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Voar é uma habilidade muito preciosa para ser gasta com luzes artificiais

Compartilhe:     |  16 de março de 2019

Me interessa muito as mariposas. Mesmo dotadas de asas de beleza estupenda, capazes de voarem em busca da lua e das estrelas, ficam deslumbradas e ofuscadas por luzes artificiais. Ao invés de se lançarem em longos voos rumo ao céu, se atabalhoam ao redor de luzes artificiais, até que percam sua energia, sua beleza e caiam perplexas e perdidas no solo.

Ao invés de buscarem luzes verdadeiras e perenes, se enganam com o brilho falso das fontes artificiais de brilho e luminosidade. Perdem seu tempo que chocando contra superfícies que não são naturais ou perenes.

Alucinadas com os neons da mediocridade, as mariposas se voltam contra as mariposas livres, que alçam voo em direção aos céus. Desdenham das estrelas pois, para estas, os postes e luminárias estão ao alcance de um bater de asas rápido e superficial, iludidas pela relativa proximidade das luzes artificiais.

É impressionante observar a quantidade de mariposas perdidas e enganadas, que pululam ao redor de falso brilhantismo, de falsa luminosidade, de falsos faróis, num afã trôpego e sôfrego, de alcançar alguma luz que disfarce a insegurança diante da grandiosidade do céu e da força inexorável da natureza e da vida. Rebanhos de mariposas. Multidões de mariposas.

Essas mariposas, pasmadas e apresadas pela falsa luz, se tornam incapazes de usarem suas lindas asas para voarem além. Já não enxergam a verdade, já não podem escapar da pretensão mesquinha das falsas luzes em brilharem mais que as estrelas. Nunca conhecerão o propósito de suas vidas, ou o brilho e o poder de suas asas, pois se engalfinham por migalhas de luzes falsas que nunca serão mais poderosas que as luzes da Natureza. Nesse tropeço, perderão a grandiosidade do céu, enquanto invejam, criticam ou ignoram as mariposas que usam as asas para investigarem o além, para ganharem os horizontes, para irem além da farsa, para pensarem com independência. Perseguem fantasmas, se iludem com fantasias, enquanto fantasiam presas no nada.

Infelizmente não percebem a vacuidade do brilho precário das luzes de ocasião. Embasbacadas, engrossam a geleia geral que pensa ser a terra plana, que vacinas causam autismo, que evolução não existe, que nazismo é de esquerda, que universidades são antros de doutrinação e de imoralidade, que a posição relativa dos planetas no momento do seu nascimento irá determinar sua vida, que a água tem memória, que mudanças climáticas não existem, que a conservação da natureza é inimiga do desenvolvimento econômico, que dinossauros morreram no dilúvio enquanto toda fauna do planeta (incluindo carrapatos e mosquitos vetores) flutuavam numa arca ou, ainda, que fetos abortados são usados para adoçar refrigerantes.

No entanto, a luz verdadeira existe. Ela se chama Ciência. É a única luz de brilho real e cristalino. Fatos científicos não deixam de existir quando deixamos de acreditar neles. Se o falso brilho das luzes artificiais exige a devoção das mariposas iludidas, a ciência exige apenas dedicação e vontade, que abramos nossas asas e voemos sem amarras.

É o entendimento sólido da realidade que deve nortear a vida. Ciência (e por consequência, a natureza) não é de esquerda ou de direita, hétero ou homo, crédula ou ateia. A ciência é simplesmente (e completamente) ciência. A ciência busca entender a essência da realidade da natureza, enquanto a falsidade busca que ignoremos a realidade. A ciência liberta, a falsidade aprisiona.

É a cegueira da falsidade que cria os ataques à verdade. Os ataques às universidades, os ataques à ciência, os ataques à conservação da natureza, à educação, à criatividade, à liberdade de pensamento, nada mais são que sintomas dessa cegueira estúpida e destrutiva, que irá, em última instância, transformar a sociedade em uma massa de mariposas moribundas e miseráveis, prostradas aos pés de um poste de luz, já apagado sob a luz do sol.

Os que tentam desmerecer aqueles que abrem suas asas ao conhecimento se nutrem dessa cegueira. Infelizmente, ofuscados pela falsa luz, se tornam incapazes de vislumbrar a luz das estrelas. Porém, devotos cegos, atacam os que ousam usar asas e olhos para aprender, para criar, para ensinar e para dotar novas gerações das ferramentas que às levarão além.

Não podemos esquecer que é a ciência que permite pensar o presente e planejar o amanhã, num mundo cada dia mais complexo e repleto de desafios. É a ciência que mostra que, sem natureza, não haverá nada. Que não conservar a natureza é o maior ato de estupidez da existência humana. Em todas dimensões de estupidez.

Por isso, apesar da idiotia, da estupidez, da eloquência e da violência das milhares de mariposas iludidas, não podemos ter vergonha em saber. Não podemos ter vergonha em querermos voar além, de usarmos as ferramentas que a evolução nos deu. Caso a ignorância da busca pelo falso brilho acabe transformando tudo em escombros, caberá aos cientistas o resgate de nossa humanidade e à natureza, a nossa salvação.

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.


Fonte: ((o))Eco - Por Reuber Brandão



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