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Voz de alerta para os arrecifes do Caribe ameaçados por mudanças drásticas

Compartilhe:     |  16 de julho de 2014

O ambientalista marinho Eli Fuller há duas décadas explora a faixa costeira de Antiga e Barbuda e alerta que as “mudanças drásticas” que experimentaram os arrecifes de coral desde sua infância “estão piorando cada vez mais”. Por essa razão, não lhe surpreendem as conclusões amplamente pessimistas do estudo Status and Trends of Caribbean Coral Reefs: 1970-2012 (Estado e Tendências dos Arrecifes Coralinos Caribenhos: 1970-2012), elaborado por 90 especialistas internacionais da Rede Mundial de Vigilância de Arrecifes Coralinos (GCRMN), União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Entretanto, também há noticias boas. Segundo os autores, restabelecer as populações de peixe loiro e melhorar outras estratégias, como tomar medidas contra a pesca excessiva e a extrema contaminação costeira, pode ajudar os arrecifes a se recuperarem e inclusive torná-los mais resistentes a futuros impactos da mudança climática. Nos dois últimos verões, “vimos que o nível do mar aumentou muito levemente, mas agora estamos vendo barreiras de coral afetadas pela erosão, especialmente nas costas norte e leste de Barbuda, e em pouquíssimas áreas de Antiga”, detalhou Fuller à IPS.

“Entre Prickly Pear e Long Island, os corais praticamente saiam à superfície. Agora estou vendo veleiros navegando em áreas onde antes encalhavam e precisavam ser resgatados, e agora há mais ondas e mais erosão”, acrescentou Fuller. “Áreas que antes nunca tinham sido afetadas pela erosão agora estão sendo, e terrivelmente. Olho a costa norte de Barbuda e não posso crer na erosão que a atinge. E quando se entra no mar, se vê que o que resta dos arrecifes são apenas as bases das enormes estruturas de coral. Sua parte superior morreu e desapareceu, por isso chega mais água à nossa faixa costeira”, ressaltou.

O especialista se preocupa com o futuro da indústria turística, a principal da região e também a mais importante fonte de divisa para a maioria de seus países. Como Fuller, o biólogo marinho John Mussington considera que a drástica redução dos corais caribenhos “não surpreende”. Ele indicou à IPS que “realmente vimos a redução. As causas que estão listadas incluem turismo, contaminação, mudança climática em termos de aquecimento global, e um outro fator é a sobrepesca”.

Mussington afirmou que os arrecifes cumprem vários papéis cruciais nesse país insular do leste do Caribe. “A praia é um lugar bonito. Temos lindas areias brancas e águas cristalinas. Os arrecifes são responsáveis por isso; se os perdemos, não teremos nem areia nem águas cristalinas”, afirmou. “Esses arrecifes são as barreiras de primeira linha contra as ondas. Se há mau tempo, ondas, tempestades tropicais ou furacões, esses arrecifes são responsáveis por quebrar o impacto dessas ondas. Perdendo os arrecifes, estaremos mais expostos à erosão e à destruição causada pelas tempestades”, explicou.

“Outra função que é muito crucial para nós é que os arrecifes nos fornecem alimentos. Recursos marinhos como peixes, lagostas e caracóis estão associados ao sistema de arrecifes, e, quando se perde isso, perde-se essas coisas”, acrescentou o biólogo, lembrando que o informe deveria servir como alerta para o Caribe, que coloca em risco toda sua crucial indústria turística.

fuller640 Voz de alerta para os arrecifes do Caribe

 

Porém, Mussington disse que no Caribe também há uma técnica para restaurar arrecifes e fazer com que voltem a crescer, que seria uma das principais soluções nas quais se deveriam se centrar os pequenos Estados insulares da região. “Tudo o que se precisa é de um fio e uma fonte elétrica de voltagem muito baixa, que permitirá a sedimentação do cálcio, então, o coral crescerá”, explicou.

O estudo também mostra que alguns dos arrecifes mais saudáveis do Caribe são os que abrigam vigorosas populações de peixe loiro. Entre eles figura o Santuário Marinho Nacional Flower Garden Banks, no Golfo do México, em Bermuda e Bonaire, que “restringiram ou proibiram práticas pesqueiras que prejudicam o peixe loiro, com as armadilhas para peixes e a pesca submarina”. O estudo pede urgência a outros países no sentido de adotarem medidas semelhantes.

“Barbuda está prestes a proibir toda captura de peixe loiro e ouriço do mar, e a designar um terço de suas águas costeiras como reservas marinhas”, afirmou Ayana Johnson, da Iniciativa Blue Halo do Instituto Waitt, que colabora com Barbuda no desenvolvimento de seu novo plano de manejo. “Este é o tipo de manejo agressivo que é necessário replicar regionalmente se quisermos aumentar a resiliência dos arrecifes caribenhos”, destacou.

Segundo a UICN, os arrecifes onde o peixe loiro não está protegido sofreram trágicas reduções. Isto ocorreu na Jamaica, em todo o trecho de arrecife da Flórida, desde Miami até Key West, e nas Ilhas Virgens dos Estados Unidos. O presidente e fundador da Fundação para a Restauração dos Corais, Ken Nedimyer, concorda que “se pode fazer algumas coisas simples, como mudar os hábitos dos peixes e reduzir os insumos de hotéis, centros turísticos, campos de golfe. Os lugares que adotarem essas medidas colherão os benefícios”, afirmou.

A presidente do Museu Nacional de História Natural de Washington DC, Nancy Knowlton, acredita que o surpreendente do relatório está no fato de o problema, realmente, não se registrar em todas as partes, havendo lugares como Bonaire e Bermuda e o santuário de Flower Garden Banks onde os arrecifes prosperam. “Isso se deve ao cuidadoso manejo de arrecife, e creio que isto ocorre apesar das esmagadoras notícias ruins segundo as quais os corais desaparecerão em 20 anos”, pontuou à IPS.

“Do ponto de vista positivo, há exemplos de que, quando as pessoas manejam os arrecifes de maneira adequada, na realidade, eles não diminuem. Penso que esta é a mensagem mais importante do informe, e também a mais surpreendente, porque todos pensavam que os arrecifes caribenhos estavam condenados”, acrescentou Knowlton.

“Ao longo dos milênios, os arrecifes de coral foram ecossistemas habitualmente afetados por furacões, mas sempre se recuperaram, e isto porque as condições locais são favoráveis para seu crescimento. Por isso, criar estas condições favoráveis para que os corais se recuperem é realmente o mais importante a ser feito”, enfatizou Knowlton.



Fonte: Envolverde - IPS



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