulcânica há 39 milhões de anos enterrou uma floresta no Peru

Compartilhe:     |  11 de junho de 2021

Nas colinas fora da pequena aldeia de Sexi, Peru, uma floresta fóssil guarda segredos sobre os últimos milhões de anos da América do Sul.

Quando visitamos essas árvores petrificadas pela primeira vez, há mais de 20 anos, não se sabia muito sobre sua idade ou como foram preservadas. Iniciamos datando as rochas e estudando os processos vulcânicos que preservaram os fósseis. A partir daí, começamos a reconstituir a história da floresta, desde o dia, 39 milhões de anos atrás, quando um vulcão entrou em erupção no norte do Peru.

A cinza choveu na floresta naquele dia, arrancando as folhas das árvores. Em seguida, fluxos de material cinza passaram, quebrando as árvores e carregando-as como troncos em um rio para a área onde foram enterradas e preservadas. Milhões de anos depois, quando os Andes modernos se ergueram e carregaram os fósseis com eles, as rochas foram expostas às forças da erosão, e as madeiras e folhas fósseis novamente viram a luz do dia.

Esta floresta petrificada, chamada El Bosque Petrificado Piedra Chamana, é a primeira floresta fóssil dos trópicos da América do Sul a ser estudada em detalhes. Ela está ajudando paleontólogos como nós a compreender a história das florestas megadiversas dos trópicos do Novo Mundo e dos climas e ambientes anteriores da América do Sul.

Examinando finas fatias de madeira petrificada sob microscópios, fomos capazes de mapear a mistura de árvores que floresciam aqui muito antes da existência dos humanos.

A chave da árvore de Sexi, Peru, com seções transversais da madeira. Fonte: Mariah Slovacek / Serviço de Parques Nacionais, CC BY-ND.
A chave da árvore de Sexi, Peru, com seções transversais da madeira. Fonte: Mariah Slovacek / Serviço de Parques Nacionais, CC BY-ND.

Madeira petrificada sob um microscópio

Para descobrir os tipos de árvores que cresciam na floresta antes da erupção, precisávamos de amostras finas da madeira petrificada que pudessem ser estudadas ao microscópio. Isso não foi tão fácil por causa do volume e da diversidade de madeira fóssil no local.

Tentamos amostrar a diversidade da floresta contando com características que poderiam ser observadas a olho nu ou com pequenos microscópios de mão, coisas como a disposição e largura dos vasos dentro da árvore que carregam água para cima ou a presença de anéis de árvores. Em seguida, cortamos pequenos blocos dos espécimes e, a partir deles, fomos capazes de preparar finas seções petrográficas em três planos. Cada plano nos dá uma visão diferente da anatomia da árvore. Eles nos permitem ver muitas características detalhadas relacionadas aos vasos, às fibras de madeira e ao componente de tecido vivo da madeira.

Seções finas de madeira identificadas como Cynometra, uma árvore da família das leguminosas. Os vasos na seção transversal têm cerca de um décimo de milímetro de largura. As duas seções à direita mostram detalhes da estrutura de madeira em uma ampliação maior. Fonte: Woodcock et al. 2017, CC BY-ND.
Seções finas de madeira identificadas como Cynometra, uma árvore da família das leguminosas. Os vasos na seção transversal têm cerca de um décimo de milímetro de largura. As duas seções à direita mostram detalhes da estrutura de madeira em uma ampliação maior. Fonte: Woodcock et al. 2017, CC BY-ND.

Com base nessas características, pudemos consultar estudos anteriores e usar informações em bancos de dados de madeira para descobrir quais tipos de árvores estavam presentes.

Pistas na floresta e nas folhas

Muitas das árvores fósseis têm parentes próximos nas atuais florestas tropicais da América do Sul.

Uma tem traços típicos de cipós, que são trepadeiras lenhosas. Outros parecem ter sido grandes árvores de dossel, incluindo parentes da moderna Ceiba. Também encontramos árvores bem conhecidas nas florestas da América do Sul, como Hura, ou árvore da caixa de areia; Anacardium, um tipo de cajueiro; e Ochroma ou balsa. O maior espécime no sítio Sexi – um tronco fóssil com cerca de 75 cm de diâmetro – tem características como as de Cynometra, uma árvore da família das leguminosas.

