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Visitamos as ruínas de Chernobyl após 30 anos do desastre nuclear

Compartilhe:     |  5 de junho de 2019

Quando o ser humano destrói, a natureza domina, regenera, refaz as coisas a seu modo. Prova dessa sentença é a situação atual da cidade-fantasma de Pripyat, no norte da Ucrânia, quase na fronteira com a Bielorrússia. Em 27 de abril de 1986, um dia depois do maior acidente nuclear da história, todos os 48 mil habitantes da região foram evacuados às pressas pelas autoridades da então União Soviética.

Pripyat foi construída em 1970 para abrigar os trabalhadores da usina nuclear de Chernobyl, a dois quilômetros dali. Era uma cidade-modelo, vitrine e orgulho do regime socialista soviético, totalmente planejada e repleta de equipamentos públicos de lazer e espaços culturais. Amplas praças, cinema, ginásio de esportes e um teatro garantiam o entretenimento das famílias dos operários da usina.

Naquele ano de 1986, o tradicional Dia dos Trabalhadores seria especial para os moradores de Pripyat. Era anunciada para 1º de maio a inauguração de um novíssimo parque de diversões, com carrossel, carrinhos de bate-bate e uma roda-gigante. O terrível acidente de 26 de abril, entretanto, mudaria o curso dessa história. “Na manhã do dia 27, horas antes de a evacuação começar, o parque foi aberto ao público em uma tentativa de dispersar a atenção para a movimentação estranha que havia na região”, contam os guias da ChernobylWel.Com, uma das empresas autorizadas a explorar o turismo na chamada zona de exclusão, área de 2,6 mil quilômetros quadrados que foi isolada após a tragédia.

Maria Tunyk, a guia que conduziu a reportagem da GALILEU, nasceu em Kiev, capital da Ucrânia, cinco anos depois do acidente. A história da sua família, entretanto, está intimamente ligada à fatalidade. Seus avós maternos moravam na região e toda a família foi evacuada naquele fatídico dia. Um detalhe: seu tio, militar, foi destacado para dirigir um dos tantos ônibus utilizados para a operação de evacuação dos moradores de Pripyat.

ANTES E DEPOIS A natureza tomou conta de um restaurante que existia na cidade de Pripyat: a fotógrafa segura a imagem do local antes do desastre  (Foto: Mariana Veiga)

Segundo as recordações de Tunyk, seu tio recebeu a ordem ainda na noite do dia 26, na cidade de Kiev. Ele dirigiu durante toda a madrugada e estacionou o veículo perto da praça principal de Pripyat. Uma fila de veículos se formava ali. Ficou por horas esperando dentro do ônibus, até que o procedimento de evacuação terminasse.

A radiação estava no ar, mas as consequências do acidente eram bastante desconhecidas. “Por causa do calor, meu tio conta que abriu a janela do ônibus enquanto esperava. Não sabia que podia ter morrido por conta disso”, diz a guia. O tio é vivo até hoje — pelo menos até o momento, sem nenhuma sequela. Um estudo realizado 20 anos depois do desastre de Chernobyl pela Universidade de São Francisco, nos Estados Unidos, demonstrou que as pessoas afetadas pela radiação emitida no dia do acidente são 16% mais propensas a ter leucemia em algum momento da vida do que um indivíduo comum. Cerca de 100 mil pessoas foram evacuadas da região atingida. Os moradores foram orientados a pegar apenas seus documentos, com a promessa de que voltariam alguns dias depois. Eles nunca puderam retornar.

DIVERSÃO INTERROMPIDA Carrinho de bate-bate que fazia parte de um parque de diversões na cidade de Pripyat, próximo à usina nuclear de Chernobyl (Foto: Mariana Veiga)

Voltar ao passado
O parque de diversões inaugurado às pressas é a “atração principal” do tour oferecido por empresas especializadas que conduz os turistas pela cidade-fanstasma — só no ano passado, 60 mil visitantes estiveram em Pripyat. Os brinquedos estão corroídos pelo tempo, enferrujados. A roda-gigante nem chegou a funcionar, já que ainda não estava pronta.

