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Uma reflexão sobre filhos em tempos de mudanças climáticas

Compartilhe:     |  11 de fevereiro de 2020

É difícil ser honesta com o que queremos em nossas vidas e o que pensamos sobre as mudanças climáticas ao mesmo tempo. Uma das grandes preocupações que tenho – e acredito que outras pessoas também – é que ter filhos em tempos atuais significa contribuir para a derretimento de geleiras, aumento do nível dos oceanos e climas extremos. Ou até pior, significa tornar meus filhos vítimas das mudanças climáticas.

Tendo consciência do que está acontecendo hoje na Terra e do futuro que nos aguarda alguns graus a mais, eu me pergunto: Será mesmo um ato de amor ter filhos atualmente? Ou será um ato de fantasia do ego e deveres sociais? Estas nunca foram questões que me deixaram sem dormir, mas agora chegando aos 30 anos e em um relacionamento com amor, confiança e companheirismo, é impossível não questionar o futuro da família que estou formando.

Imagem: Markus Spiske on Unsplash

Em outubro de 2018, o painel de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas reportou que temos 11 anos para fazer mudanças sistêmicas e alterar o curso da humanidade. Em maio deste ano, a ONU prevê um declínio “sem precedentes” na biodiversidade global, nos alertando que mais de 1 milhão de espécies serão extintas nas próximas décadas.

No mesmo mês de maio, eu fiz 29 anos e imediatamente pensei no futuro dos meus possíveis filhos. “Será que eles não verão os animais selvagens que vi em Botswana ou os corais no Pacífico ou os pássaros da Amazônia? Será que o que eu amo na natureza eles não conhecerão?”. Senti uma tristeza profunda por esta perda e em seguida uma raiva por nossa sociedade permitir este assassinato a biodiversidade. Mas agora penso: Como é que explicamos aos nossos hipotéticos filhos que nós os trouxemos para um mundo caótico, cada vez mais inabitável onde grande parte da biodiversidade global foi extinta?

Imagem: Agustín Lautaro on Unsplash

Como ecologista social, ativista ambiental e feminista, eu consigo perfeitamente me imaginar feliz e realizada sem filhos, e respeito também que existem diversas maneiras de ser mãe e ter a experiência da maternidade sem, necessariamente, gestar filhos. Mas ainda assim, eu não estou imune do imperativo biológico que mantém a humanidade por mais de 200 mil anos. E ainda mais, eu gosto de crianças e de estar em família. Tenho momentos de pura alegria por estar na presença dos meus pais, avó e irmãs. Hoje sinto que família é o mais importante na minha vida. E tenho então, o sonho de um dia criar a minha própria ‘grande família’.

Mas e o senso de urgência e todo aquele conhecimento sobre as consequências da degradação ambiental? Deixamos de lado? A certeza que o aumento da população não é benéfico para o planeta. Esquecemos por alguns minutos? O que fazemos com o arsenal de dados alarmantes que temos em mãos?

Parece que enxergar a crise climática e realizar a vontade de procriar não podem habitar o mesmo lugar – ou a mesma pessoa. Ainda assim, esta vontade de ter filhos parece não ir embora. O plural aqui não é uma coincidência, somente mais um fator que amplia este dilema. Eu venho de uma grande família, com irmãs que são minhas melhores amigas e companheiras, temos uma conexão profunda e especial. Naturalmente, quero oferecer a experiência de ter irmãos aos meus filhos. Enquanto isso, o dilema continua crescendo…

Imagem: Ken Liao on Unsplash

Busco então outras opiniões. Durante um jantar, um amigo me disse: “Você pode ter filhos e trabalhar para reverter o aquecimento global, você pode não ter filhos e escolher contribuir com as mudanças climáticas”. Isto era exatamente o que eu queria ouvir, e de certa forma, trouxe um pouco de paz. Porém, na mesma mesa, um ambientalista me diz: “Não ter filhos reduz a sua pegada de dióxido de carbono em 9,441 toneladas durante uma vida de 80 anos.” Que? Isso significa que seria melhor eu ter um avião particular e voar para todos os lugares do que ter um bebê?

Outra dia, estava conversando com uma amiga francesa que está casada há seis anos. No meio do papo, ela diz: “Eu não quero ter filhos, nunca quis. Meu marido não faz muita questão também. Estamos felizes, mas eu sinto que tenho que me explicar para todo mundo e garantir para minha família que tenho um casamento saudável. Quando percebi que podia usar do argumento das mudanças climáticas para evitar estas perguntas detalhadas, minha vida mudou”.

Depois de refletir, comecei a entender que a resposta de não ter filhos por conta da questão ambiental é de certa forma mais aceita. A decisão feminina de não querer ter filhos ainda estranha e assusta a nossa sociedade contemporânea. No entanto, ainda não conheci uma pessoa que escolheu não ter filhos somente pela questão ambiental, em geral é uma decisão tomada por outros fatores e as mudanças ambientais fazem somente parte da decisão.

Durante um evento sobre os direitos das mulheres na China, estava conversando com uma americana sobre este dilema de ter filhos e recebi a seguinte resposta. “Você acha que meus pais, durante a Guerra Fria, foram tomados pelo medo? Claro que não! Se tivessem, hoje eu não estaria aqui para declamar poesias feministas.” Esta mulher tem hoje 4 filhos. O mais novo tem 2 anos.

Imagem: Paddy O Sullivan on Unsplash

A diferença hoje é que as mudanças climáticas já podem ser sentidas. Não é como na época da Guerra Fria, quando o futuro e ameaça nuclear era uma grande incerteza. Atualmente, crianças já estão sofrendo os efeitos da crise climática e nós sabemos, relativamente, o que vai acontecer. Claro, que eu sei também que meu dilema é um privilégio, muitas mulheres ao redor do mundo não podem escolher se ou quando vão ter filhos. Mas ainda assim, isto não torna a minha decisão mais fácil.

Eu posso escolher não propagar meu DNA, porém isto me parece dizer também que eu desisti. Eu admito a derrota, não vale a pena, não tem futuro na Terra. Sinto que se eu escolho não ter filhos por conta da vida assustadora que as mudanças climáticas vão gerar eu estou essencialmente assumindo um papel de perdedor nesta causa.

Quando na verdade eu me sinto de forma contrária, me sinto otimista, vitoriosa. Vejo hoje diversas mudanças positivas em esfera global e individual. Eu sou uma destas mudanças. E tenho esperança que outras(os) jovens como Greta Thunberg irão transformar o mundo em que minhas/meus hipotéticas(os) filhas(os) irão nascer. Mas, também não espero que somente outras pessoas resolvam tudo. Devemos trabalhar juntos, somos um movimento de transição.

Afinal, não existe uma resposta universal para este dilema. É fundamentalmente uma questão particular que deve ser respeitada e celebrada por todas(os), quaisquer que seja a decisão. Acredito que uma grande parte da mudança acontece com pessoas agindo e criando suas/seus filhas(os) de maneira consciente. E a maternidade se torna assim não só uma realização pessoal mas uma ação social.

Imagem: Caroline Hernandez on Unsplash

Termino aqui com o meu desejo de procriar um pouco mais resolvido. E caso aconteça, com a certeza de que estas crianças também irão apreciar seu tempo aqui neste planeta. Nesta tão gloriosa e efêmera Terra que nós herdamos – o que quer que aconteça.

assinatura_Maria_Eduarda



Fonte: Autossustentável



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