Trilhas da Paraíba

Vida mansa em Baía da Traição

Compartilhe:     |  30 de setembro de 2018


No extremo Norte da nossa costa, de onde já é possível avistar a curva que anuncia o Rio Grande do Norte, uma praia vem ganhando a fama de ser o destino de quem busca sossego em meio a belas paisagens naturais.

Estamos falando de Baía da Traição, a histórica e simpática praia que encanta pela tradição indígena e principalmente pela variedade de atrações que oferece. Ali é possível banhar-se em piscinas naturais, navegar até um antigo farol em alto mar, visitar ruínas de igrejas centenárias, apreciar os doces nativos produzidos com frutas tropicais ou assistir a uma bela apresentação de Toré, dança sagrada para os índios Potiguares.  Na Baía da Traição, o tempo corre mais devagar, no ritmo do vento, leve e maneiro.

Há quem diga que a Baía da Traição é a mais bela das praias paraibanas. O que pode parecer exagero, na verdade tem justificativa quando passamos alguns dias nesse belo recanto do Litoral Norte. A Baía é mesmo de fascinar. Na aldeia do Forte, por exemplo, existem canhões da época colonial, apontados para o alto mar.

Só essa imagem já é suficiente para fazer a mente mais criativa imaginar o tempo em que o lugar era disputado por portugueses e holandeses. Dali, do alto da falésia, a visão que se apresenta é no mínimo inspiradora. O forte foi instalado ali por determinação real, numa decisão estratégica para defender a Baía.

Visando o tráfico do pau-brasil, os franceses fundaram ali uma feitoria. Construíram um fortim mas ele acabou sendo destruído. O forte da Baía da Traição era guarnecido por soldados vindos da fortaleza de Cabedelo. Nenhum vestígio desta fortificação permaneceu, a não ser os canhões corroídos pelo tempo.

A história do lugar está contada em muitos pontos da praia. A parte mais importante, no entanto, ainda vive na tradição dos índios que habitam boa parte das terras da região. No município de Baia da Traição está localizada a maioria das aldeias indígenas, que integram a Terra Indígena Potiguara. Hoje, os descendentes do bravo povo que defendeu como poucos a nossa costa da conquista estrangeira vivem da pesca e do artesanato. A Terra Indígena Potiguara é constituída de mais de cinco mil índios, espalhados em dezenas de aldeias.

Mas é lá embaixo, na beira da praia, que a Baía mostra toda sua beleza. A configuração de meia-lua, onde se destacam praias sinuosas, falésias multicoloridas, dunas e uma linha de arrecifes, formando um conjunto harmonioso de rara beleza paisagística, faz da Baía um lugar que encanta aos olhos e ao coração.

Da foz do Rio Camaratuba até a foz do Rio Mamanguape, são 40 quilômetros de belas praias, muitas delas desertas, que convidam para um encontro com a natureza preservada. Uma das mais belas é a praia da Trincheira, onde, em 1625, suas dunas serviram de trincheiras às forças portuguesas na luta contra os holandeses. Mais na frente, a praia de Coqueirinho é um capítulo a parte numa viagem pelo Litoral Norte. Vizinha a foz do Rio Mamanguape, a praia é o que poderíamos chamar de paraíso perdido, um lugar onde o silêncio só é quebrado pelo vento e pelas ondas que quebram nos corais.

Muitos aproveitam a visita para conhecer de perto as praias que cercam a Baía e parecem proteger com seus rios e bancos de corais. No outro extremo, já próximo da fronteira com o Rio Grande do Norte, a Barra de Camaratuba é o destino preferido de surfistas. Esse é sem dúvida o mais belo e preservado recanto do Litoral Norte paraibano, um lugar para sentar e apreciar o que a natureza desenhou com calma e maestria. O cenário ali, a propósito, muda a cada dia, de acordo com o movimento da maré. Imperdível.

Os Potiguaras

Na época da conquista da Paraíba, os Potiguaras, pertencentes à grande família Tupi-Guarani, eram senhores de grandes extensões de terra, que de Pernambuco se defendiam até o Maranhão, constituindo-se na maior e na mais poderosa de todas as tribos existentes no Nordeste, com uma população avaliada em cem mil pessoas.

Eram portadores de elementos culturais e de características físicas semelhantes aos demais aborígines que habitavam o litoral brasileiro, destacando-se pela sua bravura e belicosidade. Não eram traiçoeiros, enfrentavam o inimigo corpo a corpo, e tinham o hábito de esmagar a cabeça daqueles que matavam, só os devorando por vingança, através de rituais, respeitadas algumas formalidades exigidas para o caso.

Belas paisagens

No alto de uma outra falésia, um monumento chama a atenção dos visitantes e parece resistir ao tempo. São ruínas, mas ainda resguardam detalhes importantes de uma grande igreja erguida ali estrategicamente séculos atrás. Construída no século XVI pelos Jesuítas, as ruínas da Igreja de São Miguel talvez seja a mais bela construção que sobrou do período colonial na região.

Suas paredes ainda hoje impressionam, assim como o seu desenho e a riqueza de detalhes das portas e janelas. Ainda esperando um projeto de restauração que traga de volta a opulência de séculos atrás, a igreja está inserida no cenário como uma peça importante na visão da praia e da entrada da aldeia. Visitar a Baía é, a propósito, uma verdadeira aula de história.

Entre a enseada e o aldeamento indígena, mais tarde denominado São Miguel, existia uma grande lagoa que era um verdadeiro mar de água doce, circundada por densa vegetação, em que predominava um imenso cajual. Esta lagoa se comunicava com o oceano nas proximidades do local, posteriormente denominado Forte e era conhecida pelo nome de Acajutibiró, que se estendia até à praia.Para Teodoro Sampaio, um dos mais conceituados tupinólogos do Brasil, a palavra Acajutibiró pode significar sítio de caju de sabor agradável.

Para Francisco Leon Clerot, que foi um dos mais eficientes professores do Lyceu Paraibano e da Universidade Federal da Paraíba, também versado em tupinologia, Acajutibiró pode ser traduzida como abundância de cajus. A Baía da Traição era também chamada pelos Potiguaras de Tibira Caiutuba. Como se pode verificar, todas as traduções do vocábulo Acajutibiró giram em torno do caju, considerado de grande importância pelos Potiguaras e demais aborígines do litoral nordestino.

Do ponto de vista histórico, o topônimo imposto à lendária Acajutibiró, é muito controvertido, com relação à sua origem. Gabriel Soares afirma que no período de 1503 a 1505, os ameríndios mataram alguns náufragos castelhanos e portugueses, razão pela qual o nome traição ainda permanece. O Pe. Rafael Galanti escreve que os indígenas mataram na Baía da Traição dois frades franciscanos, em 1505. Outros historiadores explicam de forma diferente.

Entre todas as versões que circulam a respeito do assunto, a mais viável, apesar de não aceita pela maioria dos historiadores brasileiros, é que o nome traição esteja vinculado à primeira expedição explorada de 1501, da qual participou o famoso Américo Vespúcio, quando três marinheiros portugueses foram mortos e devorados pelos nativos antes recebidos amigavelmente, no primeiro porto onde a flotilha ancorou, no dia 17 de agosto.



Fonte: A União



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