As cinco principais empresas turísticas que operam na região possuem uma autorização especial do governo da Ucrânia para visitar a zona de exclusão, que é uma área militarizada. Os guias são treinados pelo Exército em um curso básico de formação: eles são capacitados para proteger os grupos em caso de algum incidente e, principalmente, instruídos a conter turistas mais engraçadinhos que, vez por outra, desrespeitam as normas. Os preços dos passeios variam. O tour de um dia custa 99 euros por pessoa,  o equivalente a R$ 420 na atual cotação. A experiência de dois dias, que promete uma visita mais aprofundada à cidade-fantasma, sai por 279 euros por pessoa — a bagatela de R$ 1.186.

Teoricamente, não há risco em passar um dia entre as ruínas. Os índices de radiação no ambiente atualmente ficam entre 0,9 e 2 microsievert por hora — a medida é utilizada para avaliar o impacto da radiação em humanos. Para ter ideia, dependendo da rota, o passageiro de um voo pode estar exposto a mais de 3 microsievert por hora. Mas as regras são claras: é proibido tocar em qualquer objeto, já que alguns itens ainda carregam níveis impressionantes de radiação, que podem passar de 100 microsievert por hora. Também é proibido entrar em imóveis sem autorização, além de interagir com os animais.

Durante alguns momentos do passeio, os turistas são submetidos a detectores de radiação. Em alguns casos, conforme atesta a empresa, pode ser necessário deixar para trás um sapato contaminado, por exemplo. Os guias também tomam seus cuidados. Eles são monitorados diariamente e, a cada dois meses, submetem-se a uma bateria de exames.

Além do parque de diversões, outras paradas chamam a atenção dos visitantes. É o caso de uma escola infantil nas proximidades da usina. Escombros, bonecas e outros brinquedos deteriorados pelo tempo conferem uma atmosfera tétrica ao local. O hospital também propicia sensações que não são das mais agradáveis, com suas macas desarrumadas e ampolas espalhadas.

Porém, é ilusão achar que todo o cenário está intocado desde o acidente. A guia admite que é relativamente comum a zona de exclusão ser invadida por turistas ilegais. São os autoproclamados “stalkers”, gente que tem como hobby remexer nos objetos deixados para trás, dispondo os itens de uma maneira mais “fotogênica”. Sim, isso é mórbido e bizarro.

ZONA DE EXCLUSÃO Nuvem de radiação liberada após o acidente se  espalhou pela ucrânia e por regiões da europa (Foto:  )

Natureza como ela é
De acordo com um estudo realizado em 2014 pela Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, até a decomposição natural das folhas e caules de árvores ocorre de uma forma diferente desde que um dos reatores da usina de Chernobyl explodiu. O biólogo Tim Mousseau, pesquisador da instituição norte-americana, constatou que a radiação afetou os micróbios da região. Assim, o apodrecimento da flora morta demora mais, o que deixa o cenário ainda mais fúnebre.

“Passamos por uma área com árvores mortas há pelo menos 15 ou 20 anos. Mas elas estavam intactas”, escreve o cientista em um artigo científico. Mousseau e sua equipe obtiveram autorização para colocar amostras de madeira não contaminada no local. Nove meses depois, puderam analisar os efeitos da decomposição do material. Segundo a pesquisa, quanto maior a radiação, menor a perda por apodrecimento no intervalo de tempo.

O estudo constatou, entretanto, que a radiação não interferiu de maneira decisiva nas atividades biológicas de organismos maiores, como os cupins — o que pode explicar o fato de que animais são cada vez mais avistados na área. Entre 2014 e 2015, cientistas da Universidade da Georgia, nos Estados Unidos, instalaram câmeras na zona de exclusão com o objetivo de flagrar a vida na região. Eles descreveram o local como um “vasto santuário” —  os pesquisadores captaram imagens de cervos, lobos, raposas, javalis, alces, veados, bisões e lebres. No total, foram flagradas 14 espécies diferentes de animais.

Conduzida pelo ecólogo James Beasley, a pesquisa mostra que o número de alces, veados e javalis que vivem na zona de exclusão é semelhante às populações existentes em reservas naturais não contaminadas nas proximidades. No caso dos lobos, a quantidade é sete vezes maior na área restrita do que fora dela. “Nossos dados são um testemunho da resiliência da vida selvagem quando livre de pressões humanas diretas, como perda de habitat, fragmentação e perseguição”, escreveu Beasley em seu artigo.