A descoberta de um mangueAvicennia, foi mais uma evidência de que a floresta estava crescendo em uma altitude baixa perto do mar antes que os Andes se erguessem.

As folhas fósseis que encontramos forneceram outra pista para o passado. Todos tinham bordas lisas, ao invés das bordas dentadas ou lóbulos que são mais comuns nos climas mais frios das latitudes médias a altas, indicando que a floresta experimentou condições bastante quentes. Sabemos que a floresta estava crescendo em uma época do passado geológico em que a Terra era muito mais quente do que hoje.

Esses fósseis de folhas pertenciam a um tipo de mangue, indicando que a floresta estava originalmente perto do mar. Fonte: Serviço Nacional de Parques, CC BY-ND.
Esses fósseis de folhas pertenciam a um tipo de mangue, indicando que a floresta estava originalmente perto do mar. Fonte: Serviço Nacional de Parques, CC BY-ND.

Embora existam muitas semelhanças entre a floresta petrificada e as florestas amazônicas atuais, algumas das árvores fósseis têm características anatômicas incomuns nos trópicos sul-americanos. Uma é uma espécie de Dipterocarpaceae, um grupo que tem apenas um outro representante na América do Sul, mas que hoje é comum nas florestas tropicais do sul da Ásia.

Um artista dá vida à floresta

Nosso conceito de como era essa floresta antiga se expandiu quando tivemos a oportunidade de colaborar com um artista no Monumento Nacional Florissant Fossil Beds, no Colorado, para reconstruir a floresta e a paisagem. Outros locais com árvores fósseis incluem Florissant, que tem tocos de sequoia gigantes petrificados, e o Parque Nacional Petrifed Forest, no Arizona.

Trabalhar com a artista Mariah Slovacek, que também é paleontóloga, nos fez pensar criticamente sobre muitas coisas: como seria a floresta? As árvores eram perenes ou decíduas? Quais eram altas e quais eram mais baixas? Qual seria a aparência delas em flores ou frutas?

Sabíamos, por nossa investigação, que muitas das árvores fósseis provavelmente cresceram em um riacho ou local de floresta inundada, mas e quanto à vegetação que cresce em volta dos cursos d’água em áreas mais altas? As colinas teriam sido cobertas por florestas ou por vegetação adaptada à seca? Mariah pesquisou os parentes atuais das árvores que identificamos, em busca de pistas de como elas poderiam ser, como a forma e a cor de suas flores ou frutos.

Um grande tronco petrificado perto de Sexi, Peru. Fonte: Serviço Nacional de Parques, CC BY-ND.
Um grande tronco petrificado perto de Sexi, Peru. Fonte: Serviço Nacional de Parques, CC BY-ND.

Nenhum fóssil de mamíferos, pássaros ou répteis do mesmo período foi encontrado no sítio Sexi, mas a antiga floresta certamente teria sustentado uma diversidade de vida selvagem. Os pássaros já haviam se diversificado naquela época, e os répteis da família dos crocodilos há muito nadavam nos mares tropicais.

Recentes descobertas paleontológicas identificaram que dois grupos importantes de animais – macacos e roedores caviomorfos, que incluem os porquinhos-da-índia – chegaram ao continente na época em que a floresta fóssil estava crescendo.

Com essa informação, Mariah foi capaz de povoar a antiga floresta. O resultado é uma exuberante floresta à beira-mar com altas árvores floridas e trepadeiras lenhosas. Os pássaros voam pelo ar e um crocodilo salta na costa. Você quase pode imaginar que estava lá, no mundo de 39 milhões de anos atrás.

Fonte: The Conversation / Deborah Woodcock e Herb Meyer
Tradução: Redação Ambientebrasil / Maria Beatriz Ayello Leite
Para ler a reportagem original em inglês acesse:
 https://theconversation.com/a-volcanic-eruption-39-million-years-ago-buried-a-forest-in-peru-now-the-petrified-trees-are-revealing-south-americas-primeval-history-160160



Fonte: Ambiente brasil - National Geographic Brasil



Leia também:

Projetos ambientais
Aqui você é o Reporter

Espaço Animal

Frio: veterinários indicam cuidados com pets

Leia Mais