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Vinhedos da França nunca foram tão quentes e secos desde o século XIV

Compartilhe:     |  3 de setembro de 2019

O aquecimento provocado pelas mudanças climáticas já é uma realidade quase rotineira para quem tem menos de 30 anos. Mas, para os estudiosos que se debruçam sobre os registros históricos das alterações, é comum o espanto diante de fatos que tornam inegáveis não só as transformações como os impactos que elas vêm causando, por exemplo, em produções agrícolas.

Um estudo publicado na última sexta-feira (29) pela revista digital europeia “Climate of the Past”, por exemplo, conclui que os vinicultores franceses não passam por uma sucessão de clima quente e colheitas secas desde, pelo menos, a época da Peste Negra, pandemia que devastou a Eurasia, causando a morte de cerca de 200 milhões de pessoas no século XIV.

De acordo com o estudo, coordenado pelo cientista francês Thomas Labbé, as temperaturas mais altas das últimas três décadas anteciparam em cerca de 13 dias a colheita das uvas na Borgonha (rota das vinícolas), tomando como média o padrão de colheita de 664 anos atrás.

“Observando cerca de 300 relatórios meteorológicos documentais, os pesquisadores analisaram o lendário verão quente de 1540 que secou o rio Reno. Naquele ano, os trabalhadores colhiam uvas que pareciam ‘passas secas’ e ‘produziam um vinho doce semelhante ao xerez, que deixava as pessoas rapidamente bêbadas’”, diz a reportagem que republicou o estudo no site Zerohedge.

A questão principal, que já está deixando os consumidores de vinho irritados, segundo reportagem sobre o assunto no “Wall Street Journal”, é que as altas temperaturas fazem com que as uvas amadureçam mais cedo, antes de ficarem completamente ácidas, o que é considerada uma parte crucial do sabor de qualquer vinho.

Vinícolas em São Bento do Sapucaí. — Foto: Carlos Santos/G1

Vinícolas em São Bento do Sapucaí. — Foto: Carlos Santos/G1

Na França, o calor extremo deste último verão provocou seca e, no verão passado, tempestades assustadoras atingiram as regiões vinícolas de Bordeaux, Cognac e Champagne.

Na Itália, o que aconteceu foi um verão de incêndios florestais, tempestades de granizo e outros eventos climáticos extremos destruíram os vinhedos.

A produtora de vinho Paola Del Casale, em entrevista ao WSJ, lamentou a chuva de granizo – “como nunca tinha visto na vida” – , que destruiu pelo menos metade da produção da temporada na vinícola de sua família ao longo da costa do Adriático. As videiras jovens terão que ser replantadas, pois foram danificadas.

“Vamos precisar esperar dois anos para que elas produzam uvas viáveis. É como se eu tivesse perdido este ano completamente”, disse ela.

Tanto a região de Toscana como a de Bordéus dependem há muito de um verão sereno para produzirem alguns dos melhores vinhos do mundo e, até três décadas atrás, tais condições confiáveis permitiram aos produtores serem respeitados em seus códigos rigorosos sobre onde e como produzir um vinho de alta qualidade. As mudanças climáticas, no entanto, estão forçando um rompimento com as tradições.

“Os produtores de vinho da região estão colhendo uvas com mais de um mês de antecedência, às vezes no meio da noite, quando as temperaturas são mais baixas. Na França, alguns deles estão plantando uvas mais duras e reavaliando algumas das variedades mais sensíveis – e famosas – como Riesling e Merlot. Na Itália, alguns estão realocando vinhedos morro acima, onde os microclimas são mais frios. Na Alemanha, a produção do clássico francês Merlot mais do que triplicou nas últimas décadas, à medida que o tempo vem esquentando”, diz a reportagem do WSJ.

Para a indústria do vinho é uma situação bem complicada, mas não irreversível.