Depósito de material de propaganda soviética: antes do acidente, essas placas ficavam espalhadas pela cidade.  (Foto: Mariana Veiga)

Durante cinco semanas, 94 pontos da zona de exclusão tiveram imagens registradas pelos equipamentos dos pesquisadores. As estações foram aromatizadas para atrair os animais da fauna típica da região. Os cientistas tomaram o cuidado de que cada estação ficasse a pelo menos três quilômetros de distância das outras para evitar que um mesmo animal fosse flagrado por duas câmeras distintas em um intervalo de 24 horas.

“Não encontramos nenhuma evidência de que as populações tenham sido suprimidas em áreas altamente contaminadas”, concluiu Beasley em sua pesquisa. “O que descobrimos foi que os animais eram mais propensos a ser encontrados em áreas de habitat preferido que têm as coisas de que precisam, ou seja, comida e água.”

O trabalho confirmou ainda uma hipótese já há muito discutida pela comunidade científica: a de que a distribuição dos animais na região ucraniana ocorre aleatoriamente, não sendo influenciada pelos níveis de radiação. “Isso não significa que a radiação é boa para a vida selvagem, apenas que os efeitos da habitação humana, incluindo caça, agricultura e silvicultura, são muito piores”, escreveu o cientista ambiental Jim Smith, pesquisador da Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, também participante do estudo.

Apesar disso, ainda não se sabe exatamente como a vida que ali prospera carrega as sequelas da exposição à radiação — nem como tal condição é transmitida entre as gerações. Estudo recente divulgado pela Universidade de Jyväskylä, na Finlândia, afirmou que o índice de cegueira causada por catarata nos animais que vivem na zona de exclusão é maior do que em outros locais.

PASSEIO NO PARQUE Um centro de diversões seria inaugurado em Pripyat durante o Dia dos Trabalhadores: a roda-gigante jamais entrou em operação (Foto: Mariana Veiga)

Cidade dos cachorros
Após uma demora de dois dias para divulgar o acidente na usina nuclear, o governo soviético reconheceu a existência de um desastre ambiental. Mikhail Gorbachev, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética à época, realizou um pronunciamento na rede de televisão do país. “Vocês sabem que houve um inacreditável erro, o acidente na usina nuclear de Chernobyl. Ele afetou duramente o povo soviético e chocou a comunidade internacional.

Pela primeira vez, confrontamos a força real da energia nuclear fora de controle”, disse o líder.
Se a tecnologia humana tem um grande poder de destruição, a natureza responde a isso com sua incansável renovação. Décadas depois do desastre, as ruas de Pripyat estão sendo tomadas por plantas de todos os tipos e tamanhos. Crescem à vontade, quebrando o concreto, invadindo construções. Em frente ao prédio da prefeitura, por exemplo, a escadaria principal viu brotar uma árvore em meio aos degraus da antiga construção.

Durante o passeio, a reportagem deparou-se com uma pequena raposa. Entretanto, são os cães vira-latas que dominam as ruínas de Pripyat. Especialistas asseguraram que pelo menos 250 cachorros vivem na região, muito provavelmente descendentes dos pets que foram abandonados pelos moradores no momento da evacuação. Os “cães de Chernobyl” são assistidos pela ONG The Clean Futures Fund, que há quatro anos arrecada fundos para bancar o trabalho dos veterinários nos cuidados com esses animais: o grupo afirma que muitos dos cachorros estão malnutridos e doentes.

São as consequências da “força real da energia nuclear fora de controle”: para que a região de Chernobyl volte a ser uma área completamente descontaminada, estima-se que sejam necessários 300 mil anos. É um triste lembrete: que a quase infinita capacidade de criação da humanidade não seja responsável por nossa destruição.

Chão do hospital de Pripyat, com registros médicos espalhados. (Foto: Mariana Veiga)


Fonte: Revista Galileu - EDISON VEIGA - EDIÇÃO THIAGO TANJI



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