Pesquisadores de toda a região estão investigando se é possível tirar proveito da mudança climática transferindo mais produção de vinho para o norte da Europa, mas ali também eles estão enfrentando obstáculos. Mas, na verdade, a instabilidade climática em todo o continente aumentou a incerteza sobre a qualidade, o rendimento do vinho e até sobre quando é possível colher as uvas.

As temperaturas mais altas que permitem que as uvas floresçam mais cedo também as deixam expostas às geadas da primavera, que tendem a permanecer mais tempo nas latitudes do norte. Mudanças drásticas de temperatura criam, ainda, condições para apodrecer fungos, pragas e secas.

“É impossível determinar o curso da temporada até o último momento”, disse Giordano Zinzani, presidente de um consórcio local de vinhos no norte da Itália.

Vinícolas em São Bento do Sapucaí. — Foto: Carlos Santos/G1

Vinícolas em São Bento do Sapucaí. — Foto: Carlos Santos/G1

Outra questão é que as uvas que amadurecem mais cedo por causa do clima quente também podem desenvolver níveis mais altos de açúcar e de álcool. Por conta disso, diz ainda a reportagem do WSJ, em toda a Itália os níveis de álcool aumentaram um ponto percentual nos últimos trinta anos, segundo o grupo agrícola nacional Coldiretti. Em algumas regiões, o nível de álcool de clássicos como Chianti e Barolo ficou ainda mais elevado.

Não são mudanças banais para quem conhece vinho, para os consumidores, para a necessidade de se manter uma tradição nesta cultura.

As mudanças climáticas vão exigir que os grandes produtores tenham mais cuidados e, sobretudo, invistam mais em alta tecnologia ou em outros locais para continuarem no ramo. Já os produtores menores vão ter que tentar sobreviver como for possível.

Eis a questão. Quando se começou a perceber e a tornar públicos os estudos que atestam os impactos que as atividades humanas causam no meio ambiente, com consequência direta nas mudanças do clima, houve um rumor contrário a que os donos das empresas investissem seriamente em diminuir tais impactos.

Milton Friedman, morto em 2006, Prêmio Nobel de Economia em 1976 e conselheiro de Ronald Reagan, foi uma das vozes contrárias a tais adaptações mais ouvidas na época.

Friedman qualificava como imoralidade qualquer iniciativa de um dono de empresa que tentasse atenuar os impactos ambientais, se tal iniciativa implicasse na diminuição dos lucros, como lembra Luiz Marques em “Capitalismo e Colapso Ambiental” (Ed. Unicamp).

“Indagado em 2004 sobre se John Browns, então presidente da British Petroleum, tinha o direito de adotar medidas ambientalistas susceptíveis de afastar a BP de seu lucro ótimo, Friedman respondeu: ‘Não… ele pode fazer isso com seu próprio dinheiro. Se a se deixar guiar por interesses ambientais, ele dirigir a corporação de maneira a obter resultados menos efetivos para seus acionistas, estará sendo, penso eu, imoral. Por mais alta que pareça sua posição, ele é um empregado dos acionistas. Como tal, tem uma responsabilidade moral muito forte em relação a eles’”.

O economista deu tais conselhos, ouvidos por dez entre dez industriais da época, cerca de uma década antes de os efeitos das mudanças climáticas começarem a, efetivamente, ameaçar os resultados para os acionistas. Porque agora, quer queiram quer não queiram, os donos de empresas têm que administrar seus negócios de olho nos impactos que os humores da natureza certamente causarão em seus negócios.

É importante revisitar a história para que se possa, hoje, largar de mão o negacionismo e levar a sério as mudanças climáticas. No caso da indústria de vinho, que só aqui no Brasil deve alcançar R$ 7, 7 bilhões este ano, será crucial tomar medidas relevantes por causa da economia.

Mas há questões que envolvem vidas humanas que estão sendo impactadas pelas mudanças climáticas, como prova o furacão Diana, em plena evolução no Atlântico, que já atingiu Bahamas e está sendo considerado o mais catastrófico da região.



Fonte: G1 - Por Amelia Gonzalez



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